Por Rodrigo Otávio Moretti.
A escala 6×1 não está fora da universidade. Ela atravessa os corredores, as salas de aula, os laboratórios, as portarias, os serviços terceirizados, os programas de pós-graduação, os hospitais universitários, os cursos noturnos e as políticas de permanência. A universidade sabe disso. O problema é que, muitas vezes, prefere não saber.
Uma instituição que forma profissionais para o Sistema Único de Saúde, pesquisa saúde do trabalhador, discute determinantes sociais da saúde e reivindica compromisso público não pode tratar a escala 6×1 como assunto externo. Quando estudantes trabalham seis dias por semana para conseguir permanecer matriculados, quando trabalhadoras terceirizadas limpam salas e banheiros sob jornadas exaustivas, quando técnicos buscam complementação de renda para sustentar suas famílias, quando docentes substitutos vivem sob instabilidade permanente e quando estudantes de pós-graduação adoecem tentando conciliar formação, pesquisa e sobrevivência, a escala 6×1 deixa de ser tema “da sociedade” e passa a ser tema da universidade.
A universidade gosta de falar da sociedade. Mas, quando a sociedade entra no campus cansada, endividada, mal dormida e adoecida, ela nem sempre encontra espaço na pauta institucional.
A jornada que atravessa a permanência
A escala 6×1 precisa ser compreendida como questão de saúde pública e de saúde individual. Ela compromete sono, alimentação, saúde mental, convivência familiar, cuidado, estudo, lazer, prevenção de doenças e participação social. No caso da universidade, compromete também a permanência, rendimento acadêmico, presença em sala, participação política, iniciação científica, extensão, formação complementar e vida comunitária.
Um estudante que trabalha no comércio em escala 6×1 não vive a universidade do mesmo modo que alguém que pode dedicar a semana inteira ao curso. Uma estudante que sai do turno de trabalho e atravessa a cidade para chegar à aula noturna não está apenas “cansada”. Ela está submetida a um regime de tempo que reduz suas possibilidades acadêmicas antes mesmo de qualquer avaliação. Se falta, parece desinteresse. Se atrasa, parece desorganização. Se não participa de projetos, parece falta de iniciativa. Se adoece, vira caso individual.
Mas não é individual.
A universidade sabe medir evasão, reprovação, trancamento e desempenho. Nem sempre sabe, ou nem sempre quer, perguntar quanto desses números se relaciona com a organização social do trabalho que regula a vida de seus estudantes. A escala 6×1, nesse sentido, não aparece apenas como jornada. Ela aparece como filtro silencioso. Não impede formalmente ninguém de estudar, mas torna o estudo mais difícil justamente para quem mais depende da universidade pública como direito.
O descanso que não descansa
O chamado dia de descanso raramente descansa quem vive sob esse regime. Para muitos estudantes trabalhadores, a folga é o dia de estudar o conteúdo acumulado, fazer trabalho em grupo, responder mensagens, cuidar da casa, resolver pendências familiares, tentar dormir, preparar comida, lavar roupa, acompanhar filhos, visitar familiares, reorganizar a vida e voltar ao turno seguinte. O tempo livre vira tempo de reparo. E o reparo quase nunca é suficiente.
Isso tem consequências de saúde. Insônia, ansiedade, irritabilidade, dores crônicas, enxaquecas, gastrite, hipertensão, sofrimento psíquico, automedicação, piora alimentar e exaustão não são elementos acidentais nesse quadro. São expressões corporais de uma semana sem ar.
Nas universidades, esses efeitos aparecem nos serviços de apoio psicológico, nas coordenações de curso, nas faltas recorrentes, nos pedidos de prazo, nos trancamentos, nas desistências, nos relatos de “não estou dando conta”. A instituição costuma responder com acolhimento, flexibilização pontual ou encaminhamento. Tudo isso pode ser necessário. Mas é insuficiente quando o problema é tratado apenas depois que o estudante já adoeceu.
A pergunta anterior é outra. O que a universidade faz quando a forma social do trabalho torna a permanência um processo de adoecimento?
A terceirização como invisibilidade sanitária
A universidade pública também é sustentada por trabalhadoras e trabalhadores terceirizados que, em muitos casos, vivem sob escalas, salários e vínculos que a própria instituição pouco discute. Limpeza, vigilância, recepção, manutenção, copa, jardinagem, apoio administrativo. São pessoas que tornam possível a rotina universitária, mas frequentemente aparecem apenas quando algo falha.
Quando a sala está limpa, ninguém pergunta sobre a jornada de quem limpou. Quando a portaria funciona, ninguém pergunta sobre o sono de quem passou horas controlando fluxo. Quando a recepção atende, ninguém pergunta sobre o contrato, o salário, o descanso, o medo da troca de empresa, a insegurança diante de atrasos ou demissões. A universidade vê o serviço. Nem sempre vê o trabalhador.
