Transporte público não pode ser um privilégio

Foto: Acervo/Assessoria

Por Ingrid Sateré Mawé para Desacato.info

Florianópolis vive hoje um grave retrocesso quando o assunto é transporte público. O que deveria ser um direito básico, garantido a todas as pessoas, tem se transformado em um sistema cada vez mais caro, precário e excludente.

Temos, atualmente, a tarifa de transporte público mais alta do Brasil. E o que a população recebe em troca? Ônibus sucateados, com falta de manutenção, atrasos constantes, plataformas elevatórias de acessibilidade que muitas vezes não funcionam, superlotação, horários insuficientes e pontos de parada que não oferecem abrigo nem segurança. Quem depende do transporte público em Florianópolis enfrenta diariamente o descaso. 

Nos últimos anos, a Prefeitura retirou os cobradores dos ônibus com argumentos de que isso reduziria os custos e, consequentemente, o valor da tarifa. Essa promessa não foi cumprida. O preço não baixou. Pelo contrário: continuou subindo, enquanto o serviço só piora. Mais uma vez, quem paga a conta é o usuário.

Agora, a situação se agrava ainda mais com a aprovação da medida que impede o pagamento da tarifa em dinheiro. Essa decisão revela uma mentalidade profundamente excludente e desconectada da realidade social da nossa cidade.

É preciso perguntar: como ficam os idosos ou pessoas que não têm familiaridade com tecnologia? Como ficam as pessoas em situação de vulnerabilidade social, que não possuem cartão, celular ou acesso a aplicativos? Como ficam trabalhadores informais, pessoas em situação de rua, visitantes, ou quem precisa de transporte de forma emergencial? 

É o retrato de um sistema que falha justamente quando alguém mais precisa. Um transtorno para o trabalhador e também para o turista desavisado.

Transporte público precisa ser, de fato, público. Ou seja, acessível a todas as pessoas, sem exceção. Quando o sistema cria barreiras, tecnológicas, econômicas ou burocráticas, ele deixa de cumprir sua função social e passa a reforçar desigualdades.

Modernizar não pode significar excluir. Tecnologia deve ser ferramenta de inclusão, não um filtro que decide quem pode ou não circular pela cidade. Uma capital que se diz inovadora não pode virar as costas para quem mais precisa.

Como vereadora, sigo denunciando esse modelo que prioriza interesses privados em detrimento do direito coletivo. Florianópolis precisa de um transporte público digno, acessível, seguro e humano. Precisamos discutir melhoria da frota, infraestrutura adequada nos pontos de ônibus e, acima de tudo, respeito às pessoas.

Precisamos urgentemente debater também sobre a Tarifa Zero, enquanto tantos lugares no Brasil e no mundo já implementaram esse modelo, Florianópolis segue presa no retrocesso. 

Como resposta a esse modelo excludente, meu gabinete, em conjunto com parlamentares progressistas, protocolou na Câmara Municipal, em 17 de fevereiro de 2025, um Projeto de Tarifa Zero no transporte coletivo. A proposta rompe com a lógica de que apenas quem pode pagar tem direito à cidade e defende o financiamento do transporte como política pública estruturante. Tarifa Zero não é utopia: é uma escolha política que já mostrou resultados positivos em cidades brasileiras, ampliando o acesso ao trabalho, à educação e aos serviços públicos, além de reduzir desigualdades e fortalecer o direito de ir e vir.

Cidade boa não é a que exclui. Cidade boa é a que acolhe, protege e garante direitos. O transporte público é um deles, e não abriremos mão dessa luta.

Ingrid Sateré Mawé
Vereadora de Florianópolis


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