Como vivem os imigrantes brasileiros que trabalham no Japão? 

Apesar de entrarem legalmente no Japão e terem documentação regular, muitos brasileiros enfrentam jornadas superiores a 12 horas em trabalhos pesados e repetitivos. A legalidade não elimina a precarização, a discriminação e as dificuldades para conquistar melhores condições de vida.

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

A migração de brasileiros para o Japão, iniciada em larga escala na década de 1990, é um dos fenômenos mais marcantes das transformações do mundo do trabalho nas últimas décadas. No JTT, apresentado por Raul Fitipaldi e Sofia Andrade, a socióloga Mariana Shinohara Roncato, professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), pesquisadora colaboradora da Unicamp e autora do livro Fronteiras do Trabalho: Migração Decasségui e Reprodução Social, explicou como essa experiência ajuda a compreender as relações entre capitalismo, mobilidade da força de trabalho, racismo e xenofobia.

Ao longo da entrevista, Mariana contextualizou a origem da migração dos chamados decasséguis — descendentes de japoneses que deixaram o Brasil para trabalhar no Japão após mudanças na legislação migratória japonesa. A abertura parcial do mercado de trabalho buscava suprir a escassez de mão de obra em setores como as indústrias automobilística e eletroeletrônica, ao mesmo tempo em que o Brasil atravessava um período de desemprego, reformas neoliberais e precarização das condições de vida da classe trabalhadora. O resultado foi a formação de uma das maiores comunidades brasileiras no exterior, com centenas de milhares de pessoas vivendo atualmente no Japão.

A conversa também recuperou a longa história das relações migratórias entre Brasil e Japão, iniciadas em 1908 com a chegada dos primeiros imigrantes japoneses ao porto de Santos. Mariana analisou como essa imigração esteve ligada ao projeto de formação da sociedade brasileira após a abolição da escravidão e às políticas de imigração da época, marcadas por critérios raciais e pelo ideal de embranquecimento da população. Décadas depois, o fluxo se inverteu: agora são brasileiros descendentes de japoneses que atravessam o oceano em busca de trabalho e melhores condições de vida.

Durante o programa, Raul Fitipaldi propôs uma reflexão sobre a transformação dos trabalhadores em “commodities” dentro da lógica capitalista. Mariana aprofundou essa discussão mostrando que os países receptores se beneficiam da chegada de trabalhadores em idade produtiva, enquanto os custos sociais relacionados à infância, ao envelhecimento, à saúde e à assistência permanecem nos países de origem. A pesquisadora também abordou o papel das remessas enviadas às famílias e como a migração reorganiza a reprodução social em escala internacional, tornando-se funcional para as economias que dependem dessa força de trabalho.

Outro ponto central da entrevista foi a realidade enfrentada pelos brasileiros no Japão. Embora ingressem legalmente no país e possuam documentação regular, muitos trabalham em jornadas exaustivas, frequentemente superiores a doze horas diárias, em atividades pesadas e repetitivas. Mariana ressaltou que a regularidade migratória não impede que esses trabalhadores enfrentem precarização, limitações de direitos e dificuldades para ascender socialmente, revelando as contradições do modelo que combina necessidade econômica e exploração da mão de obra.

Encerrando a conversa, Sofia Andrade abordou as manifestações de racismo e xenofobia sofridas pelos descendentes de japoneses no próprio Japão. Mariana explicou que, apesar da ascendência japonesa, esses brasileiros continuam sendo percebidos como estrangeiros e vivenciam processos de discriminação relacionados à nacionalidade, à cultura e à posição ocupada no mercado de trabalho. A pesquisadora destacou que a migração é um fenômeno privilegiado para compreender as relações entre trabalho, raça, gênero e nacionalidade, revelando como as fronteiras continuam produzindo desigualdades mesmo quando a circulação da força de trabalho atende aos interesses econômicos dos países receptores.

Nota: No dia 13 de agosto, Mariana Shinohara Roncato será uma das participantes do Seminário Internacional Migração, Racismo e Xenofobia, em Florianópolis.

Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:

 


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