Florianópolis também mata de frio

Foto: Reprodução/Internet

Por Luiza Soeiro para Desacato.info

Na cidade de Florianópolis, onde a rua Anita Garibaldi encontra a Avenida Hercílio Luz, em uma segunda-feira de junho de 2023, um homem em situação de rua morreu de frio. O que se pode chamar, em termos técnicos, de hipotermia seguida de parada cardiorrespiratória, prefiro nomear pelo termo que circula nas ruas: morte em decorrência do frio.

Eram onze da manhã, e o termômetro marcava em torno de 11 graus Celsius quando os socorristas chegaram ao local. Encontraram dois homens enrolados em cobertores acinzentados. Um deles estava em estado mais crítico que o outro e, por isso, concentraram o atendimento. Já eram 12h45 quando o homem foi declarado morto.

Isso não é um registro factual. É uma memória. Uma lembrança que me atravessa sempre que passo por aquele ponto exato do centro, naquele ângulo específico onde a câmera da televisão se posicionou. Lembrei disso hoje, ao caminhar por ali, como sempre lembro. O enquadramento retorna inteiro: o repórter em pé, anunciando o caso na televisão aberta, a rua ao fundo, o corpo enrolado na manta em que morreu.

Naquele dia, eu estava na redação, completando meu primeiro ano no curso de Jornalismo, quando vi os produtores daquela redação imensa e climatizada redigirem uma nota sobre o caso. O jornalismo catarinense de uma das maiores empresas de comunicação do estado produzia dois parágrafos sobre um homem que morreu de frio. Quem dera fosse apenas essa a causa. Um homem que morreu também pela negligência de uma prefeitura que prefere multar trabalhadores ambulantes nas praias e criar pix para o transporte público, em vez de cuidar da própria população.

Um governo que assiste seus deputados, majoritariamente brancos e racistas, votarem contra as cotas nas universidades estaduais, mas se torna cego quando o assunto é assistência social. Afinal, para aqueles sem moradia, o mínimo da miséria já é tratado como um grande banquete, não?

Enquanto isso, eu acompanhava tudo da switch, ainda desacreditada. Jornalistas aquecidos, seguindo suas rotinas, enquanto, em pleno ano de 2023, na chamada “cidade do futuro”, ainda se morre de frio. E não falamos de um inverno siberiano ou de temperaturas extremas, mas dos meros onze graus tão comuns ao frio sulista.

O homem morreu, a nota foi publicada, a cidade seguiu seu fluxo. O frio daquela segunda-feira não entrou na redação, não atravessou os vidros, não interrompeu reuniões nem pautas. Seguiu restrito ao corpo que não teve abrigo, nome ou fotografia. Talvez seja isso que mais assuste: não a morte em si, mas a naturalização dela. Quando a cidade aceita que alguém morra de frio em pleno centro, quando o jornalismo reduz essa morte a dois parágrafos e o poder público a trata como estatística inevitável, já não estamos falando apenas de clima ou de gestão, mas de um projeto de cidade que escolhe quem merece viver aquecido e quem pode ser deixado ao relento. E enquanto essa escolha não for confrontada, o inverno continuará sendo apenas um detalhe para alguns e uma sentença para outros.


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