Durante décadas, governos ocidentais, organizações alinhadas ao Estado de Israel e grande parte da mídia difundiram uma ideia apresentada como incontestável: qualquer crítica ao sionismo equivaleria a antissemitismo. Essa associação serviu para desqualificar denúncias sobre a ocupação da Palestina, dificultar o debate público e silenciar até mesmo judeus que discordam do projeto político sionista.
Esse cenário, porém, começa a mudar.
Foi esse o tema do programa f&f – Informação sem Fronteiras, apresentado por Tali Feld Gleiser e Raul Fitipaldi. A edição reuniu análises sobre o crescimento do antissionismo judaico em diversas partes do mundo e trouxe uma extensa entrevista com a socióloga, pesquisadora e escritora Berenice Bento, autora do livro Dispositivo sionista e seus descontentes: histórias de pessoas judias antissionistas.
O ponto de partida da discussão foi o II Congresso Judaico Antissionista, realizado em Dublin, na Irlanda, que reuniu centenas de ativistas, pesquisadores, sindicalistas, parlamentares e representantes palestinos. O encontro confirmou uma tendência cada vez mais visível: cresce internacionalmente um movimento de judeus que reivindica sua identidade justamente para denunciar a ocupação, o colonialismo e a violência exercidos contra o povo palestino.
Essa transformação possui enorme significado político.
Ao separar judaísmo e sionismo, essas organizações enfraquecem uma das principais bases discursivas utilizadas para impedir críticas às políticas israelenses. Em vez de aceitar a identificação automática entre identidade judaica e apoio ao Estado de Israel, esses grupos recuperam uma tradição histórica frequentemente esquecida.
Uma tradição anterior ao Estado de Israel
Ao contrário do que costuma ser difundido, o antissionismo judaico não surgiu recentemente.
Desde o nascimento do movimento sionista, no final do século XIX, diversos intelectuais, rabinos e militantes judeus se opuseram à criação de um Estado baseado no nacionalismo étnico.
Entre eles estiveram nomes como Albert Einstein, Hannah Arendt, Martin Buber, Judah Magnes, Rosa Luxemburgo e Leon Trotsky, que advertiam para os riscos de transformar uma identidade religiosa e cultural em um projeto estatal sustentado pela exclusão de outro povo.
Hoje essa tradição é retomada por pesquisadores como Ilan Pappé, Avi Shlaim, Norman Finkelstein e dezenas de organizações espalhadas pelos Estados Unidos, Europa, América Latina, Austrália, África do Sul e pela própria Palestina histórica.
O programa apresentou parte desse mosaico de vozes, lembrando que existem movimentos como Jewish Voice for Peace, IfNotNow, Jews for Palestine, Judeus por Palestina, Vozes Judaicas pela Libertação, Neturei Karta, entre muitos outros.
Todos partem de uma premissa simples: criticar o sionismo não significa atacar o judaísmo.
Como nasce um antissionista?
A entrevista com Berenice Bento foi um dos momentos centrais da edição.
A pesquisadora explicou que sua investigação não buscava convencer sionistas a mudar de posição, mas compreender como pessoas educadas durante toda a vida dentro da narrativa sionista acabam rompendo com ela.
Segundo ela, esse processo raramente acontece de forma abrupta.
É uma lenta desconstrução.
As pessoas entrevistadas relatam anos de desconforto, leituras, estudos, experiências pessoais e contato direto com a realidade palestina até perceberem que a versão da história aprendida desde a infância não correspondia aos fatos.
A autora descreve esse movimento como uma verdadeira “arqueologia do eu”: retirar camada após camada de uma identidade construída por família, escola, Estado, comunidade e memória coletiva.
Não existe um único momento decisivo.
Há um acúmulo de pequenas rupturas.
Um filme.
Uma viagem.
Uma conversa.
Uma visita à Palestina.
O contato direto com um posto de controle militar.
A leitura de documentos históricos.
Tudo isso vai desmontando certezas consideradas inquestionáveis.
O dispositivo sionista
Berenice Bento utiliza o conceito de “dispositivo sionista” para explicar esse sistema de produção de subjetividades.
Segundo sua análise, trata-se de um conjunto de mecanismos políticos, culturais, religiosos e educacionais que produz uma determinada percepção da realidade.
Entre os elementos recorrentes aparecem ideias como:
- Israel estaria permanentemente apenas se defendendo;
- o mundo inteiro odiaria naturalmente os judeus;
- qualquer crítica ao Estado equivaleria a antissemitismo;
- o Holocausto justificaria um apoio incondicional às políticas israelenses;
- os palestinos representariam uma ameaça permanente.
Romper com esse conjunto de narrativas implica também romper com vínculos afetivos, familiares e comunitários.
Diversos entrevistados perderam empregos, amizades e relações familiares após assumirem publicamente posições antissionistas.
Ainda assim, todos afirmam considerar essa ruptura uma obrigação ética.

O colonialismo visto por dentro
Outro aspecto destacado pela pesquisadora diz respeito à experiência concreta da ocupação.
Ao visitar a Palestina, ela encontrou pessoas judias que auxiliavam palestinos na travessia dos checkpoints militares, denunciavam violações de direitos humanos e acompanhavam comunidades ameaçadas por colonos.
Essas experiências revelam que o conflito não pode ser reduzido a uma disputa religiosa.
Trata-se de um processo colonial sustentado por ocupação militar, expansão de assentamentos, segregação territorial e profundas desigualdades jurídicas.
É justamente essa dimensão colonial que muitos judeus antissionistas procuram evidenciar.
O debate que já não pode ser silenciado
O crescimento dessas vozes também altera como o debate internacional vem sendo conduzido.
Nos parlamentos, sindicatos, universidades e movimentos sociais, torna-se cada vez mais difícil sustentar que existe apenas uma posição legítima entre pessoas judias.
Ao mesmo tempo, amplia-se o espaço para discutir colonialismo, apartheid, ocupação militar, direito internacional e direitos humanos sem recorrer automaticamente à acusação de antissemitismo como mecanismo de censura.
Isso não significa que o consenso tenha sido alcançado.
Governos continuam fornecendo apoio diplomático, econômico e militar ao Estado israelense.
As sanções internacionais permanecem limitadas.
A campanha de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) segue enfrentando intensa oposição institucional.
Ainda assim, algo mudou.
Como observaram Tali Feld Gleiser e Raul Fitipaldi ao longo do programa, talvez o aspecto mais importante desse novo momento seja justamente que judeus do mundo inteiro estejam reivindicando sua própria identidade para defender os direitos do povo palestino.
Essa mudança rompe uma narrativa construída durante décadas e demonstra que judaísmo e sionismo nunca foram sinônimos.
Ao contrário.
A história mostra que sempre existiram vozes judaicas comprometidas com valores universais de justiça, igualdade e direitos humanos.
Hoje, essas vozes já não ocupam apenas espaços marginais.
Elas começam a influenciar o próprio centro do debate internacional.
E talvez essa seja uma das transformações políticas mais significativas produzidas pela tragédia que continua a se desenrolar na Palestina.
Assista ao programa completo no vídeo abaixo:
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