Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
“O povo argentino é racista?” A pergunta que orientou a entrevista do programa JTT acabou conduzindo a uma discussão muito mais ampla sobre colonialismo, identidade nacional, supremacismo racial e democracia na América Latina.
Convidado do programa apresentado por Raul Fitipaldi e Sofia Andrade, Federico Pita, ativista afro-argentino, fundador e presidente da DIAFAR (Organização Diáspora Africana na Argentina) e integrante da coordenação do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO), argumentou que o racismo argentino não pode ser explicado apenas pelos episódios de injúria racial que ganham repercussão internacional durante competições esportivas. Para ele, trata-se de um fenômeno histórico, estrutural e institucional, profundamente ligado ao processo de construção do Estado argentino.
Antes de iniciar a entrevista, Raul prestou homenagem ao argentino Juan Carlos Pinedo, um dos fundadores do Movimento Negro Unificado no Brasil. Ao recordar sua trajetória, destacou a importância de recuperar personagens negros frequentemente apagados da história latino-americana, tema que atravessaria toda a conversa.
A Constituição argentina e o ideal de um país europeu
Respondendo à primeira pergunta de Raul, que comparou a reação brasileira aos casos de injúria racial com a percepção de maior tolerância ao racismo na Argentina, Federico afirmou que o problema não pode ser reduzido ao comportamento de torcedores ou jogadores.
Segundo ele, o racismo integra o próprio projeto nacional argentino. Como exemplo, citou o artigo 25 da Constituição de 1853, que estabelece o incentivo explícito à imigração europeia.
Na avaliação do ativista, esse dispositivo constitucional consolidou uma ideia de nação baseada na superioridade da civilização europeia e contribuiu para construir a imagem da Argentina como “o país mais branco da América Latina”. Federico argumenta que essa narrativa invisibilizou deliberadamente indígenas e afrodescendentes, apesar de mais de 70% da população possuir ascendência indígena ou mestiça e de cerca de 5% dos argentinos serem afrodescendentes.
Racismo estrutural aproxima Argentina e Santa Catarina
Durante a entrevista, Raul estabeleceu um paralelo entre o discurso argentino de “nação branca” e a imagem frequentemente atribuída a Santa Catarina como o estado “mais europeu” do Brasil.
Segundo o jornalista, embora não exista um dispositivo semelhante ao da Constituição argentina, o estado reproduz diariamente práticas que reforçam esse imaginário. Raul também chamou atenção para outra dimensão frequentemente esquecida do debate racial: o racismo contra os povos originários e o apagamento histórico dessas populações.
Federico concordou com a análise e afirmou que o Sul do Brasil reproduz mecanismos semelhantes aos encontrados na Argentina. Para ele, a valorização da branquitude associa determinadas regiões à segurança, ao progresso e ao desenvolvimento, enquanto territórios com maior presença negra costumam ser vinculados à violência e à pobreza.
Na sua avaliação, tanto Brasil quanto Argentina preservam a centralidade da população branca nos espaços de poder, ainda que invisibilizem grupos diferentes: enquanto a Argentina apagou historicamente os afrodescendentes, o Brasil frequentemente invisibiliza os povos indígenas.
Futebol apenas amplia um problema anterior
Federico afirmou que a Copa do Mundo e outras grandes competições esportivas funcionam como amplificadores de tensões que já existem na sociedade.
Os episódios de injúria racial praticados por turistas ou torcedores argentinos contra brasileiros, segundo ele, ganharam intensidade em um contexto político marcado pelo fortalecimento dos discursos de ódio durante o governo Javier Milei.
Na avaliação do ativista, quando lideranças nacionais legitimam discursos supremacistas, racistas e xenófobos, parte da sociedade sente-se autorizada a reproduzir esse comportamento em estádios, redes sociais e espaços públicos.
Ao mesmo tempo, Federico alertou para o risco de transformar o debate em uma disputa entre países.
Para ele, perguntar qual sociedade é “mais racista” pouco ajuda a compreender o problema. O racismo, afirmou, funciona como mecanismo de manutenção do poder da branquitude em todo o continente.
Os desafios do movimento antirracista
Sofia questionou o entrevistado sobre como é desenvolver o movimento antirracista na Argentina e quais são os desafios enfrentados por um homem negro que atua politicamente em uma sociedade construída sobre a negação da própria diversidade racial. Também quis saber como esse debate se manifesta no ambiente do futebol, onde rivalidades esportivas frequentemente se misturam com manifestações discriminatórias.
