Pelo Centro de Estudos Legais e Sociais.
Na quinta-feira, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, organizou uma reunião com representantes de 66 países. A pauta do encontro foi alertar sobre o suposto “ressurgimento do terrorismo de extrema esquerda” e promover a cooperação entre serviços de inteligência e forças de segurança dos países para “esmagá-lo”.
Muitos governos enviaram representantes de baixo escalão para a reunião, mas a Argentina esteve representada pelo vice-chanceler Pablo Quirno.
O encontro foi acompanhado da publicação de um documento do Departamento de Estado sobre o mesmo tema. Nele, fala-se de um terrorismo de esquerda transnacional que “ataca cidadãos, autoridades governamentais, policiais e agentes de segurança, empresas e infraestruturas críticas em todo o mundo”. Com dados extremamente imprecisos e misturando situações de naturezas muito distintas ocorridas na Europa e nos Estados Unidos, o governo estadunidense estabeleceu uma linha de continuidade entre os movimentos armados das décadas de 1960 e 1970 (principalmente latino-americanos) e esses episódios difusos, partindo do pressuposto de que algo como o “terrorismo de esquerda” efetivamente existe.
Rubio afirmou que “devemos identificar e mapear essa ameaça, assim como reconstruir nossa arquitetura antiterrorista para derrotá-la, tal como fizemos juntos anteriormente”. Na América Latina, essas palavras representam uma reivindicação aberta das ditaduras militares do século XX e de mecanismos de coordenação repressiva, como a Operação Condor.
Com esse mesmo argumento, essa “arquitetura antiterrorista” desencadeou processos de terrorismo de Estado e genocídios em toda a América Latina. A ameaça feita por Rubio é bastante explícita: Washington parece disposto a repetir essa violência estatal extrema e as gravíssimas violações de direitos humanos que dela decorreram.
Como, na prática, já não existem hoje movimentos armados semelhantes aos do século XX mencionados por Rubio, é preciso observar quais fatos e quais grupos políticos o governo dos Estados Unidos classifica como terroristas de esquerda, para compreender qual modelo de perseguição política pretende impulsionar no restante do mundo. Entre eles estão os chamados antifa, grupos descentralizados que enfrentam a extrema direita, o racismo e o colonialismo por meio de ações de rua e ativismo digital.
Os Estados Unidos têm se referido repetidamente a esses grupos como se fossem uma espécie de conspiração internacional altamente organizada. Em setembro de 2025, o presidente Donald Trump os declarou uma organização terrorista, embora claramente não constituam uma organização. Também foram enquadrados como “terroristas domésticos” alguns dos grupos que se opõem à perseguição sistemática de migrantes promovida pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE, na sigla em inglês). O caso mais conhecido foi o protesto em frente ao centro de detenção de Prairieland, no Texas. A intervenção violenta da polícia provocou confrontos, que resultaram na prisão de 11 pessoas.
Nesse caso, misturaram-se duas questões: o governo afirmou que os manifestantes integravam a “célula antifa” do norte do Texas e, como a organização havia sido declarada terrorista, em junho deste ano seis dessas pessoas foram condenadas a penas entre 30 e 70 anos de prisão por participarem de um protesto no qual ocorreram distúrbios. Um dos manifestantes, que disparou contra um policial, recebeu uma pena de 100 anos de prisão.
Fica claro que o principal alvo dessa perseguição política é o protesto e a organização social, especialmente aqueles associados a diferentes formas de ação direta. Tanto nos Estados Unidos quanto na Europa observa-se, nos últimos anos, uma tendência de classificar como terroristas ou extremistas violentos manifestantes e ativistas que adotam táticas de ação direta que, em alguns casos, provocam danos ao patrimônio. Esses episódios passam a ser enquadrados, investigados e julgados como questões de “segurança nacional”.
Entretanto, considerando o teor do discurso de Rubio, com suas arengas antimarxistas e contra a esquerda em geral, tudo indica que essa perseguição poderá se estender aos grupos de oposição, e não apenas aos grupos que recorrem à ação direta. De fato, integrantes do governo Trump têm se referido repetidamente ao próprio Partido Democrata (que dificilmente poderia ser acusado de marxismo) como uma “organização extremista”.
O deslocamento para a extrema direita e a consequente instrumentalização política da definição de “terrorismo” constituem uma característica do atual governo dos Estados Unidos e de vários de seus aliados na região. Em maio deste ano, foi publicada a nova Estratégia Antiterrorista dos Estados Unidos, que distingue três grandes categorias de terroristas: os “narcoterroristas e gangues transnacionais”, os “terroristas islamistas históricos” e os “extremistas violentos de esquerda, incluindo anarquistas e antifascistas”.
O terrorismo de extrema direita não é incluído como objeto de preocupação, embora os episódios mais graves de violência ocorridos nos Estados Unidos — com exceção dos atentados de 11 de setembro de 2001 — tenham sido perpetrados por supremacistas brancos ou por outros grupos de extrema direita.
A ideia de um “terrorismo de extrema esquerda” não faz parte da agenda de segurança da Argentina desde a década de 1990. No entanto, no ano passado, esse conceito já havia sido incorporado ao Plano Nacional de Inteligência, que incluiu o “terrorismo anarquista” como uma das hipóteses de risco a serem monitoradas pelos serviços de inteligência argentinos, sem que se esclareça exatamente a que essa categoria se refere.
O governo argentino deve explicar qual foi seu papel na reunião convocada por Rubio e o que entende por “terrorismo de esquerda”. É fundamental que todo o espectro político estabeleça limites a essas iniciativas que utilizam as políticas antiterroristas como pretexto para a perseguição política, a restrição das liberdades e a legitimação da violência estatal.
O Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS) é uma organização argentina de direitos humanos, fundada durante a última ditadura militar. Atua na promoção da proteção dos direitos humanos, de seu exercício efetivo, da justiça e da inclusão social, tanto em âmbito nacional quanto internacional.
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