
Criado há mais de três décadas, o Bloco Baiacu de Alguém é um dos símbolos do carnaval popular e comunitário de Florianópolis. Fundado por estudantes universitários no início dos anos 1990, o bloco surgiu da falta de recursos, da criatividade coletiva e da vontade de ocupar as ruas com música e festa. O nome irreverente nasceu quase por acaso, inspirado na tradição local de blocos com nomes ligados ao mar, e acabou se consolidando como marca de um carnaval voltado aos excluídos e à diversidade.
Segundo Nelson Brumota, um dos representantes do bloco, o baiacu foi escolhido justamente por ser um peixe marginalizado, pouco valorizado, o que ajudou a construir a identidade do grupo como um espaço de acolhimento. “Virou o bloco dos excluídos”, resume. Ao longo dos anos, o Baiacu de Alguém se enraizou na memória afetiva da cidade e passou a ser reconhecido como um bloco de resistência cultural.
Nos primeiros anos, o bloco desfilava pelo Centro de Florianópolis. Com o avanço da privatização do carnaval, a imposição de arenas fechadas e a descaracterização das marchinhas e do samba tradicional, o grupo optou por se deslocar para o Norte da Ilha. Há mais de 20 anos, o Baiacu de Alguém atua em Santo Antônio de Lisboa, onde se consolidou como bloco de bairro, comunitário e descentralizado.
Desde 2009, o bloco também funciona como associação cultural e ponto de cultura, sob o nome Pescadores de Cultura. A atuação vai além do carnaval e inclui oficinas de teatro, percussão, confecção de alegorias e atividades culturais ao longo de todo o ano, em parceria com associações de bairro e iniciativas locais. O objetivo é fortalecer os vínculos comunitários e garantir que o carnaval seja apenas uma das expressões desse trabalho contínuo.
Um dos principais diferenciais do Baiacu de Alguém é o compromisso com a inclusão. O bloco desenvolve ações voltadas a pessoas com deficiência, promovendo desfiles acessíveis e protagonizados por pessoas cegas, surdas e cadeirantes. Desse trabalho nasceu, inclusive, o grupo musical “Nós Cego”, formado por músicos cegos que passaram a integrar a cena cultural da cidade a partir do bloco.
Em 2026, o Baiacu de Alguém leva para o carnaval o tema “Ilha, tua beleza te condena – um samba pela terra que resiste”. A proposta é denunciar os impactos da especulação imobiliária, da falta de saneamento básico, do trânsito caótico e da mercantilização da cidade. O samba-enredo funciona como alerta e convite à reflexão sobre os rumos de Florianópolis, sem abrir mão da alegria e da celebração que caracterizam o carnaval de rua.
O Bloco Baiacu de Alguém realiza a abertura do seu carnaval no dia 12 de fevereiro, a partir das 19h, com baile na sede do bloco, em Santo Antônio de Lisboa. O tradicional baile de carnaval acontece na segunda-feira de carnaval, também na sede, com marchinhas, samba e programação voltada para todas as idades. O bloco mantém uma agenda extensa de atividades culturais ao longo do ano, divulgadas pelo Instagram @baiacudealguem.
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