A CPI da Passarela e o dilema de João Padilha

Por Luiza Soeiro para Desacato.info

Houve um momento, na tarde de quinta-feira, em que a Câmara de Florianópolis pareceu prestes a fazer aquilo que vereadores costumam evitar a qualquer custo: olhar de frente para um esquema que mancha a própria base de governo. A CPI da Passarela – assim já apelidada nos corredores, embora trate de toda a engrenagem da Assistência Social – estava a uma assinatura de sair do papel. E essa assinatura, todos sabiam, era a de João Padilha, do PL.

Ele havia garantido aos colegas que assinaria. Mais do que isso: segundo relatos de dentro da Casa, teria pedido a relatoria da comissão, gesto que normalmente sinaliza não apenas adesão, mas vontade de protagonizar a investigação. Quem pede para relatar quer aparecer ao lado do trabalho, lembraremos que estamos em ano eleitoral. Foi nesse clima de quase-consenso que a tarde avançou, com os vereadores de oposição contando as cabeças e percebendo que, desta vez, o número fechava. Faltavam os oito. Padilha era o oitavo.

E então ele recuou e não assinou. A surpresa, contam, foi geral, e o efeito, imediato. Outros vereadores que já estavam de caneta na mão decidiram esperar. Ninguém quis ser o nome exposto antes do colega do PL se mexer. A hesitação de um virou a paralisia de todos, e a CPI, que parecia inevitável às quatro da tarde, dormiu sem nascer. A leitura que circula entre os parlamentares é direta, quase crua: Padilha estaria segurando a assinatura para não perder os cargos que indicou na gestão de Topázio Neto. A palavra que ouvi mais de uma vez, sempre em voz baixa, foi fisiologismo.

O que a CPI quer abrir

Para entender por que tanta gente quer essa comissão, e por que tanta gente também a teme, é preciso voltar ao que está embaixo dela. A CPI nasce no rastro de duas operações policiais que, somadas, desenharam o mapa de um setor inteiro capturado. A primeira fase, a Operação Pecados Capitais, apurou irregularidades praticadas, em tese, por integrantes das organizações sociais que executavam os projetos Passarela da Cidadania e Restaurante Popular. Como resultado, os termos de colaboração foram descontinuados, treze pessoas foram cautelarmente afastadas de suas atividades e quinze contratos vinculados aos fatos investigados foram suspensos. O mecanismo, segundo a Polícia Civil, tinha um requinte burocrático: outras duas organizações sociais que disputavam o concurso teriam sido afastadas por meio de pareceres ideologicamente falsos, com o objetivo de favorecer a entidade investigada.

A segunda operação, a Backstage, deflagrada na terça-feira da semana passada, foi mais funda e mais alta. Sete pessoas foram alvos do Ministério Público, entre elas a secretária Municipal de Licitações, Contratos e Parcerias, Katherine Schreiner; Anibal Gonzales, ex-secretário adjunto de Assistência Social; e o ex-secretário Leandro Lima, presidente da ONG que administra a Passarela da Cidadania. Outro alvo, Jeferson Melo, secretário-adjunto da pasta na gestão de Gean Loureiro, já havia sido preso em 2024 na deflagração da Pecados Capitais, o que dá a medida de como os mesmos nomes reaparecem, fase após fase, como peças que mudam de tabuleiro mas não abrem mão do jogo.

O dinheiro envolvido também cresceu de tamanho de forma vertiginosa. Em junho do ano passado, o primeiro Termo de Colaboração com a Associação Alberto de Souza foi assinado no valor de R$ 3,3 milhões, com duração de três meses. Depois, foi firmado um novo contrato no valor anual de R$ 21 milhões. É esse salto, de um piloto trimestral milionário para um contrato anual de dezenas de milhões, que a CPI quer destrinchar, ao lado da pergunta que a Polícia Civil já formulou em inquérito: se houve, de fato, pareceres falsos emitidos para desclassificar duas organizações que cumpriram todas as exigências do edital, de modo a garantir que a entidade investigada vencesse.

O paradoxo de Bruno Souza

No centro dessa história há uma figura que complica qualquer narrativa simples de mocinhos e vilões: Bruno Souza, pré-candidato pelo PL, e ex-secretário de Assistência Social. Sua chegada à pasta foi confirmada por Topázio Neto em dezembro de 2024, como indicação do PL, e desde o anúncio chamou atenção pelo fato de ele ser um crítico ferrenho do modelo de assistência então em vigor. Aquele em que, nas palavras que ele mesmo gosta de repetir, pessoas em situação de rua e em uso de drogas têm acesso ao restaurante popular e moradia. Souza construiu sua imagem pública defendendo que a esmola ajuda a manter as pessoas nas ruas e no vício, com bandeiras liberais na economia e conservadoras nos costumes.

A gestão que se seguiu foi, para muitos, um desmonte. Sob seu comando, a Semas publicou em janeiro de 2025 a Portaria 003/2025, que reafirmou o caráter provisório da hospedagem social e centralizou no secretário, em seu adjunto e no subsecretário a decisão sobre qualquer acolhimento. Na prática, registros mostram que negativas de abrigo passaram a ocorrer justamente após a criação dessa regra — incluindo o caso de uma família venezuelana cujo pai, com deficiência visual e somente 15% da visão de um olho, passou a noite na rua depois de ter o acolhimento recusado. A Defensoria Pública precisou recorrer à Justiça, e o juiz Reny Baptista Neto determinou o acolhimento, escrevendo que a separação da família era medida excepcional que precisava ser devidamente justificada.

