Quando competir deixou de significar crescer: o esporte entre o humanismo e o mercado

Por Mariana Soares.

Há uma ideia que atravessa quase toda a vida contemporânea e que raramente colocamos em dúvida: a de que toda competição precisa produzir um vencedor — e, por consequência, uma multidão de derrotados. Desde cedo aprendemos que é preciso ser o melhor da turma, conquistar a melhor universidade, alcançar o cargo mais disputado ou subir ao lugar mais alto do pódio. Aos poucos, essa lógica deixa de parecer uma construção cultural e passa a ser confundida com a própria natureza humana.

Mas será mesmo?

Nem sempre competir significou eliminar o outro. Durante boa parte da história, o desafio tinha outro sentido. Era uma forma de desenvolver capacidades, fortalecer vínculos e descobrir os próprios limites na presença de alguém igualmente disposto a fazer o mesmo. O adversário não era um inimigo; era parte indispensável do aprendizado.

A própria origem da palavra “competir” revela essa diferença. Ela vem do latim competere, formado por com (junto) e petere (buscar, dirigir-se a). O significado original era algo próximo de “buscar juntos”, “encontrar-se no mesmo caminho”, “aspirar ao mesmo objetivo”. A competição surgia do encontro, não da exclusão.

Essa pequena mudança de perspectiva altera tudo.

Há, no fundo, duas maneiras de compreender as relações humanas. Uma delas enxerga a vida como uma disputa permanente, em que poucos vencem porque muitos precisam perder. A outra entende que o desenvolvimento das pessoas depende tanto do desafio quanto da cooperação. Competimos para crescer, não para destruir.

Foi essa segunda visão que inspirou Pierre de Coubertin quando propôs a recriação dos Jogos Olímpicos, no final do século XIX. Seu objetivo ia muito além da organização de um grande evento esportivo. O educador francês acreditava que o esporte poderia aproximar povos, formar cidadãos e criar espaços de convivência em um continente marcado por nacionalismos cada vez mais agressivos.

A inspiração vinha da Grécia Antiga. Durante os Jogos Olímpicos vigorava a ekecheiria, a trégua sagrada que suspendia temporariamente os conflitos entre as cidades para garantir a participação segura de atletas e espectadores. Era um reconhecimento simbólico de que existiam valores superiores à guerra.

Mais importante que vencer era encontrar o outro.

Mais importante que a medalha era o encontro.

A frase que acabou sintetizando a filosofia olímpica — “o importante não é vencer, mas participar” — talvez tenha se tornado um clichê justamente porque esquecemos seu significado. Participar nunca quis dizer acomodar-se. Significava reconhecer que a verdadeira grandeza da competição está na possibilidade de todos crescerem por meio dela.

Esse ideal, porém, foi se perdendo.

Ao longo do século XX, especialmente a partir da década de 1980, os Jogos Olímpicos passaram por uma transformação profunda. Os direitos de transmissão alcançaram cifras bilionárias. Grandes patrocinadores passaram a definir boa parte da dinâmica do evento. Atletas transformaram-se em marcas globais, enquanto recordes passaram a movimentar interesses econômicos que pouco têm a ver com educação ou convivência.

Não há nada de errado em reconhecer o profissionalismo dos atletas ou remunerá-los de forma justa. O problema aparece quando o mercado deixa de servir ao esporte e passa a determinar seus valores.

O mesmo processo ocorreu com o futebol.

Poucos esportes conseguiram criar um sentimento de pertencimento tão amplo quanto o futebol. Durante décadas, bastava uma bola — muitas vezes improvisada — para reunir crianças em uma rua, uma praça ou um terreno vazio. O jogo era um espaço de criatividade, convivência e imaginação compartilhada.

Hoje, a Copa do Mundo organizada pela FIFA tornou-se um dos maiores espetáculos comerciais do planeta.

Direitos de televisão movimentam bilhões de dólares. Patrocinadores controlam espaços e marcas. Governos investem enormes quantias em estádios e infraestrutura que, não raramente, permanecem subutilizados após o torneio. Jogadores transformam-se em ativos financeiros, negociados por cifras cada vez mais distantes da realidade da maioria das pessoas.

