
Por Pablo Moscatelli.
O presidente Orsi estreou seu mandato quinquenal no palco mais simbólico da diplomacia internacional: a Assembleia Geral da ONU. Fez isso em um momento crítico da geopolítica mundial, quando assistimos em tempo real a um dos episódios mais desumanos da contemporaneidade: o massacre do povo palestino.
No entanto, ao contrário do que muitos esperavam, em seu discurso não citou Israel, Gaza, nem a palavra “genocídio”. Confrontado em entrevistas posteriores sobre essa ausência, Orsi justificou sua escolha como uma “opção”. Para ele, “adjetivar” e apontar responsabilidades não corresponde à tradição diplomática do Uruguai. Sua aposta, segundo declarou, é outra: oferecer Uruguai como espaço de negociações para alcançar um cessar-fogo.
Mas aqui cabe uma distinção fundamental, como colega Professor, como professor de línguagem espanhol que sou. Genocídio não é adjetivo. É substantivo. Não se trata de mera retórica ou de uma figura de linguagem. É um crime tipificado no direito internacional desde 1948, na Convenção para a Prevenção de Genocídios, que deu origem à própria ONU. Nomear o que acontece em Gaza como genocídio não é ornamentar o discurso com adjetivos, mas reconhecer juridicamente e eticamente um fato.
Evitar “calificativos” pode ser compreensível em um contexto de mediação diplomática. Porém, silenciar diante de um genocídio é neutralidade; é cumplicidade por omissão. A história diplomática do Uruguai sempre se orgulhou de estar ao lado dos povos em luta, de marcar posição diante da injustiça. Omissão, neste caso, não é prudência: é abdicar da tradição de dignidade que marcou o país em outros momentos críticos.
Senhor Presidente, nomear não é adjetivar. É assumir responsabilidade histórica.

Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.




