As contradições da nova ponte da Lagoa da Conceição

Nova ponte da Lagoa da Conceição, na época, ainda em obras. Foto: Secom GOV

Por Joana de Paula.*

Há algum tempo venho me inquietando com as obras milionárias e com a entrada, por vezes silenciosa, por vezes escancarada, do empresariado ocupando o lugar do que antes existia em Florianópolis. No meu bairro, a Lagoa da Conceição, essa inquietação ganhou forma concreta com a recente inauguração de mais um símbolo de modernização. A nova ponte da Lagoa da Conceição se apresenta como promessa de avanço urbano, ambiental e de mobilidade. Ainda assim, há algo que não se acomoda. A promessa chega pronta e fechada. Quem a pediu? Talvez o problema comece justamente aí.

A antiga ponte da Lagoa era atravessada diariamente sem cerimônia, sem espetáculo. Estava ali, integrada à rotina, ao hábito e à memória. Sua substituição não foi apenas uma operação técnica, como também simbólica.

O que se observa hoje é a consolidação de uma Florianópolis que se aproxima do que Marc Augé define, em 1992, como não lugar. Espaços pensados para funcionar, mas não para permanecer. Para organizar fluxos, não para produzir vínculos. A singularidade do lugar vai se diluindo aos poucos. Como uma fotografia bonita demais, mas que poderia ser de qualquer álbum. A cidade começa a se tornar genérica, e com isso perde a capacidade de ser reconhecida.

O novo terminal aquaviário da Lagoa reforça essa mesma lógica. Sob o discurso da modernidade e da requalificação urbana, avança um processo de apagamento lento das referências locais. Arquiteturas que não dialogam com o entorno, soluções que repetem fórmulas já vistas em outros lugares. A cidade que se anuncia como única passa a ser igual as outras.

Mas o problema não é apenas simbólico. Ele é técnico, factual e, principalmente, político. Revela a negação do direito à cidade, entendido, como propõe David Harvey, em 1968, não apenas como acesso à infraestrutura urbana, mas como a possibilidade coletiva de decidir sobre a produção e o uso dos espaços. Quando decisões desse porte são tomadas sem debate público consistente, o que se constrói não é apenas uma obra, mas uma forma de exclusão.

Uma das reportagens que celebram a nova ponte afirma que um dos principais avanços em relação à estrutura anterior seria o vão livre três vezes maior, capaz de melhorar a circulação de embarcações e contribuir para a oxigenação entre a Lagoa da Conceição e a Lagoa Pequena. A afirmação é duplamente problemática. Primeiro, porque a Lagoa Pequena não se localiza na Lagoa da Conceição, mas na região do Campeche, sem relação hidrodinâmica direta com a obra. Segundo, porque o argumento ambiental apresentado carece de qualquer base técnica explicitada.

A situação ambiental da Lagoa da Conceição segue se agravando, independentemente da altura ou do desenho da nova ponte. Estudos recentes indicam que as espumas observadas na lagoa decorrem da proliferação de algas potencialmente nocivas, associadas a ambientes com presença de poluição, como aponta laudo assinado por pesquisadores da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Essas algas têm origem marinha ou em sedimentos ressuspendidos no fundo, em areia e lama revolvidas e novamente misturadas à água. Trata-se de um processo diretamente relacionado à degradação da qualidade ambiental do corpo hídrico.

Nesse contexto, o tamanho de uma ponte, por si só, não melhora a oxigenação da água. O oxigênio dissolvido depende de fatores como temperatura, salinidade, circulação hídrica, pressão atmosférica e presença de matéria orgânica. Estruturas construídas sobre a água têm, no máximo, impactos indiretos, positivos ou negativos, relacionados a pilares, fundações e alterações pontuais no fluxo.

O problema central, portanto, não é a falta de uma ponte mais alta ou mais moderna. É a ausência histórica de saneamento adequado, o lançamento contínuo de esgoto e a ineficiência no controle das fontes de poluição. Trata-se de uma responsabilidade que recai sobre o poder público e sobre a atuação da CASAN (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento). Insistir que uma obra viária seria capaz de recuperar a qualidade da água, desvia o debate do que realmente importa. Sem enfrentar o saneamento básico, nenhuma ponte salvará a Lagoa da Conceição.

No campo da mobilidade urbana, o descompasso entre discurso e realidade se torna ainda mais evidente. Após anos de obras e um investimento de dezenas de milhões de reais, a nova ponte não apresenta melhorias concretas significativas no trânsito da região. Ao contrário, concentra fluxos em um único ponto de convergência e reproduz gargalos já conhecidos. Basta ouvir quem passou a utilizá-la diariamente depois da inauguração. O cotidiano costuma ser menos entusiasmado que as imagens oficiais.

Esse padrão não se limita à ponte da Lagoa. Florianópolis tem apostado de forma recorrente na implantação de sistemas binários, apresentados como soluções técnicas para melhorar a fluidez do trânsito. Na prática, esses sistemas apenas redistribuem o tráfego entre vias paralelas. Não reduzem volumes, nem tempos de deslocamento, muito menos a dependência do automóvel. Em muitos casos, ampliam distâncias percorridas, dificultam a circulação de pedestres e comprometem a dinâmica dos bairros.

