Protagonismo ou vitória? O impasse das esquerdas diante da barbárie

Não haverá vitória definitiva sobre a barbárie enquanto a esquerda não resolver sua crise de propósito

 

Imagem: Nueva Sociedad

Por Vanessa Brasil.

Vivemos um paradoxo perigoso na política brasileira. Enquanto as redes sociais e os palanques das esquerdas ecoam gritos uníssonos de “unidade antifascista”, os bastidores revelam um cenário de fragmentação e autofagia. A tão proclamada “frente única” contra a extrema direita parece, na prática, uma peça de marketing eleitoral que desmorona diante da primeira disputa por tempo de TV ou fundo partidário. O que se observa hoje não é uma marcha coesa, mas um “circo de horrores” onde o protagonismo individual vale mais do que a vitória real da classe trabalhadora.

A Unidade como Simulacro

A unidade real não se decreta por nota oficial; ela se materializa no respeito à pluralidade e na força orgânica de cada agremiação. No entanto, o que vemos é uma guerra de hegemonia desgastante. Partidos que deveriam ser pilares de resistência muitas vezes se perdem em embates causados por interesses particulares e cálculos de cúpula. Quando a unidade é apenas uma palavra vazia, o antifascismo deixa de ser uma prática de combate para se tornar uma estética. Sem uma unidade que dialogue com os anseios da população, a esquerda corre o risco de implodir antes mesmo do embate final.

O Banquete da Extrema Direita

O maior beneficiário dessa desordem não é o eleitor, mas a extrema direita. Ela observa nossas implosões com entusiasmo tático. Enquanto as esquerdas disputam quem será o “dono da narrativa”, o adversário avança sobre o vácuo deixado pela desmobilização das bases. A incapacidade das direções de gerir crises e de fomentar movimentos populares reais abre caminho para que o discurso autoritário se apresente como a única força “decidida”. Para o adversário, nada é mais útil do que uma esquerda que gasta mais energia combatendo a si mesma do que denunciando as mazelas do capital. Nossas vaidades são o tapete vermelho para o retorno deles.

O Abismo entre o Diretório e o Chão da Fábrica

As direções partidárias, encasteladas em burocracias, demonstram uma incapacidade crônica de gerir crises. Os partidos estão se transformando em máquinas de gestão eleitoral, afastando-se do dia a dia do trabalhador que sofre com a precarização da vida e com jornadas exaustivas. O “anticapitalismo real” foi substituído pela “guerra do capital interno”. A disputa pelo controle do Fundo Partidário e pela manutenção de feudos políticos asfixia novas lideranças e movimentos orgânicos o abandono da luta popular mais precária é o comprovante de falência de nossas organizações. Sem base sólida, a militância vira figurante em fotos de campanha, usadas como cabos eleitorais apenas e esvaziando o sentido da luta popular.

A Unidade aos “45 do Segundo Tempo”

Após muito tempo de grito das bases, hoje nos esforçamos por uma unidade emergente, mas que ainda está muito longe de ser material. É uma unidade formada aos 45 minutos do segundo tempo para fomentar o período eleitoral e tentar acompanhar anseios que já vinham sendo postos há quatro anos.
A pergunta que fica é: ainda dá tempo de genuinamente ganharmos juntos mais uma vez, porém de forma diferente das anteriores? Podemos continuar marchando juntos para além do período eleitoral? Tardamos na largada, mas ainda há tempo de recuperarmos o fôlego nessa corrida e estruturarmos uma agenda de combate no “antes, durante e depois” das eleições. Isso exige olhar para a convergência e colocar de lado as divergências em prol da base popular contra o fascismo no Brasil e no mundo.

Conclusão: O Retorno Necessário

Não haverá vitória definitiva sobre a barbárie enquanto a esquerda não resolver sua crise de propósito. Se o desejo de ser “o rosto” da resistência continuar sendo mais valioso do que a construção de um programa comum, continuaremos a marchar em direção ao precipício. A unidade real exige generosidade e a subordinação das vaidades eleitorais aos anseios populares. É hora de sair dos gabinetes e construir a resistência onde ela realmente pulsa: na luta diária e na organização real da classe trabalhadora.


Vanessa Brasil é pesquisadora, educadora popular, filiada ao partido Socialismo e Liberdade PSOL, e coordenadora do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT). Atua na linha de frente da defesa dos direitos da classe trabalhadora, com foco na reforma das escalas de trabalho e na humanização das relações laborais. Como articuladora política em Santa Catarina, dedica-se à construção de ferramentas pedagógicas e mobilizações de base para o enfrentamento à extrema direita e ao fortalecimento do campo popular.


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