Quem boicota Israel deve boicotar os Estados Unidos

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

O boicote a Israel consolidou-se como uma das principais formas de pressão internacional contra a ocupação da Palestina, o regime de apartheid denunciado por diversas organizações de direitos humanos e a devastação promovida em Gaza. Inspirada na campanha que ajudou a isolar o apartheid sul-africano, essa mobilização tornou-se um instrumento legítimo de resistência global.

Mas existe uma contradição que precisa ser enfrentada: por que os mesmos critérios não são aplicados aos Estados Unidos?

Se o fundamento do boicote é a responsabilização de Estados envolvidos em ocupações, guerras, bloqueios econômicos e violações sistemáticas de direitos humanos, a exclusão dos Estados Unidos desse debate não pode ser explicada por princípios. Trata-se de uma escolha política que revela um duplo padrão ético e moral.

O sionismo tornou-se símbolo da opressão contra o povo palestino. Entretanto, a estrutura política, militar, econômica e diplomática que garante a continuidade dessa opressão tem seu principal centro de poder em Washington.

O império por trás das guerras

Israel não atua isoladamente, como todo mundo já sabe. Seu poder militar, sua proteção diplomática e sua capacidade de sustentar operações devastadoras dependem, em grande medida, do apoio econômico, militar e político de Washington.

Cada veto estadunidense no Conselho de Segurança da ONU, cada pacote bilionário de ajuda militar e cada blindagem diplomática oferecida ao governo israelense contribuem para a manutenção de uma estrutura de dominação que já custou dezenas de milhares de vidas palestinas.

A responsabilidade estadunidense, obviamente, vai muito além da Palestina.

Nas últimas décadas, os Estados Unidos estiveram e estão diretamente envolvidos em algumas das maiores ações geopolíticas do planeta. As invasões do Iraque e do Afeganistão deixaram rastros de destruição, países desintegrados, deslocamentos em massa e centenas de milhares de mortos. Intervenções militares diretas ou por procuração transformam regiões inteiras em cenários permanentes de instabilidade.

Apoio a operações militares em diferentes regiões do mundo, ataques contra países soberanos, financiamento de conflitos e manutenção de centenas de bases militares espalhadas pelo planeta revelam a permanência de uma estratégia global baseada na projeção de poder pela força.

Ao mesmo tempo, Washington mantém uma longa tradição de ingerência política, econômica e eleitoral em diferentes países.

Da política do Grande Porrete às sanções: a permanência da intervenção estadunidense

Da política do Grande Porrete (Big Stick) no início do século XX ao apoio a golpes militares durante a Guerra Fria, os Estados Unidos construíram uma longa trajetória de intervenções destinadas a preservar sua influência internacional.

Na América Latina, essa política deixou marcas profundas. O bloqueio econômico contra Cuba, atualmente mais feroz do que nunca e condenado repetidamente pela Assembleia Geral da ONU, permanece como uma das mais duradouras formas de punição coletiva impostas a uma população inteira. Seus efeitos genocidas atingem diretamente áreas fundamentais como saúde, transporte, alimentação e desenvolvimento tecnológico.

Na Venezuela, sanções econômicas, tentativas de isolamento diplomático, reconhecimento de governos paralelos, o sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, e apoio a iniciativas de desestabilização transformaram-se em instrumentos permanentes de pressão e, hoje em dia, de roubo do petróleo e estabelecimento de um protetorado.

As denúncias de influência direta ou indireta em processos políticos também alcançam países como Honduras, Bolívia, Argentina e Brasil. Embora os métodos mudem ao longo do tempo, o objetivo permanece o mesmo: limitar e destruir experiências políticas consideradas incompatíveis com os interesses estratégicos de Washington.

Durante o mandato de Donald Trump, a guerra econômica passou a ocupar um papel ainda mais central nesse processo.

Os chamados tarifaços impostos unilateralmente contra países considerados adversários políticos ou concorrentes econômicos não podem ser vistos apenas como medidas comerciais. Na prática, funcionam como instrumentos de coerção internacional. Ao afetar exportações, investimentos, empregos e cadeias produtivas inteiras, essas medidas produzem consequências políticas profundas dentro dos países atingidos.

Quando sanções financeiras, restrições comerciais e tarifas punitivas provocam recessão, desemprego ou aumento do custo de vida, elas também interferem no ambiente político e eleitoral. Governos passam a enfrentar desgastes provocados por fatores externos, criando condições favoráveis para mudanças de poder alinhadas aos interesses da potência que impôs as sanções.

Em outras palavras, aquilo que antes era realizado por meio de golpes militares ou operações clandestinas pode hoje ser executado através dos mercados, dos bancos, das tarifas, das Big Techs e dos mecanismos financeiros internacionais.

Trata-se de uma forma contemporânea de ingerência política.

Apesar disso, raramente surgem campanhas globais exigindo sanções, isolamento cultural ou boicotes aos Estados Unidos.