Assim como a ampliação de vias, os binários operam sob a mesma lógica equivocada: a de que reorganizar o espaço viário é suficiente para resolver um problema estrutural. Estudos sobre mobilidade urbana já demonstraram que a expansão do sistema viário, quando orientada prioritariamente ao automóvel, tende a induzir mais tráfego no médio e no longo prazo. A promessa de fluidez se converte em permanência dentro do carro. Mais tempo parado, menos tempo vivido.

Nesse sentido, a nova ponte da Lagoa e os binários que se multiplicam pela cidade não representam uma mudança de paradigma. São variações de uma mesma estratégia, incapaz de enfrentar as causas profundas da imobilidade urbana. Falta de alternativas modais robustas, fragmentação do planejamento e priorização sistemática de determinados usos da cidade seguem intocadas. A pergunta que permanece é: a quem essas obras realmente servem?

A realidade é que a nova ponte pouco contribui para a melhoria da qualidade da água da lagoa e tampouco para a mobilidade urbana cotidiana. Seu efeito mais evidente é facilitar a circulação de embarcações de maior porte, em uma região marcada pela concentração de marinas, clubes náuticos e estruturas voltadas a um público específico, detentor de capital. A ponte se insere, assim, em uma lógica de cidade pensada para alguns, enquanto a maioria continua presa em congestionamentos diários.

Outro impacto perceptível após a inauguração da nova ponte é a queda no movimento comercial em seu entorno. Comerciantes relatam diminuição no fluxo de clientes, resultado direto da alteração dos trajetos e da reorganização do trânsito, que passou a canalizar deslocamentos sem estimular a permanência. O que antes funcionava como espaço de passagem e convivência tornou-se apenas um ponto de atravessamento rápido.

Há ainda um aspecto pouco debatido, mas central para o direito à cidade: a acessibilidade. A nova ponte apresenta inclinações mais acentuadas, o que pode dificultar ou inviabilizar o deslocamento de pessoas com mobilidade reduzida, idosos e pessoas com deficiência. Em uma cidade que se pretende inclusiva, obras de grande porte deveriam priorizar trajetos confortáveis, seguros e universalmente acessíveis. Quando isso não acontece, a exclusão se materializa no desenho.

Como lembra Milton Santos, em A urbanização brasileira (1993), o Estado revela suas prioridades por meio dos investimentos que realiza. Quando grandes obras avançam enquanto o transporte coletivo permanece precário e as condições de vida se deterioram, fica evidente quem ocupa o centro das decisões. A mobilidade cotidiana, aquela que sustenta a vida urbana, segue relegada a segundo plano.

Florianópolis não carece de pontes monumentais, de discursos grandiosos, e de imagens sedutoras. Carece de planejamento integrado, de respeito à sua história urbana e de políticas públicas que enfrentem, de fato, as desigualdades no acesso à cidade. Caso contrário, seguirá produzindo uma cidade moderna o suficiente para a fotografia e disfuncional o bastante para o cotidiano.

Referências:

AUGÉ, Marc. Não lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 1994.

HARVEY, David. O direito à cidade. Lutas Sociais, 2012. https://doi.org/10.23925/ls.v0i29.18497. Acesso em: 23 dez. 2025.

MOBILIZE BRASIL. Por que a construção de mais vias não alivia os congestionamentos. São Paulo, 28 de outubro de 2015. Disponível em: https://www.mobilize.org.br/noticias/8905/por-que-a-construcao-de-mais-vias-nao-alivia-os-congestionamentos.html. Acesso em: 23 dez. 2025.

ND MAIS. A ponte que Florianópolis espera há anos é liberada e vira maior travessia do interior da ilha. Florianópolis, 19 de dezembro de 2025. Disponível em: https://ndmais.com.br/infraestrutura/ponte-da-lagoa-da-conceicao-e-liberada-em-florianopolis/. Acesso em: 23 dez. 2025.

ND MAIS. Apesar da nova ponte, navegação na Lagoa da Conceição segue limitada e sem prazo de liberação. Florianópolis, 17 de dezembro de 2025. Disponível em: https://ndmais.com.br/infraestrutura/apesar-da-nova-ponte-navegacao-na-lagoa-da-conceicao-segue-limitada-e-sem-prazo-de-liberacao/. Acesso em: 23 dez. 2025.

ND MAIS. Impacto da nova ponte da Lagoa da Conceição em Florianópolis divide opiniões. Florianópolis, 07 de novembro de 2025. Disponível em: https://ndmais.com.br/infraestrutura/impacto-da-nova-ponte-da-lagoa-da-conceicao-em-florianopolis-divide-opinioes/. Acesso em: 23 dez. 2025.

SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. São Paulo: Hucitec, 1993.

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA (UFSC). Laudo da UFSC indica que espuma na Lagoa da Conceição é causada principalmente por poluição. Florianópolis, 17 de outubro de 2025. Disponível em: https://noticias.ufsc.br/2025/10/laudo-da-ufsc-indica-que-espuma-na-lagoa-da-conceicao-e-causada-principalmente-por-poluicao/. Acesso em: 23 dez. 2025.

*mestranda em Geografia pela Universidade Federal de Santa Catarina.


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