
O que une duas candidaturas indígenas em Santa Catarina, é a força de vontade e determinação para construir um país melhor, de dentro pra fora.
Não podemos considerar duas trajetórias isoladas disputando espaço, mas de um mesmo projeto de poder: o de mulheres indígenas ocupando a política institucional a partir de valores ancestrais, coletivos e feministas, colocando qualidade de vida, terra e comunidade no centro da disputa. Ingrid Sateré Mawé e Nandja Xokleng são hoje as expressões mais visíveis desse projeto no estado E a força do coletivo que move suas campanhas, devem ser lidas.
Um projeto que atravessa corpos e territórios
Historicamente, Santa Catarina construiu sua identidade política em cima do apagamento dos povos originários. Candidaturas indígenas femininas, portanto, não competem apenas por votos: disputam memória, presença e o direito de decidir sobre a própria terra. É esse o sentido mais profundo do que Ingrid e Nandja representam, cada uma a partir de seu território e de sua história, e movidas pela mesma convicção de que política feita por mulheres indígenas fortalece a vida coletiva, e não apenas trajetórias individuais.
Ingrid Sateré Mawé: continuidade e ampliação de um projeto
A trajetória de Ingrid começa em Manaus, onde nasceu e se formou como parte do povo Sateré-Mawé. Formada em Biologia, tornou-se professora, e ao se mudar para Santa Catarina, ganhou nova dimensão: foi na vida sindical, representando professores da rede pública estadual, que aprendeu o ofício de organizar coletivamente demandas concretas, o mesmo ofício que hoje aplica em outra escala.
Bióloga, professora, sindicalista, Ingrid foi a primeira mulher indígena a concorrer ao cargo de governadora em 2018. E essa combinação deu à sua atuação a capacidade de transitar entre o saber ancestral indígena e a linguagem técnica das políticas públicas sem que um anule o outro. Foi por essa via que Ingrid se tornou a primeira mulher indígena eleita vereadora em Florianópolis, marco que sintetiza o tipo de presença que ela representa em espaços historicamente fechados a corpos como o dela.
Mãe, feminista e antiproibicionista, Ingrid integra a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), rede que conecta lideranças indígenas de diferentes regiões do país em torno da defesa de direitos das mulheres originárias. Sua pré-candidatura a deputada estadual foca na ampliação de um projeto já testado, que atravessa educação, saúde do trabalhador, justiça reprodutiva, ativismo socioambiental e direitos humanos como parte de um mesmo compromisso com a justiça social.
Nandja Xokleng: memória como disputa política
Nandja nasceu em Benedito Novo e cresceu na Terra Indígena Laklãnõ, na aldeia Bugio. Sua militância nasceu de uma herança direta: Darci Priprá, sua mãe, e Aniel Priprá, seu tio materno, foram grandes lideranças Laklãnõ Xokleng e referências de luta que a inspiraram, desde criança, a lutar pelo seu povo.
Como ela mesma resume: “a memória é uma disputa política”, frase que carrega o entendimento de que seu povo sempre sofreu com o apagamento de sua história em Santa Catarina.
Técnica em Saúde Bucal e estudante de Odontologia na FURB, Nandja também é conselheira no Conselho Consultivo do Parque Nacional da Serra do Itajaí e liderança do povo Laklãnõ Xokleng. Nandja integra um cotidiano que se organiza, ao mesmo tempo, entre o cuidado familiar e décadas de atuação coletiva.
Desde 2018, Nandja luta pela criação de um museu da Memória Laklãnõ Xokleng em Blumenau, entendendo que essa é uma dívida da região do Vale do Itajaí com seu povo: muitos artefatos Xokleng estão hoje espalhados em museus coloniais, apresentados em narrativas que não partem do próprio povo.
Para Nandja, terra e alimentação são direitos fundamentais que devem ser garantidos a todos os trabalhadores, não apenas aos povos originários, mas através da reforma agrária e políticas públicas que visam o meio ambiente e a segurança de um futuro melhor.
Duas trajetórias, um mesmo horizonte
Colocadas lado a lado, as histórias de Ingrid e Nandja mostram algo maior do que qualquer disputa individual por cargo: revelam a força de um projeto coletivo de mulheres indígenas que se apoiam, se articulam e constroem, juntas, um caminho possível para um Brasil onde a presença indígena na política deixe de ser exceção. Não por acaso, as duas devem seguir próximas nesta campanha, uma dobradinha que, mais do que estratégia eleitoral, expressa essa mesma lógica de união: mulheres que se fortalecem mutuamente para que a mudança, dessa vez, também seja coletiva.
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