Por Yasser Jamil Fayad.
Ghassan Kanafani nasceu em 9 de abril de 1936, na cidade de Acre (Akka, em árabe), no litoral norte da Palestina. Apesar de essa data ter sido comemorada como uma forma de lembrar o intelectual palestino, desde muito jovem, Ghassan decidiu não mais usá-la como comemorativa. Isto, pois em 9 de abril de 1948, já nos movimentos preparativos para a Nakba, as tropas terroristas judaicas cometeram incontáveis atrocidades contra civis palestinos na pacata e pacífica aldeia Deir Yassin. Este episódio marcaria as características do Estado nascente de Israel como violento, assassino (incluso de crianças), violador de corpos… e não confiável em seus acordos. Dado que Deir Yassin tinha um tipo de “pacto” de não agressão com os judeus sionistas… seu destino foi a destruição e a morte. Hoje sabemos que a aldeia fazia parte de um movimento maior para desencadear terror e medo na população originária, como elementos fundamentais para a expulsão e expropriação de milhares de palestinos. Ghassan decidira que, a partir de então, não mais comemoraria seu aniversário em tal data. Em respeito à sua decisão, nosso texto recorda a data de seu martírio, 8 de julho de 1972, em Beirute, capital libanesa, aos 36 anos de idade. Seu assassinato foi orquestrado pelo Estado de Israel como uma das políticas de coerção violenta sobre o povo palestino. Kanafani foi um dos vários assassinatos seletivos de lideranças políticas na tentativa de atomizar, isto é, impossibilitar a agregação/ajuntamento de organizações da luta de resistência popular palestina.
Ghassan Kanafani pertence à geração que irá fazer a transição do nacionalismo árabe ao marxismo revolucionário, na década de 60. O Movimento Nacionalista Árabe (MNA) foi uma organização surgida no início da década de 50 que congregava vários militantes palestinos. Tal organização se constituirá em uma espécie de ala à esquerda do movimento nacionalista árabe e gestará dentro dela fortes críticas ao conjunto do movimento. Entre tais críticas estava a falta de uma leitura interna coerente dos países árabes, capaz de associar os setores/classes sociais internas com o imperialismo europeu e estadunidense. O que repercutia na incapacidade de compreender, claramente, o papel de Israel e de seus aliados internos ao mundo árabe. Era como se o nacionalismo árabe tivesse apurado sua capacidade crítica ao imperialismo, em especial ao antigo (europeu) e, debilmente, ao novo (Estados Unidos da América), mas se negasse a olhar dentro de suas próprias sociedades para aqueles setores cúmplices das políticas imperialistas. Esta fragilidade política levava sempre a um fracasso na capacidade de resistência e de alternativa ao imperialismo e a Israel. A experiência da República Árabe Unida (1958 – 1961) aguçou mais a crítica dos setores à esquerda, dos quais os intelectuais palestinos inseridos no MNA, contribuíram largamente. Contudo, a perspectiva de construção de uma unidade ainda era um horizonte perseguido pela organização. O ponto de inflexão foi a derrota de junho de 1967 e a Naksa, palavra em árabe que significa “revés”, onde mais de 300 mil palestinos foram desterritorializados violentamente e a Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental foram ocupadas militarmente por Israel, ou seja, o restante do território histórico da Palestina que não havia sido invadido e roubado 1948 – 1949. Além disso, regionalmente significou a perda das Fazendas de Shebaa, no Líbano, as Colinas de Golã, na Síria, e o Sinai, no Egito, levando ao enfraquecimento do nacionalismo árabe na sua principal manifestação que era o nasserismo. Tudo isso agudizou a crise interna do nacionalismo, levando os setores à esquerda do movimento, em especial de vários integrantes palestinos do MNA, à conclusão da impossibilidade de a burguesia árabe constituir-se como burguesia nacional e anti-imperialista. As traições diante das tentativas de embate produzidas pelo nasserismo expunham claramente as intenções de classe da elite árabe e os limites daquela direção de unificação, em que apostava o MNA, em um projeto nacional árabe unido e anti-imperialista.