A pergunta é inevitável: por que o patrocinador é poupado enquanto apenas seus aliados são responsabilizados?

Hollywood, streaming e a fabricação do consenso

O poder estadunidense não se sustenta apenas por porta-aviões, bases militares e sanções econômicas. Ele também opera por meio da cultura.

Hollywood, as grandes plataformas de streaming, a indústria musical e os conglomerados de comunicação exercem papel central na construção de uma imagem positiva dos Estados Unidos perante o mundo.

Ao longo de décadas, milhares de filmes, séries e produtos culturais ajudaram a consolidar a ideia de que Washington representa a democracia, a liberdade e os valores universais da civilização contemporânea.

Não se trata apenas de entretenimento.

A indústria cultural estadunidense frequentemente transforma soldados em heróis, operações militares em missões humanitárias, agentes de inteligência em defensores da liberdade e guerras de agressão em batalhas necessárias contra o mal.

Enquanto isso, os povos que sofrem os impactos dessas intervenções aparecem como ameaças, extremistas ou personagens sem voz própria.

As vítimas dos bombardeios, das sanções econômicas, dos golpes de Estado e das ocupações militares raramente ocupam o centro da narrativa.

Essa hegemonia cultural produz um efeito político concreto: naturaliza a violência imperial e dificulta ou impede a percepção crítica sobre o papel dos Estados Unidos no cenário internacional.

Não por acaso, muitas pessoas defendem o boicote a produtos israelenses enquanto continuam consumindo sem questionamento produtos culturais produzidos pela principal potência que financia, arma e protege diplomaticamente Israel.

Se o objetivo do boicote é enfrentar estruturas de dominação, não basta questionar as armas. É necessário questionar também as narrativas que tornam aceitável o uso dessas armas.

A indústria cultural estadunidense funciona, em muitos casos, como uma sofisticada máquina de lavagem simbólica da imagem do império.

A Copa de 2026 e a lavagem de imagem pelo esporte

A realização da Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos expõe essa contradição de maneira cristalina.

Grandes eventos esportivos sempre foram utilizados como instrumentos de projeção de poder. Eles ajudam governos a construir legitimidade internacional, suavizar críticas e apresentar uma imagem de normalidade que muitas vezes não corresponde à realidade.

Muito antes do primeiro jogo, a Copa já foi marcada por denúncias relacionadas às políticas migratórias estadunidenses.

O caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan tornou-se um símbolo dessa situação. Mesmo credenciado para atuar em competições ligadas ao torneio, foi impedido de entrar nos Estados Unidos, provocando críticas sobre os critérios migratórios adotados pelo país anfitrião.

O episódio não ocorreu isoladamente. Organizações de defesa dos direitos dos migrantes denunciam que as políticas de fronteira e os mecanismos de vigilância reforçados para a Copa criam obstáculos adicionais para trabalhadores, jornalistas, ativistas e torcedores oriundos de países considerados inconvenientes pela política externa estadunidense.

Nesse contexto, campanhas como “No ICE in the Cup” expressam uma crítica mais ampla: a incompatibilidade entre um evento que celebra a integração entre povos e um aparato estatal marcado por deportações em massa, detenções prolongadas e crescente militarização das fronteiras.

A Copa transforma-se, assim, em mais uma operação de marketing geopolítico destinada a suavizar a imagem internacional de um Estado cuja política externa produz guerras, bloqueios e intervenções em diversas regiões do planeta.

O privilégio da impunidade

A reação internacional diante desses episódios evidencia um fenômeno recorrente: aquilo que seria considerado escandaloso em países classificados pelo Ocidente como “autoritários” costuma ser relativizado quando ocorre nos Estados Unidos.

Se jornalistas fossem impedidos de trabalhar, árbitros barrados nas fronteiras e operações policiais contra imigrantes se tornassem rotina durante um grande evento esportivo em países como Irã, Venezuela ou Cuba, dificilmente faltariam editoriais indignados, pedidos de sanções e campanhas internacionais de condenação.

Quando ocorre nos Estados Unidos, porém, a narrativa dominante tende a enquadrar os fatos como questões técnicas, burocráticas ou de segurança nacional.

É justamente essa assimetria que enfraquece a credibilidade do discurso internacional sobre direitos humanos.

Coerência ou seletividade

O debate sobre o boicote a Israel trouxe à tona uma questão fundamental: a necessidade de responsabilizar Estados que promovem ocupações, guerras e violações de direitos humanos.

Mas a coerência exige que o mesmo critério seja aplicado ao principal sustentáculo da ordem internacional que torna essas práticas possíveis.

Israel é um aliado estratégico. Os Estados Unidos são o centro do sistema que garante sua proteção política, militar, econômica, financeira e diplomática.

Boicotar apenas Israel significa atacar um dos sintomas enquanto se preserva a estrutura que o sustenta.

Se os critérios que justificam o boicote a Israel são válidos, não há razão lógica para deixarem de valer quando aplicados aos Estados Unidos.


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