Essa é uma das formas mais sofisticadas de invisibilização institucional. A terceirização permite que a universidade mantenha a aparência de funcionamento público enquanto desloca para empresas contratadas parte dos custos humanos desse funcionamento. O adoecimento, a rotatividade, a fragilidade do vínculo e a pressão cotidiana passam a parecer problemas administrativos, não questões políticas e sanitárias.
Mas uma universidade que fala em saúde do trabalhador não pode ignorar a saúde dos trabalhadores que a fazem funcionar. Uma universidade que ensina determinantes sociais da saúde não pode fingir que o tipo de vínculo, a jornada, o descanso e a insegurança contratual são detalhes menores.
A precarização dentro da carreira universitária
A escala 6×1 também atravessa os técnicos administrativos, ainda que nem sempre sob a mesma forma direta. Muitos vivem a pressão do custo de vida, a sobrecarga de setores esvaziados, a intensificação do trabalho e, em alguns casos, a necessidade de buscar renda complementar. Quando faltam trabalhadores, quando cargos são extintos, quando a reposição não acompanha a demanda e quando a universidade amplia suas tarefas sem ampliar proporcionalmente sua força de trabalho, o adoecimento se instala como rotina.
Nesses casos, a questão da jornada aparece por outra via. Não apenas como escala formal, mas como compressão da vida pela sobrecarga. O técnico que passa o dia resolvendo urgências institucionais, acumulando funções e sustentando processos invisíveis também experimenta uma universidade que depende de seu desgaste. Quando, além disso, precisa complementar renda, a fronteira entre trabalho e recomposição desaparece.
O mesmo ocorre com docentes substitutos. A universidade precisa deles, mas os mantém sob o signo do provisório. Planejam disciplinas, orientam estudantes, participam da vida acadêmica, assumem responsabilidades, mas carregam a instabilidade como condição. A saúde mental de quem vive sempre à espera do próximo contrato raramente é tratada como problema institucional. A precariedade vira paisagem.
Na pós-graduação, a situação também é conhecida. Bolsas insuficientes ou inexistentes, pressão por produtividade, exigência de presença em eventos, escrita, pesquisa, docência, extensão, publicações e, muitas vezes, trabalho paralelo para sobreviver. Mestrandos e doutorandos aprendem cedo que a universidade pode falar em excelência enquanto naturaliza vidas materialmente inviáveis.
O gênero do cansaço
A dimensão de gênero torna o problema ainda mais evidente. A escala 6×1 não pesa igualmente sobre todas as pessoas. Para muitas mulheres da universidade, sejam estudantes, trabalhadoras terceirizadas, técnicas, docentes ou pós-graduandas, o dia sem trabalho remunerado não é descanso. É o dia do cuidado.
Cuidar de filhos, idosos, familiares adoecidos, preparar comida, limpar a casa, organizar a rotina, acompanhar tarefas escolares, administrar consultas, remédios e deslocamentos. O trabalho que não aparece no contracheque aparece no corpo. Menos sono, menos tempo para estudar, menos possibilidade de consulta, menos atividade física, menos silêncio, menos recomposição.
Uma estudante trabalhadora que também é mãe não enfrenta apenas a dificuldade de conciliar trabalho e aula. Ela enfrenta uma tripla regulação do tempo. O tempo do emprego, o tempo da universidade e o tempo do cuidado. Quando a universidade ignora isso, transforma desigualdade estrutural em suposta falta de desempenho.
Nas trabalhadoras terceirizadas, a questão é ainda mais aguda. Muitas são mulheres que cuidam profissionalmente da infraestrutura universitária e, fora dali, seguem cuidando da vida doméstica. A universidade se beneficia do trabalho dessas mulheres, mas raramente coloca suas condições de saúde no centro de sua reflexão institucional.
Falar de escala 6×1 sem falar de gênero é produzir uma análise incompleta. Falar de permanência estudantil sem falar de cuidado é produzir política abstrata. Falar de saúde universitária sem falar da distribuição desigual do tempo é escolher não enxergar.
O SUS como espelho do trabalho
Há uma contradição difícil de sustentar. A universidade forma profissionais para atuar no SUS e, ao mesmo tempo, silencia diante de um regime de trabalho que adoece estudantes, trabalhadores e comunidades que o próprio SUS terá de atender. Hospitais universitários, clínicas escola, ambulatórios, projetos de extensão e serviços vinculados à universidade recebem direta ou indiretamente os efeitos do mundo do trabalho. Ansiedade, depressão, dores, hipertensão, sofrimento crônico, exaustão e adoecimentos relacionados ao trabalho não são abstrações. São parte da demanda cotidiana de saúde.