A resposta foi a criação de uma organização marxista — conhecida posteriormente com o nome de Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP). Obviamente, tal processo se deu em ambiente de muitas discussões, cisões, unificações, expulsões e muitos rachas políticos que geraram outras organizações do campo da esquerda palestina. Kanafani estava dentro desse turbilhão todo e irá se somar ao esforço de construção do novo partido, a FPLP. Ainda que pela diferença de idade (Ghassan era mais jovem) do que figuras consagradas que tomaram a dianteira naquele momento histórico, como as de George Habash e Wadie Haddad — Kanafani decidirá por segui-los se filiando ao novo partido.
Após o regime reacionário jordaniano expulsar as guerrilhas palestinas de seu território no episódio chamado de Setembro Negro, em 1971. A Frente Popular para a Libertação da Palestina prepararia o seu novo congresso tendo como texto base redigido por Ghassan Kanafani. Ainda que ele não pertencesse ao bureau político do partido, foi chamado por Wadie Haddad para produzi-lo, e o mesmo seria aprovado com pouquíssimas modificações. Será este escrito que, de forma clara, “cristalizará” a leitura política da esquerda marxista em relação às classes sociais no mundo árabe, incluindo a Palestina. Sendo, de certa forma, um acabamento final do longo processo de desenvolvimento das forças políticas palestinas que saíram das fileiras do nacionalismo árabe e adentraram no marxismo revolucionário.
Tanto o texto como sua versão final aprovada pelo partido (FPLP) não carregam nenhuma “ilusão burguesa”, isto é, não existe mais espaço para a perspectiva de uma burguesia revolucionária, anti-imperialista, anti-Israel e unificadora do mundo árabe. Ghassan coloca a burguesia interna em seu devido lugar, ou seja, como inimiga da causa palestina e dos trabalhadores árabes. Na periferia do sistema capitalista esta foi (e continua sendo) uma ilusão alimentada por muitas organizações de esquerda, que ficaram a reboque e à espera de uma mítica e ficcional “burguesia nacional democrática e anti-imperialista”. Ao mesmo tempo em que abandonam a construção de uma autonomia política da classe trabalhadora, isto é, da classe em si em direção à classe para si. É verdade que, regionalmente, o Irã conseguiu criar uma classe dirigente (aristocracia religiosa) que subordinou a sua burguesia interna à condição anti-imperialista, mas isso como produto de uma revolução política, a Islâmica de 1979 — o mesmo fenômeno não aconteceu no mundo árabe. Além disso, Kanafani desconfia da pequena burguesia e de sua tendência de subordinação política a grande, ainda que acredite na possibilidade desta fazer parte da luta nacional palestina, desde que subordinada à direção política da classe trabalhadora.
Passados 54 anos do martírio de Ghassan Kanafani, mais uma vez é recolocado no horizonte da luta palestina (e dos trabalhadores) a necessidade de uma leitura de classes sem ilusões. A burguesia interna ao mundo árabe, incluso a palestina, é entreguista, negociante inescrupulosa, hipócrita… parceira do que existe de pior neste mundo – Israel e o imperialismo estadunidense. A luta para que esta clareza política esteja presente na consciência coletiva do povo palestino é crucial para derrotar todas aquelas organizações e partidos que praticam (“prática como critério da verdade!”) traições à causa, ao expressarem o projeto da burguesia. No fundo, o dilema do futuro da causa palestina depende de romper com as ilusões de unidade com a burguesia e setores a ela atrelados, em um bloco histórico, ou seja, é necessário seguir, de certa forma, o mesmo caminho que levou ao surgimento de uma nova esquerda palestina, na década de 60, rompendo com as ilusões — como diz o título deste texto… é preciso seguir o caminho de Ghassan Kanafani contra as ilusões burguesas.
Yasser Jamil Fayad é médico, poeta, escritor e doutorando em História. Coordenador do Movimento pela Libertação da Palestina – Ghassan Kanafani.
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