
Por Carmen Susana Tornquist*
Fui apreciar este trabalho há umas semanas atrás, e – como aconteceu no seu primeiro show (“A Dor em Si”, de 2024), fiquei (ficamos) super tocada pela forma como a artista consegue transcender a sua própria trajetória em um enquadramento mais amplo, sem cair num vitimismo – passivo por sua própria natureza – e culpabilizador – pela sua própria origem, -tendo em mente que origem da violência contra a mulher (o patriarcado) é social, transcende os indivíduos, envolve até mesmo mulheres na sua triste e dolorosa execução.
Acho que dá pra dizer que ela faz uma sociobiografia, como a que faz Annie Ernaux e mais, ainda, Édouard Louis, em seus trabalhos recentes, entre tantos outros trabalhos nesta perspectiva (cito aqui os que conheço melhor, com o perdão do “eurocentrismo”). Ela vai contando sua história recheada de abusos, violência, dor a partir da pele, da carne, criando uma empatia gigante, entremeada por suas próprias canções. Assim, como nas sociobiografias, ela vai descortinando um universo que é sobretudo – mas não só – social, cultural, daí criando laços com os que a escutam e vêm montando o cenário, numa dinâmica que reflete a sua vida mesma, em permanente busca de um amanhã que vai ser melhor. Assim, ao invés de ficarmos indignados com os executores e executoras as determinações sociais que a fazem “vítima” da violência e constroem sua (nossa) dor, ela vai nos levando, sutilmente, a um final não apenas otimista, mas também coletivo, envolvente, solidário). Da dor de ser mulher, negra, trabalhadora, pobre, no caso particular à tragédia do feminicídio, que ela traz em caixa alta, mais ao final do espetáculo, sabiamente sabendo que sua dor é a de muitas, da injustiça disso.
O roteiro poético nos é relatado por mais de 40 minutos, um texto corrido, a pauta bem cheia, “decorado” literalmente, com o coração, da que ela é autora e tem tudo na ponta da língua, na ponta da alma, na ponta da carne. Ao mesmo tempo, circula com desenvoltura pelo espaço (conhecedora que é dos interiores), arrumando coisas (cadeiras, sapatos, estantes, lenços), modificando brechtianamente o cenário e lembrando que todos temos que arrumar “nossa casa” e a sós ( há solidão nesse processo). E em outras, contando com interlocuções verdadeiras, como a que expressa em um dos momentos mais cálidos do show, em que ela convida, o músico Pedro Erler, seu parceiro neste trabalho, para achegar-se em um banquinho, uma quase-praça, destas em que ainda podemos sentar pra trocar uma ideia, contar um problema, conversar com um amigo. Momento que expressa, também, a meu ver, a aposta na possibilidade escuta, e de troca, entre sujeitos diferentes.
Junto a isso tem, ainda o trabalho incrível dos intérpretes de libras, verdadeiros artistas, parte absolutamente orgânica do espetáculo.
Não há quem saia do mesmo jeito que entrou deste espetáculo.
(e a arte, o que é, senão prá isso!).
Assim como em “A Dor em si”, “A dor em nós ”nos comove, nos cutuca, enraivece, mobiliza a consciência, a solidariedade, nos dá ganas de agir. Como se Negra Si fosse – com -sua resiliência-resistência- e sua arte – umas daquelas flores que nascem do asfalto. Uma aposta na potência gigante da vida que quer sempre explodir, ir além- apesar – e com – a dor. Aposta que nos leva, mansinha, para a epifania final, em que o argumento de tipo “o melhor está por vir” fica explícito e contagia – creio eu – a maioria das gentes. Não entrarei em detalhes, porque epifania tem que ser presencial, e espero que todo mundo possa participar do espetáculo.
*Carmen S. Tornquist, estudou Historia (Licenciatura Plena) na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se graduou em 1986, fez Mestrado em Sociologia Política na Universidade Federal de Santa Catarina (1992) e doutorado em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (2004). Atualmente é professora titular da Universidade do Estado de Santa Catarina, onde atua no departamento de Geografia e no Programa de Pós Graduação em Planejamento territorial e desenvolvimento sócio-ambiental, colaboradora – INTC Instituto Brasil Plural(SC) e membro do Conselho Consultivo da Cátedra Mariátegui ( Peru). Realizou Estágio Pós Doutoral na EHESS (CEIFR) sob a supervisão do prof.Michael Löwy, em 2016.Faz parte da APRUDESC- ANDES Sindicato Nacional.





