Por Ramzy Baroud.
No momento em que foi anunciado um cessar-fogo de duas semanas entre os EUA e o Irã — intermediado pelo Paquistão em 7 de abril — o Irã declarou que o Líbano estava incluído no acordo. Era uma mensagem clara: a guerra não podia ser compartimentada e as frentes estavam interligadas.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, apressou-se em negar a informação. Mas a negação revelou mais do que escondeu. O Líbano e outras frentes de resistência já estavam inseridos na proposta mais ampla de dez pontos do Irã — uma estrutura que o governo Trump havia aceitado como uma base viável para as negociações que começariam na sexta-feira.
Netanyahu ficou exposto política e estrategicamente.
O Irã nunca foi apenas mais um campo de batalha. Foi o culminar de uma longa campanha de guerra perpétua que Netanyahu sustentou durante anos — começando com o genocídio em Gaza, expandindo-se para o Líbano e estendendo-se por múltiplas frentes sempre que sua sobrevivência política exigiu uma escalada.
Cada guerra servia a um propósito: silenciar a dissidência dentro de sua coalizão, desviar a atenção da queda de popularidade, escapar da responsabilização em julgamentos de corrupção. A guerra tornou-se governança.
Mas a estratégia com o Irã fracassou. E o fracasso, para Netanyahu, nunca é um ponto final. É um gatilho. Sem nenhuma vitória para reivindicar e nenhum ganho estratégico para apresentar, ele se voltou — mais uma vez — para o Líbano.
Revisitando a Doutrina Dahiya
Beirute. Sul do Líbano. Vale do Bekaa. Monte Líbano. E mais. Em apenas duas horas, foram realizados aproximadamente 150 ataques aéreos, segundo a mídia libanesa.
O número de mortos continua a aumentar. Famílias inteiras soterradas sob os escombros. Equipes de resgate alvejadas. Funerais interrompidos. Infraestrutura civil pulverizada. Isto não é guerra. É punição.
Mas esses ataques não são aleatórios. Eles seguem uma doutrina — uma doutrina que Israel aprimorou e reaplicou sempre que busca compensar uma derrota militar.
Netanyahu está reinstaurando a Doutrina Dahiya — uma estratégia articulada pela primeira vez após a guerra de 2006 contra o Líbano.
A doutrina é simples e brutal: usar força esmagadora e desproporcional contra infraestruturas civis para punir coletivamente populações que se acredita apoiarem movimentos de resistência.
Bairros inteiros são tratados como alvos militares. O objetivo não é a precisão, mas sim a devastação. A lógica é a coerção por meio da destruição.
Hoje, o Líbano é mais uma vez o seu laboratório.
Sete mensagens
Em primeiro lugar, Netanyahu afirma que a guerra e a paz são decisões exclusivamente suas. Não do Irã. Não de Washington. Não da região. A mensagem é clara: nenhum acordo o vincula.
Em segundo lugar, ele busca reimpor o medo em todo o Oriente Médio — num momento em que milhões celebram o que consideram uma vitória decisiva do Irã contra o poder combinado dos EUA, de Israel e seus aliados.
Em terceiro lugar, ele está tentando fragmentar a frente de resistência, sugerindo que o Irã abandonou seus aliados. O objetivo é gerar desconfiança, onde a unidade acaba de ser fortalecida.
Em quarto lugar, ele está fornecendo munição a seus aliados políticos no Líbano — e a regimes árabes complacentes — que argumentam que o Hezbollah arrastou o Líbano para a catástrofe. Essa narrativa visa intensificar a pressão pelo desarmamento.
Quinto, ele está desviando a atenção do seu próprio fracasso. Tanto apoiadores quanto críticos dentro de Israel questionam o resultado da guerra com o Irã. Assim, o Líbano se torna a cortina de fumaça.
Em sexto lugar, ele está mascarando uma realidade militar: Israel falhou em neutralizar as capacidades do Hezbollah. Apesar das repetidas alegações, o Hezbollah permanece operacional, resiliente e capaz de interromper os planos israelenses ao longo da fronteira. Atacar civis não é uma demonstração de força — é uma admissão de limitações.
Sétimo, Netanyahu está aumentando o preço antes de um acordo inevitável. Ele sabe que não pode derrotar o Hezbollah completamente. Ao infligir o máximo de danos agora, ele espera remodelar o cenário político antes das negociações que não poderá evitar.
O frágil cessar-fogo
Washington pode — e provavelmente irá — argumentar que seu acordo se aplica apenas às ações dos EUA, e não a Israel, que retrata como agindo de forma independente.
Ao mesmo tempo, a proposta do Irã servia de base para um cessar-fogo temporário, e não para um acordo definitivo e permanente.
Essa ambiguidade não é acidental. É o espaço em que Israel opera atualmente.
Os massacres perpetrados por Israel serão suficientes para que o Irã declare que o bloco EUA-Israel violou o cessar-fogo?
Ou as negociações irão prosseguir, apesar do derramamento de sangue no Líbano?
A resposta definirá a próxima fase da guerra. Mas uma lição já está clara.
Desde o início do genocídio em Gaza, um padrão emergiu: sempre que Netanyahu intensifica o conflito numa tentativa de recuperar a iniciativa, seus adversários respondem da mesma forma — e, muitas vezes, com maior efeito estratégico.
Portanto, sua escalada não trouxe a vitória. Em vez disso, aprofundou o envolvimento de Israel.
O Líbano pode estar em chamas hoje, mas a guerra está longe de terminar. Netanyahu pode acreditar que está remodelando o campo de batalha.
A história sugere o contrário, porque o outro lado ainda tem suas cartas na manga — e desta vez, pelo menos por enquanto, Washington não está intervindo para mudar o rumo da situação.
Pois eles também foram forçados a recuar. E isso, mais do que qualquer outra coisa, é o que torna este momento tão perigoso.
O Dr. Ramzy Baroud é jornalista, autor e editor do The Palestine Chronicle. É autor de oito livros. Seu último livro, “Before the Flood”, foi publicado pela Seven Stories Press. Entre seus outros livros estão “Our Vision for Liberation”, “My Father was a Freedom Fighter” e “The Last Earth”. Baroud é pesquisador sênior não residente no Centro para o Islã e Assuntos Globais (CIGA). Seu site é www.ramzybaroud.net
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