A saúde pública ensina que saúde não é apenas ausência de doença. Saúde envolve trabalho, renda, moradia, alimentação, transporte, educação, ambiente, lazer, descanso, vínculos e participação social. Se isso é verdadeiro, então a escala 6×1 é tema sanitário central. E, se é tema sanitário central, a universidade não pode tratá-la como pauta externa.
Quando a universidade silencia, ela produz um paradoxo. Ensina que o trabalho adoece, mas não debate a jornada que adoece. Pesquisa desigualdade, mas não enfrenta a desigualdade de tempo que atravessa seus estudantes. Fala em cuidado, mas invisibiliza quem cuida da sua rotina. Defende o SUS, mas não se posiciona diante de uma forma de organização do trabalho que amplia a demanda sobre o SUS.
O silêncio, nesse caso, não é prudência. É uma forma de separação artificial entre conhecimento e vida.
A saúde mental como sintoma institucional
A saúde mental é talvez o ponto em que essa contradição aparece com maior nitidez. As universidades discutem ansiedade, depressão, burnout, sofrimento estudantil, adoecimento docente e sobrecarga técnica. Criam campanhas, serviços de apoio, rodas de conversa e protocolos. Tudo isso pode ter valor. Mas há um limite evidente quando a instituição cuida dos sintomas sem enfrentar as condições que os produzem.
Não se enfrenta sofrimento psíquico universitário apenas ensinando autocuidado a quem não tem tempo para cuidar de si.
A ideologia da resiliência é conveniente porque desloca a responsabilidade. Diz ao estudante que se organize. Diz à trabalhadora que seja forte. Diz ao técnico que suporte. Diz ao estudante de pós-graduação que faz parte. Diz ao docente substituto que aproveite a oportunidade. Diz ao terceirizado que agradeça o emprego. E, quando o corpo falha, transforma o colapso em problema individual.
Mas há sofrimentos que são respostas racionais a condições irracionais de vida. Há adoecimentos que não começam no consultório. Começam no ônibus, no turno, no contrato, no medo, na falta de descanso, na impossibilidade de planejar a semana, na sensação de que a vida inteira cabe apenas no intervalo entre duas obrigações.
A universidade precisa parar de tratar a saúde mental como tema separado do trabalho. No caso da 6×1, essa separação é insustentável.
A universidade dentro da briga
É por isso que a universidade precisa ser trazida para a briga. Não como observadora qualificada, nem como comentarista respeitável do mundo social. Ela precisa entrar porque já está dentro. A escala 6×1 atravessa a universidade porque atravessa as pessoas que estudam, trabalham, pesquisam, limpam, vigiam, atendem, ensinam, cuidam e sustentam sua existência material.
Se a universidade forma profissionais para a saúde, precisa dizer algo sobre a jornada que adoece. Se discute permanência, precisa dizer algo sobre estudantes que trabalham seis dias por semana. Se contrata serviços terceirizados, precisa dizer algo sobre as condições de vida de quem executa esses serviços. Se depende de pós-graduandos, substitutos e técnicos sobrecarregados, precisa reconhecer que a precarização não é uma categoria distante. É parte de seu funcionamento.
Não basta produzir conhecimento sobre o trabalho. É preciso reconhecer o trabalho na própria instituição. Não basta afirmar compromisso social. É preciso enfrentar a forma concreta pela qual a sociedade aparece dentro do campus. Não basta defender a universidade pública contra ataques externos. É preciso impedir que ela reproduza internamente aquilo que critica publicamente.
O silêncio como sintoma
A escala 6×1 é diretamente relacionada à universidade porque define as condições reais de permanência, saúde e participação de parte das pessoas que compõem sua vida cotidiana. Ela está no estudante que abandona disciplina porque não consegue conciliar turno e aula. Está na trabalhadora terceirizada que chega antes da primeira turma e sai sem ser vista. Está no técnico que acumula funções. Está na pós-graduanda que trabalha para seguir pesquisando. Está no docente substituto que vive a instabilidade como regra. Está na estudante-mãe que transforma a folga em jornada de cuidado. Está no usuário do hospital universitário que chega adoecido por um trabalho que consumiu seu corpo. Está, enfim, no próprio modo como a universidade se organiza e evita se reconhecer.
Por isso, o silêncio universitário diante da escala 6×1 não é apenas ausência de debate. É sintoma institucional. Mostra que a universidade ainda separa artificialmente a produção de conhecimento da experiência concreta das pessoas que a sustentam.
Uma instituição pública de ensino superior não pode lavar as mãos diante da escala 6×1. Porque, quando o tempo é destruído, a saúde adoece antes do diagnóstico. E quando a universidade silencia sobre isso, ela não perde apenas uma pauta. Ela perde a chance de estar à altura da sociedade que diz representar.
Rodrigo Otávio Moretti é Sociólogo e Professor Titular do Departamento de Saúde Pública/ UFSC [email protected]
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