Também não é coincidência que a história recente da FIFA tenha sido marcada por denúncias de corrupção, compra de votos para escolha das sedes e disputas movidas muito mais por interesses econômicos do que esportivos.

O futebol continua apaixonando milhões de pessoas.

Mas o significado do espetáculo mudou.

Talvez o aspecto mais preocupante dessa transformação nem seja financeiro. É cultural.

Aos poucos, passamos a acreditar que toda atividade humana precisa produzir um único vencedor. Como se a excelência de alguém dependesse necessariamente da inferioridade dos demais.

Essa lógica ultrapassa o esporte. Ela invade a escola, o trabalho, a universidade e até as relações pessoais. Vivemos cercados por rankings, metas, indicadores, prêmios e listas dos “melhores”. A competição deixa de ser uma circunstância e transforma-se em um modo de organizar a vida.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han chama esse fenômeno de sociedade do desempenho. Nela, cada indivíduo precisa provar continuamente seu valor, competir consigo mesmo e com os outros, produzindo mais, rendendo mais e mostrando resultados o tempo inteiro. O efeito dessa dinâmica está diante de nós: ansiedade, esgotamento e uma permanente sensação de insuficiência.

Mas há algo ainda mais profundo.

Essa cultura nos convence de que a humanidade avança eliminando concorrentes, quando a própria história demonstra exatamente o contrário.

Foi Piotr Kropotkin quem, no início do século XX, mostrou que a cooperação desempenha um papel decisivo na evolução das espécies. Em Ajuda Mútua, contestou a leitura simplificada do darwinismo social e argumentou que sociedades e comunidades prosperam porque aprendem a colaborar.

Erich Fromm observava que, quando tudo passa a ser medido pela competição, deixamos de valorizar aquilo que somos para valorizar apenas aquilo que conseguimos possuir ou conquistar.

O esporte oferece um exemplo eloquente dessa contradição.

Em uma maratona, milhares de corredores podem cruzar a linha de chegada tendo realizado o melhor tempo de suas vidas. Todos venceram seus próprios limites. Todos aprenderam algo sobre si mesmos. Todos cresceram.

Ainda assim, apenas um sobe ao lugar mais alto do pódio.

A medalha é necessária para organizar uma competição.

Não deveria servir para medir o valor humano de ninguém.

Talvez aí esteja um dos maiores equívocos do nosso tempo: transformar critérios de classificação em critérios de dignidade.

Não existe apenas um grande professor.

Não existe apenas uma excelente médica.

Não existe apenas um bom agricultor, uma grande artista ou um cientista extraordinário.

A sociedade floresce justamente porque inúmeras pessoas desenvolvem competências diferentes e complementares. O talento de uma não diminui o talento da outra. Pelo contrário: quanto mais capacidades compartilhamos, mais rica se torna a vida coletiva.

Pierre de Coubertin imaginava que o esporte poderia aproximar povos. Talvez não pudesse prever a dimensão econômica que Olimpíadas e Copas do Mundo alcançariam mais de um século depois. Ainda assim, a pergunta que inspirava seu projeto continua atual.

Em uma época marcada pela mercantilização de quase todos os aspectos da existência, talvez seja hora de recuperar o sentido mais profundo da competição: não como um mecanismo para eliminar adversários, mas como uma oportunidade de crescimento compartilhado.

Porque a questão realmente importante nunca foi descobrir quem é o melhor.

A pergunta que merece ser feita é outra:

Como construir uma sociedade em que cada pessoa possa desenvolver plenamente suas capacidades sem que isso dependa do fracasso de outra? Dentro da lógica capitalista, essa pergunta não encontra resposta. Um sistema baseado na concorrência, na acumulação e na exclusão dificilmente pode oferecer condições para que todos floresçam ao mesmo tempo.

Talvez a resposta para essa pergunta seja, afinal, a maior vitória que a humanidade ainda precisa conquistar.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.

 

 


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