E aqui mora o paradoxo. O mesmo secretário acusado de endurecer o atendimento aos mais vulneráveis é, segundo seu próprio relato, quem teria se recusado a assinar o contrato que originou a Operação Backstage. Souza afirma que elaborou com sua equipe um termo de referência para a licitação da Passarela, prevendo controle de entrada e saída, crachás, catracas e equipe dimensionada, mas que o documento foi ignorado e, para sua surpresa, venceu uma proposta inflada, com cargos e salários incompatíveis com o termo. A entidade vencedora tinha ligação com o ex-secretário Leandro Lima, que ele descreveu como quem assinava contratos com problemas no passado e voltava agora como responsável por uma nova entidade. Souza diz que se negou a assinar, alegando gasto exagerado de dinheiro público, e que acabou exonerado por Topázio Neto, irritado com a recusa.

Não cabe à reportagem decidir se essa é a versão definitiva ou a reconstrução conveniente de quem precisa se distanciar de um escândalo que nasceu sob seu teto. Mas o relato importa porque expõe o que a CPI teria de iluminar: se um secretário do próprio governo viu o problema e foi afastado por apontá-lo, então o problema não estava na ponta, e sim em quem decidiu seguir adiante apesar dele.

O Hotel 2S e o fio que leva ao gabinete

A outra ponta da investigação é o Hotel 2S, contrato que abriga pessoas em situação de rua e que vem sendo costurado às mesmas suspeitas. O próprio Bruno Souza mostrou em vídeo um documento da Secretaria de Assistência Social no qual uma assistente social comunica à ex-secretária Luciane dos Passos que a proprietária do hotel teria oferecido pagar alguma quantia para manter o serviço lotado. Souza também afirmou que o responsável pelo hotel contratado pela prefeitura seria Anderson Guzzatto, apontado por ele como coordenador de campanha de Fábio Botelho, ex-chefe de gabinete de Topázio Neto e pré-candidato a deputado estadual em 2026.

É esse fio: do contrato de acolhimento até a estrutura de campanha de um nome próximo ao prefeito, que dá à CPI seu potencial mais explosivo e, justamente por isso, explica a relutância de tanta gente em assinar. A vereadora Carla Ayres, do PT, levou o documento da suposta tentativa de suborno à tribuna e cobrou os colegas em tom de ultimato, dizendo que quem não assinar a CPI será conivente com o que ela chamou de trator que Topázio e Fábio Botelho estariam passando sobre eles. A frase circulou. E a pressão da situação, no sentido oposto, também: o secretário da Casa Civil, Thiago de Oliveira, passou horas na Câmara reunido com o presidente João Cobalchini e vereadores governistas, tentando dissuadi-los de assinar.

A conta de Padilha

Voltemos, então, ao homem da assinatura que não veio. O cálculo atribuído a João Padilha tem uma lógica fria e, infelizmente, testada: a de que a população esquece. A leitura que corre na Câmara é que ele aposta nesse esquecimento, confiando que o custo de hoje não chegará à urna em 2028, quando pretende disputar a reeleição. É uma aposta no curto prazo da memória pública contra o longo prazo do interesse público, e o detalhe que torna o gesto mais difícil de defender é que, segundo se apurou, entre as lideranças do PL não há qualquer ordem para que ele segure a caneta. A trava, se existe, é dele.

Há algo de revelador no fato de ser Padilha o fiel da balança. Ele construiu, na Comissão de Constituição e Justiça, uma imagem de combatividade ideológica, o vereador que peita pautas, que aciona o argumento da inconstitucionalidade, que se posiciona com firmeza quando o tema lhe interessa. Foi assim quando a CCJ atropelou o voto de vista da oposição para aprovar o projeto que veda a participação de menores na Marcha da Maconha, e é assim quando barra, sob o argumento de competência da União, qualquer diretriz pedagógica ligada à diversidade nas escolas. A combatividade, em Padilha, sempre teve endereço certo: as pautas de costumes. A pergunta que a CPI agora coloca é se essa combatividade resiste quando o alvo deixa de ser uma manifestação cultural e passa a ser a própria gestão que lhe rendeu cargos.

Porque é disso que se trata. Uma coisa é ser linha-dura contra adolescentes numa marcha. Outra, bem diferente, é assinar um documento que pode expor contratos de R$ 21 milhões, suspeitas de suborno num hotel social e o nome de um aliado do prefeito numa coordenação de campanha. A primeira combatividade não custa cargo. A segunda, sim. E é exatamente nesse ponto que a coragem ideológica de gabinete encontra seu limite: o limite onde a convicção esbarra na conveniência.

O assunto, registre-se, já ganhou dimensão suficiente para cobrar seu preço. A avaliação que se ouve na Casa é que os vereadores que não trabalharem pela abertura da comissão sairão politicamente desgastados, e Padilha, por ter chegado tão perto e recuado, é hoje o rosto mais visível desse dilema. A expectativa, ao fim de quinta-feira, era que ele mudasse de ideia ao longo de hoje e assinasse. Se o fará por convicção, por cálculo eleitoral ou por cansaço da exposição, é coisa que só os próximos dias dirão.


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