Da xenofobia de bem à teoria da conspiração: o ódio à Argentina na Copa do Mundo

Incentivar o ódio entre povos latino-americanos interessa apenas ao imperialismo estadunidense. Brasil e Argentina compartilham desafios comuns, e a rivalidade não deve servir para dividir aqueles que têm mais motivos para construir solidariedade do que animosidade.

Por Francisco Fernandes Ladeira.

Geralmente, em períodos de Copa do Mundo, os nervos ficam à flor da pele. Em muitas ocasiões, isso acontece não apenas pelo que acontece dentro das quatro linhas. Esse tipo de contexto favorece aquilo que os psicólogos chamam de “efeito manada”, fenômeno social em que indivíduos copiam as ações, escolhas ou opiniões da maioria sem uma análise crítica individual. Ele é impulsionado, basicamente, pelo desejo de pertencimento e pelo medo de ficar de fora ou ser excluído. Em tempos de redes sociais, esse fenômeno é impulsionado a níveis estratosféricos.

No Mundial recém-encerrado, o efeito manada da vez foi o ódio à Argentina, uma espécie de “xenofobia de bem”, utilizada a partir do argumento de que os “argentinos são racistas” e a “Copa teria sido armada para a Argentina ser campeã”. O jornalista Breno Altman, por exemplo, foi além. Utilizou-se de sua legítima luta contra Israel para inventar uma teoria da conspiração de que a seleção de Messi representaria o sionismo na Copa. Uma ideia digna dos melhores dias de Olavo de Carvalho; só que, vergonhosamente, divulgada por alguém que se vende como “à esquerda” no espectro político. O ódio aos argentinos foi tanto que ele fez até torcida histérica pelos países imperialistas.

Se a Argentina fosse realmente uma “seleção sionista”, por que, em 2018, cancelou um amistoso com Israel, que seria realizado em Jerusalém ocupada? Contra fatos não há argumentos. Além do mais, Maradona, maior ídolo da seleção argentina, defendia publicamente a Palestina, numa época na qual a cartada do “antissemitismo” para os críticos da entidade sionista era muito poderosa.

Se a Argentina foi a “vilã”, o posto de “herói” coube à sua adversária da final, a Espanha. No entanto, Ferran Torres, autor do gol do título espanhol, em aparição pública, comemorou o feito de sua seleção usando um boné inspirado no movimento MAGA, de Donald Trump. O escrete espanhol é fascista? Evidentemente, não! Só para ilustrar como opera a lógica maniqueísta das interpretações de mundo acaloradas.

Claro que há problemas relacionados ao racismo na Argentina, assim como em qualquer outro país. No entanto, todas as generalizações, por si só, são falhas. Jung dizia que um dos principais mecanismos de defesa do ego é a projeção; enxergar no outro seu próprio defeito. Talvez essa acusação contra a Argentina seja projetar no outro o racismo que está entre nós; aquilo que conhecemos por “alteridade negativa”.

Independentemente da qualidade da equipe, de determinadas posturas antiesportivas ou dos erros de arbitragem, a seleção argentina chamou a atenção na Copa do Mundo por dois motivos: a entrega dos jogadores em campo – superando suas limitações físicas – e a vibração da torcida nas arquibancadas – gerando uma atmosfera clubística, incomum em Mundiais. A participação brasileira foi exatamente o oposto: jogadores e torcida apáticos. Esse ódio à Argentina não seria uma espécie de desejo de que eles sejam aquilo que queríamos ser?

Findada a Copa, espera-se que essa rivalidade fique restrita ao futebol. Apesar de Milei, Brasil e Argentina estão no mesmo barco. E essa animosidade, incentivada por nomes como Breno Altman, só interessa ao imperialismo estadunidense. Dividir os oprimidos e incentivar o ódio entre eles para melhor dominá-los. Eis a receita que, infelizmente, rege as relações entre países centrais e periféricos há séculos.

Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

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