Respeito ao carnaval das mães

Foto do desfile da escola Unidos da Coloninha obtida no Flickr da Prefeitura de Florianópolis

Por Vanessa Ibrahim.

Passo o café preto numa quarta-feiras de cinzas chuvosa em Florianópolis para a filha que vai sair cedo. A boca, que ainda canta o samba-enredo também amarga, lembrando que pode ser doce e ácido o sabor do carnaval, ele que sempre tem fim.

Dessa vez, a festa foi perdendo o gosto antes. Quando vi uma filha se despedir da fantasia não estreada para chorar um último adeus à mãe. Quando me coloquei no lugar daquelas que receberam em casa filhas estupradas nesse feriado ou somente o corpo do descendente sem vida, como um adereço descartado no final da avenida emudecida. Terminou ao ver a mãe que assistiu ao filho desfilando em azul e verde brigar atingida por palavras que a animalizavam em razão de sua cor. Condenei por um momento esse espetáculo que não respeita as entranhas pretas de onde nasceu.

Mas ainda moravam em mim as imagens das baianas bordando juntas suas saias na escola às vésperas do desfile. Os olhos orgulhosos da passista aposentada cuidando das sandálias da cria que agora risca o chão em seu lugar. Os espaços conquistados nas baterias e nos microfones por mulheres que têm força para estar onde quiserem. Ímpeto que fez uma delas bater o recorde e compor o elenco de todas as escolas de samba dessa cidade, outra de cinco, outra, três. Empurrarem cadeiras de rodas ou a confiança de seus rebentos com deficiência, encorajando-os a brincar. E, feito isso, despertarem no dia seguinte para cuidar de unhas e cabelos que não são os seus, dos filhos de projetos sociais ou mesmo dos processos na repartição pública. Elas provam que não somente concedem beleza, mas também tecem a trama do carnaval que passa na Nego Quirido, nas rodas de choro e samba e nos blocos afros da capital. São corpos expostos aos riscos e que gritam por seus direitos, tanto na vida quanto no enredo.

Enquanto tudo isso acontece, há homens brancos que sorriem fingindo respeito. Machos negros erguendo punhos em defesa mas que tantas vezes agridem aquelas com quem dividem o lar. Aqueles que se posicionam à esquerda mas titubeiam quando a escolha é entre o lado de um homem ou de uma mulher. Não falo de todos, mas de muitos.

No final do dia, recebo as fotos de um carnaval distante que homenageou a história da mãe que, por um defeito de cor, se perdeu dos filhos. Encerram o ato as matriarcas que jamais deixarão suas Marielles serem esquecidas e compartilham entre si a mesma pele de quem mais perde a vida pela violência nesse país. São fardos mais pesados do que qualquer fantasia, levados por quem se equilibra sobre saltos altos e segue. E elas passam sambando na cara da sociedade, pedem passagem e merecem não somente aplausos, mas respeito. Viva o carnaval das matriarcas e sua mistura doce e ácida de amores e dores.

A opinião do/a/s autor/a/s não necessariamente representa a opinião de Desacato.info.

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