O legado climático da Copa de 2026: o Mundial mais poluente da história?

Enquanto a Copa de 2026 se despede dos gramados, permanece a discussão sobre o seu legado climático. O torneio pode encerrar como o mais emissor de carbono já realizado, reacendendo críticas ao "sportswashing", ao uso de combustíveis fósseis e ao modelo dos megaeventos esportivos.

Redação.- A Copa do Mundo de 2026 está chegando ao fim consagrando novos campeões dentro de campo, mas também deixando um legado que vai além do futebol. Segundo pesquisadores e organizações ambientalistas, esta poderá entrar para a história como a edição mais poluente já realizada, evidenciando as contradições entre o discurso de sustentabilidade da FIFA e o modelo adotado para o maior evento esportivo do planeta.

Realizada em três países — Estados Unidos, México e Canadá — e com um formato ampliado para 48 seleções, a competição exigiu uma logística sem precedentes. As grandes distâncias entre as cidades-sede multiplicaram os deslocamentos de torcedores, delegações, jornalistas, patrocinadores e dirigentes, tornando o transporte aéreo o principal responsável pelas emissões de gases de efeito estufa.

Um estudo da organização britânica Scientists for Global Responsibility (SGR), em parceria com a campanha Fossil Free Football, estima que o Mundial tenha gerado mais de 9 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (CO?e). Se a projeção se confirmar, a Copa de 2026 encerrará como a mais emissora da história da competição.

Um torneio movido a combustíveis fósseis

Segundo o relatório, aproximadamente 86% das emissões estão relacionadas às viagens aéreas necessárias para conectar as sedes distribuídas pelos três países anfitriões.

As críticas também recaem sobre o modelo de financiamento do torneio. Entre os principais patrocinadores da FIFA está a petroleira saudita Aramco, uma das maiores produtoras de petróleo do mundo. Para organizações ambientais, essa parceria representa um exemplo de sportswashing: o uso do esporte para promover a imagem de empresas ligadas aos combustíveis fósseis enquanto continuam expandindo atividades altamente emissoras de carbono.

A controvérsia ganha ainda mais peso diante dos sucessivos alertas da comunidade científica de que limitar o aquecimento global exige uma rápida redução do consumo de petróleo, carvão e gás natural.

O simbolismo do jato privado

Outro episódio que alimentou as críticas foi o uso de jato privado pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino, para acompanhar partidas disputadas em cidades separadas por milhares de quilômetros.

Embora esse tipo de deslocamento represente apenas uma pequena parcela das emissões totais da Copa, tornou-se um símbolo da distância entre o discurso institucional sobre sustentabilidade e as práticas adotadas pela própria direção da entidade.

O verdadeiro desafio climático

Especialistas destacam que a dimensão das emissões da Copa não significa que ações individuais deixem de ser importantes. Reciclar, reduzir o consumo de descartáveis ou evitar desperdícios continuam sendo atitudes positivas.

No entanto, a principal conclusão apontada pelos estudos é que os maiores resultados dependem de mudanças estruturais: reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, ampliar a participação das energias renováveis, eletrificar os sistemas de transporte e promover políticas públicas capazes de acelerar a descarbonização da economia.

Um legado que permanecerá após o apito final

Com a Copa de 2026 chegando ao fim, o debate sobre seu impacto ambiental tende a permanecer. O torneio mostrou que megaeventos esportivos podem mobilizar bilhões de pessoas e movimentar enormes recursos financeiros, mas também evidenciou os custos ambientais de um modelo baseado em grandes deslocamentos internacionais e no patrocínio de empresas da indústria fóssil.

Mais do que discutir o comportamento individual dos torcedores, a experiência do Mundial reforça a necessidade de repensar como grandes eventos esportivos são organizados, financiados e planejados em um contexto de emergência climática. O verdadeiro legado da Copa poderá ser medido não apenas pelos títulos conquistados, mas também pela capacidade — ou não — de transformar esse debate em mudanças concretas.

Referências

SCIENTISTS FOR GLOBAL RESPONSIBILITY. 2026 FIFA Men’s World Cup could be the most polluting ever. 2026. Disponível em: https://www.sgr.org.uk/resources/2026-fifa-men-s-world-cup-be-most-polluting-ever.

FOSSIL FREE FOOTBALL. 2026 FIFA World Cup emissions briefing. 2026. Disponível em: https://www.fossilfreefootball.org/2026/06/19/private-jets-big-oil-awards-and-ad-breaks-responding-to-world-cup-climate-stories/

THE GUARDIAN. ‘Green card for the planet’? Fifa’s World Cup is on pace to be a climate catastrophe. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/football/2026/may/17/world-cup-climate-change

LE MONDE. 2026 World Cup: a climate disaster in the making. 2026. Disponível em: https://www.lemonde.fr/en/opinion/article/2026/06/12/2026-world-cup-a-climate-disaster-in-the-making_6754380_23.html?


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