Tunísia. Diário de viagem da Flotilla Global Sumud nº 11

Por Manolo Teniente, ativista espanhol na Flotilha.

Passamos uma noite ótima, tranquila, sem grandes ondas, e o dia parece continuar assim. À nossa frente está a costa da Tunísia, sua parte norte, que depois termina e penetra para o sul, em direção à cidade da Tunísia, onde provavelmente chegaremos por volta das 20 ou 21 horas. Ontem à noite, ao ir dormir por volta da meia-noite, avistei, perfeitamente com a lua quase cheia, o pequeno arquipélago tunisino das ilhas da Galita. A maior delas, com o mesmo nome, mede 5,4 km de comprimento e 2,9 km de largura. Lá vivem algumas famílias de pescadores, e foi lá que a França prendeu Habib Burguiba entre 1952 e 1954. Ele liderava o movimento independentista, que culminou em 20 de março de 1956 com a independência da Tunísia, sendo Burguiba o primeiro presidente. Nessa data, comemora-se o dia nacional da Tunísia.

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Hoje lavei roupa pela primeira vez. Assim como quando se lava a louça, é preciso subir água do mar com um balde que temos amarrado com uma corda. Enchemos uma bacia, daquelas pretas de borracha, para lavar, e outra bacia para enxaguar. Não é fácil, o balde de água pesa ao ser retirado do mar e, quando há maré, fica ainda mais difícil. Lembro-me da minha mãe, que vivia num cortiço em Málaga, onde não havia água corrente, e tinha que disputar com as outras mulheres a única torneira de água no pátio e lavar toda a roupa da família na bacia de barro.

Realizamos a assembleia da manhã, onde são anunciadas as novidades. A primeira é que a frota, em princípio, ficará em Tunis até quarta-feira de manhã, quando zarparemos com toda a frota unificada em direção a Gaza. Não haverá mais paradas até Gaza e será em alto mar que a delegação italiana e os navios de outros países do Mediterrâneo se juntarão a nós. Trata-se de aproveitar a segunda e a terça-feira para esperar nossos barcos que se atrasaram e que já partiram das Ilhas Baleares em direção a cá. Também de preparar os navios, com uma nova revisão técnica e completar o abastecimento.

Por outro lado, informamos sobre a previsão do tempo para a semana. Infelizmente, esperam-se fortes tempestades, que atingirão as Ilhas Baleares entre segunda e terça-feira, mas que na quarta-feira chegarão a esta zona. Avaliando sempre a segurança de todas as pessoas que navegam, se na quarta e quinta-feira o mar estiver muito agitado, existe a possibilidade de não partirmos. Temos o luxo e a sorte de contar com um apoio extraordinário de fora. Trata-se de Antonio Turiel, investigador científico do Instituto de Ciências do Mar, do CSIC (Conselho Superior de Investigação Científica). Ele estará monitorando a situação meteorológica, em termos de ventos, marés e tempestades nesta zona do Mediterrâneo, e nos enviará os alertas oportunos através do colega Juan Bordera, com quem mantém contato. Antonio Turiel, na minha opinião, é o maior conhecedor e comunicador da deterioração ambiental que está ocorrendo de forma acelerada no mundo e, além disso, aponta com coragem que o motor da deterioração vem do próprio sistema capitalista, que magnifica o lucro, em detrimento da preservação da espécie humana.

Outra informação que nos chega é que também se junta à Global Sumud Flotilla o navio líbio Omar al-Mukhtar. Este é o nome de um herói nacional líbio, na sua luta pela independência contra a Itália, que morreu executado aos 73 anos. A personagem foi levada ao cinema no filme “O Leão do Deserto”, como Omar era apelidado, e interpretada por Anthony Quinn. A jornalista e ativista britânica Yvonne Ridley embarcará no Omar al-Mukhtar.

Por volta das 20h (horário da Tunísia), já estávamos à deriva, em frente ao pequeno porto de Sidi Bousaid. Uma lancha nos pegaria no barco e levaria ao porto as pessoas que compõem a tripulação. A tripulação, mais a pessoa responsável pela frota no Sirius, continuam navegando até outro porto de maior calado.

Depois de desembarcarmos, 19 pessoas da tripulação passamos pelo controle de passaportes no escritório da polícia de fronteira que fica no porto. Passada a formalidade, saímos para um passeio que contorna o porto, onde há restaurantes e muita afluência de público. As pessoas vêm nos cumprimentar e tirar fotos conosco e com a bandeira palestina, nos agradecem, nos apertam a mão, gritam “Free Palestine” e se emocionam conosco. Alguém traz água e bolinhos, e continuamos tirando fotos com as pessoas, enquanto esperamos o ônibus que nos levará ao hotel, onde esperaremos a partida da frota, prevista para quarta-feira, 10 de setembro.

Antes da chegada do Sirius e do desembarque no porto, quando ainda era dia, foi realizada a recepção oficial da maioria dos barcos da frota, com a afluência de inúmeras pessoas que compareceram com bandeiras palestinas para receber a frota.

Enquanto isso, as últimas informações do Ministério da Saúde de Gaza informam que, nas últimas 24 horas, os hospitais receberam 409 feridos e 87 mortos. O genocídio continua, dia após dia. E os povos continuam manifestando sua repulsa e seu protesto. Hoje, cerca de 100 mil pessoas se manifestaram em Bruxelas contra o genocídio.

Gostaria de esclarecer que o nome Sirius do nosso barco vem do latim e se refere à estrela que mais brilha no firmamento à noite.

Tradução: Deepl com supervisão do Portal Desacato.


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