Torcer ou não torcer, eis a questão. Por Michel Goulart da Silva.

Às vésperas da final entre Argentina e Espanha, o artigo defende que as críticas de parte da torcida brasileira ao sucesso argentino escondem a verdadeira crise: a falta de planejamento, identidade e compromisso da seleção brasileira, em contraste com um projeto esportivo consolidado.

Por Michel Goulart da Silva.

Em poucos dias chegará ao seu final a Copa do Mundo de 2026. Cercada de polêmicas políticas, o torneio terminará com o confronto entre Argentina e Espanha. Para a França, por muitos considerada a grande favorita, e para a Inglaterra, derrotada mais uma vez pelos argentinos, caberá a consolação da disputa de terceiro lugar. O plano de marketing tão forçosamente colocado em favor dos franceses se mostrou um fracasso e, no final das contas, quem se saiu melhor foi, por um lado, um time limitado conduzido por um maestro que fará sua última partido em copas do mundo e, por outro, uma jovem e coesa seleção que deve continuar a moldar o futebol por pelo menos mais uns dez anos.

Parte da torcida brasileira, ao ver esse cenário, parece um tanto quanto desesperada, afinal enxergam sua principal rival chegar a mais uma final, com chances de se sagrar bicampeã, podendo vir a entrar para o seleto grupo das tetracampeãs, com Alemanha e Itália. Diante do sucesso do time argentino, numa espécie de manifestação bizarra de frustração, parte dos brasileiros encontra todo tipo de justificativas para desmerecer o feito dos jogadores argentinos. Falam em conspiração da Fifa, em ajuda dos árbitros, em torcida racista, em jogadores que não se posicionam politicamente e mais todo o tipo de fragmentos tirados da realidade. Mas, talvez eles não saibam, o fragmento nunca explica o todo.

Quaisquer das acusações que se atribui aos argentinos não são fenômenos isolados. Não custa lembrar que a Fifa deu uma grande força para a seleção dos Estados Unidos. Ou que foram frequentes os erros de arbitragem contra diversas seleções. Ou que a direita espanhola questionou a nacionalidade do elenco francês. Ou que o mais comum são os jogadores de futebol não se posicionarem politicamente, em suas seleções ou mesmo nos clubes onde atuam. Outros exemplos são possíveis, mas o fato é que se faz um recorte em torno dos argentinos para justificar o que na verdade não deixa de ser uma expressão de xenofobia por parte da torcida brasileira.

Contudo, o problema dos brasileiros não é, em realidade, com os argentinos. O problema do brasileiro é com o nosso próprio futebol e, para expressar nossa frustação, usamos a ignorância e falta racionalidade do senso comum para picotar a realidade e, de forma forçada, elencar falsas evidências para desqualificar os argentinos. Quando se fala que os argentinos são racistas, não se leva em conta de que o povo argentino, aquele que realmente trabalho e sofre exploração, não está passando as férias de meio do ano e pegando preços absurdos em estádios nos Estados Unidos. Ou talvez esqueçamos o quanto somos racistas no Brasil e é tão comum que, no cotidiano, achemos naturais piadas sobre negros, mulheres e homossexuais. Outra questão é atribuir um caráter de direita ao argentino, por conta da presidência de Javier Milei, sem levar em conta que o brasileiro elegeu um sujeito como Jair Bolsonaro e, por poucos votos, não deu um segundo mandato a esse ser desprezível.

Se há uma conspiração da FIFA ou não, é algo que certamente só poucas pessoas sabem, ainda que pareça ser improvável a federação de um país dominado pelo imperialismo ter esse poder todo. O sucesso da seleção argentina tem uma explicação muito simples: seus jogadores entram em campo para jogar futebol, ou seja, dominar o adversário, marcar gols e ganhar a partida. Sua seleção vem de um trabalho com anos de preparação, na busca de dar uma identidade e, mesmo que os jogadores se encontrem para treinar a cada um ou dois meses, desenvolver uma forma coletiva de jogar. E, um fator decisivo, tem um líder incontestável no elenco que se preocupa menos em dar entrevista e fazer dancinhas e muito mais em levar sua seleção à vitória.

No papel, o time argentino não é o melhor da Copa do Mundo, contando no máximo com bons jogadores em seu elenco, mas seu diferencial não é apenas ter o melhor jogador de sua geração. Os argentinos têm algo que, com exceção do Brasil, vimos também nas outras seleções sul-americanas nesse torneio: uma vontade absurda de defender o uniforme daquela nação. Quando Argentina, Colômbia, Equador, Paraguai e Uruguai – e, indo mais além, o próprio México – entraram em campo para jogar, vimos pessoas que, muitas vezes sem morar há anos em seus países, defendem suas bandeiras com alegria e com uma força descomunal. Essa é a força que fez uma seleção frágil como a Paraguaia desbancar a Alemanha, que fez Colômbia e Equador encararem todas as adversidades possíveis e que, jogo após jogo, faz os argentinos superarem os limites técnicos de sua seleção e chegarem a incontestáveis vitórias.

Esses jogadores têm noção do esforço que é para seus povos, para os trabalhadores de seus países, para suas famílias, assistirem seus jogos e torcerem para suas vitórias em campo. Esses jogadores comemoram seus gols muito comumente com uma explosão de emoções, muitas vezes misturando alegria, choro, raiva, algo que certamente nem eles são capazes de explicar de forma racional. Não raras vezes, falam de seu país e de seu povo com a saudade de quem, construindo sua carreira no exterior, não esquece suas origens. Esses são atletas, apesar de todas as adversidades, não esquecem para quem jogam e a quem, ao final, devem prestar contas, que é seu povo.

Por isso os brasileiros que se negam a apoiar a Argentina fragmentam e manipulam a realidade para reforçar uma narrativa desprovida de sentido. Essa postura passa pela frustração de ver, copa após copa, uma seleção que não tem conexão nenhuma com seu povo e que está mais preocupada em prestar contas para seus empresários. De ver uma seleção montada sem planejamento, sem seriedade, onde o trabalho de base é jogado na lata do lixo da imposição dos patrocinadores. De perceber que, no mundo do futebol, o Brasil se tornou pouco relevante e que projetos sérios e de longo prazo, como o da Espanha ou do Marrocos, estão muito à frente de qualquer esperança que se possa a ter na nossa seleção.

Não existe certo ou errado a se torcer neste domingo. Os critérios externos ao futebol são apenas uma expressão da frustração do brasileiro em ter uma seleção ruim, com muitos jogadores sem comprometimento, uma equipe técnica que veio apenas fazer turismo no país e uma confederação comandada por corruptos. Torçamos para a Argentina ou para a Espanha pelos méritos técnicos de seus jogadores, pela sua organização tática, pela emoção de ver uma boa partida de futebol. Com isso, poderemos ver uma partida em que o maior jogador de sua geração deve se despedir de Copas do Mundo e uma das maiores promessas da nova geração pode dar mais um passo enorme em sua já brilhante carreira.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.


Descubra mais sobre Desacato

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here
Are you human? Please solve:Captcha


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.