Federico respondeu que o racismo continua sendo um tema incômodo em praticamente todas as sociedades latino-americanas.
Segundo ele, questionar o racismo argentino costuma ser interpretado como um ataque à própria identidade nacional. Acrescentou que as redes sociais e os algoritmos intensificam esse cenário ao favorecer discursos polarizados e superficiais, dificultando debates mais profundos sobre desigualdades estruturais.
Nacionalismo, colonialismo e extrema-direita
Em outro momento da entrevista, Raul ampliou a discussão para o cenário latino-americano.
O apresentador relacionou o crescimento do nacionalismo autoritário ao fortalecimento do racismo e da xenofobia, defendendo que governos alinhados aos interesses geopolíticos das potências ocidentais utilizam esses discursos para fragmentar as sociedades.
Federico concordou parcialmente com a análise, mas propôs distinguir nacionalismos de exclusão daqueles voltados para projetos populares e inclusivos. Segundo ele, o Estado nacional continua sendo um espaço estratégico de disputa política, razão pela qual as novas direitas procuram controlá-lo mesmo enquanto atacam instituições democráticas.
A esquerda ainda subestima o racismo
Um dos momentos mais contundentes da entrevista foi a crítica de Federico às esquerdas latino-americanas.
Na avaliação do ativista, dirigentes progressistas continuam interpretando os conflitos sociais quase exclusivamente pela perspectiva da luta de classes, deixando em segundo plano a questão racial.
Ele afirmou que esse pensamento permanece excessivamente dependente de referências europeias e negligencia intelectuais negros latino-americanos como Clóvis Moura e Lélia Gonzalez, além de autores fundamentais como Frantz Fanon. Para Federico, essa escolha revela menos desconhecimento do que falta de vontade política para enfrentar privilégios historicamente consolidados.
Milei e o avanço dos discursos de ódio
Na reta final da entrevista, Sofia retomou a discussão perguntando se havia ocorrido um aumento do racismo explícito após a eleição de Javier Milei.
Ela observou que lideranças como Donald Trump, Javier Milei e Jair Bolsonaro passaram a expressar publicamente discursos racistas, xenófobos e machistas que antes permaneciam restritos a determinados grupos, contribuindo para normalizar esse tipo de comportamento.
Federico respondeu que a extrema direita demonstra hoje uma ousadia que os setores progressistas perderam. Para ele, misoginia, racismo e xenofobia não constituem meras cortinas de fumaça, mas elementos centrais do próprio funcionamento do capitalismo contemporâneo.
Segundo o ativista, combater a extrema direita exige reconhecer que a questão racial ocupa posição estratégica na disputa política latino-americana.
Palestina e o supremacismo ocidental
Ao comentar a política internacional, Raul associou a lógica do racismo estrutural ao tratamento dispensado à Palestina.
Federico recordou que uma resolução apresentada pela União Africana e pelos países do Caribe reconheceu o tráfico transatlântico de africanos escravizados como um dos maiores crimes contra a humanidade. Destacou que apenas Estados Unidos, Israel e Argentina votaram contra o texto.
Na sua interpretação, essa posição expressa uma mesma matriz supremacista que apresenta determinados Estados como representantes exclusivos da civilização ocidental diante de povos considerados inferiores.
O apagamento das referências negras
No encerramento, Sofia observou os retratos que apareciam ao fundo da imagem de Federico e perguntou quem eram aquelas figuras.
A resposta abriu espaço para uma reflexão sobre memória e representatividade. Federico apresentou imagens de Malcolm X, Angela Davis e Martin Luther King, explicando que cresceu cercado por referências negras em sua família e considera fundamental preservar essas memórias.
Raul retomou o tema para destacar que o apagamento de intelectuais e lideranças negras continua sendo uma das expressões mais persistentes do racismo estrutural, lembrando que muitos brasileiros sequer reconhecem figuras como Clóvis Moura. Federico concordou e relatou que costuma utilizar esse exercício em sala de aula para demonstrar como a sociedade conhece muito mais pensadores brancos do que intelectuais negros.
Ao final da entrevista, Raul sintetizou o espírito da conversa: o debate sobre racismo precisa permanecer permanentemente na agenda pública latino-americana, pois enfrentar a desigualdade exige também romper com os mecanismos históricos de invisibilização que sustentam as estruturas de poder.
Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:
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