Por Michel Goulart da Silva.
Embora não seja exatamente uma novidade, a política para além das quatro linhas vem afetando a Copa do Mundo. O caso mais recente talvez seja a decisão da FIFA de perdoar a expulsão de um jogador da seleção dos Estados Unidos depois de um pedido do presidente Donald Trump. Contudo, esse episódio, que até consegue ter uma explicação nas regras que regem o futebol em âmbito mundial, é apenas um capítulo de uma série de problemas ocorridos ao longo ou mesmo antes da Copa do Mundo.
O caso mais evidente, por certo, perpassa a seleção do Irã. Diante da guerra iniciada por Trump, durante meses ficou a incógnita de se a seleção iraniana teria condições de participar do torneio. De forma heroica, os jogadores e a equipe técnica não apenas foram para a Copa do Mundo, como, ao chegarem, desembarcaram usando broches dourados com o número “168” e carregaram mochilas infantis em solidariedade aos mortos. Essa era uma mensagem com referência ao bombardeio de uma escola feminina, que deixou 168 mortes.
Essa mesma seleção protestou contra o seu próprio governo na Copa de 2022. Na estreia, contra a Inglaterra, os jogadores da seleção do Irã ficaram em silêncio e não cantaram o hino nacional. O gesto era uma demonstração de apoio aos manifestantes que protestavam na época contra o governo no Irã. Contudo, em 2026, os jogadores iranianos fizeram questão de explicitar da forma mais evidente possível sua crítica aos crimes cometidos por Trump contra seu povo.
Os jogadores e a equipe técnica do Irã não tiveram vida fácil ao longo do torneio. Embora se fale que sua eliminação pode ter sido forjada, não há provas efetivas sobre isso, ainda que esse não seja o principal problema. De concreto, sabe-se que parte da equipe técnica não conseguiu o visto para entrar nos Estados Unidos. Sabe-se que a seleção iraniana tinha autorização para entrar nos Estados Unidos apenas para jogar cada uma das partidas, sem poder se preparar ou descansar posteriormente antes de se deslocar novamente ao México, onde estava concentrada, levando a um desgaste físico e mental que nenhuma outra seleção teve. Fora isso, os Estados Unidos nem sempre facilitaram a entrada e mesmo a saída da seleção iraniana, chegando a reter jogadores sem justificativa ou explicação plausíveis.
Esse cenário de desrespeito e humilhação não se resumiu aos ataques contra o Irã. Ficou amplamente difundida a extradição do juiz que representaria o futebol somali na Copa do Mundo. Outras seleções, como a do Senegal, Iraque e Haiti, sofreram algum tipo de retenção por parte do ICE. Nesse cenário todo, a FIFA se mostrou completamente passiva, se resumindo a afirmar que não teria ingerência e deveria respeitar as regras dos Estados Unidos. No caso do Irã, o presidente da FIFA fez uma visita aos jogadores, se propondo de forma protocolar a ajuda, mas sem levar a cabo qualquer ação que pudesse minimizar a postura cruel dos Estados Unidos.
Contudo, em relação aos desmandos do governo Trump, não existem apenas lamentos nessa Copa do Mundo. Os iranianos receberam toda a solidariedade dos mexicanos, que acolheram e apoiaram a seleção em sua estadia. Embora vítimas de todo tipo de preconceito, inclusive de desinformados comentaristas europeus, as seleções africanas vêm encantando o mundo. Cabo Verde, em grande medida por conta de compartilhar o passado colonial e mesmo por seus aspectos culturais, ganhou enorme simpatia por parte dos brasileiros. Por fim, sempre cabe lembrar que Marrocos vem confirmando a expectativa de ser a primeira seleção africana na história das Copas a se postular desde o início como uma das favoritas ao título.
O futebol, para além de um esporte, é expressão da realidade e das contradições em que está inserido. Os jogadores e seus torcedores são expressão de seus povos e, a despeito da relativa igualdade que se possa haver dentro das quatro linhas, há contradições e embates que escapam aos noventa minutos jogados. Os trabalhadores seguem em movimento, lutando por seus direitos, e o futebol continua a ser uma das diversas formas de expressão, tanto de alegria como de frustração, para muitos desses povos.
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