Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
A Copa do Mundo é o maior espetáculo esportivo do planeta. Mas, por trás dos estádios lotados, das rivalidades históricas e da emoção que mobiliza bilhões de pessoas, existe uma poderosa indústria movida por interesses econômicos, políticos e midiáticos. Foi justamente sobre esse universo que a jornalista Sofia Andrade conversou com Gustavo Veiga, jornalista, professor da Universidade de Buenos Aires (UBA) e uma das principais referências do jornalismo esportivo crítico na Argentina, no programa JTT.
Ao longo da entrevista, Veiga propôs uma reflexão que vai muito além do resultado das partidas. Para ele, limitar o futebol ao espetáculo esportivo significa ignorar um sistema econômico que movimenta bilhões de dólares e influencia decisões políticas, estratégias de comunicação e interesses corporativos em escala global.
Segundo o jornalista argentino, o pensamento crítico costuma enfrentar resistência justamente porque questiona um modelo altamente lucrativo. Ele lembrou que essa postura não é nova e citou Diego Maradona como um dos primeiros grandes jogadores a confrontar publicamente a FIFA, denunciando decisões que colocavam os interesses comerciais acima da saúde dos atletas, ainda na Copa do Mundo de 1986.
Outro tema central da conversa foi a crescente mercantilização do futebol. Veiga destacou o protagonismo das casas de apostas esportivas, cuja publicidade passou a dominar transmissões, uniformes e campanhas publicitárias em diversos países latino-americanos. Segundo ele, enquanto a legislação europeia restringiu esse tipo de propaganda, empresas do setor encontraram na América Latina um mercado em expansão, expondo milhões de jovens a uma publicidade intensa e permanente.
A entrevista também abordou as dimensões políticas das Copas do Mundo. Gustavo Veiga analisou episódios de xenofobia, políticas migratórias e discriminação que marcaram diferentes edições do torneio, além de discutir como governos utilizam o futebol como ferramenta de construção de imagem pública. Comparando Brasil e Argentina, comentou as diferentes formas pelas quais lideranças políticas procuram se aproximar da paixão nacional.
Para o professor da UBA, compreender o futebol exige enxergá-lo como parte de uma indústria cultural global, em que grandes corporações, patrocinadores, dirigentes e interesses econômicos disputam influência sobre um dos fenômenos sociais mais relevantes do século XXI.
Ao final da entrevista, Veiga defendeu o papel do jornalismo investigativo e crítico na cobertura esportiva. Inspirado em uma tradição de repórteres comprometidos com a investigação do poder, afirmou que o esporte não pode ser tratado apenas como entretenimento, mas também como um espaço onde circulam interesses econômicos, políticos e sociais que merecem ser permanentemente investigados.
A conversa conduzida por Sofia Andrade oferece uma perspectiva pouco comum na cobertura esportiva tradicional. Em vez de apenas discutir esquemas táticos, favoritos ou resultados, o programa convida o público a refletir sobre os mecanismos que transformaram o futebol em uma das maiores indústrias do mundo — sem perder de vista a paixão que continua fazendo do esporte um patrimônio cultural compartilhado por milhões de pessoas.
A íntegra da entrevista aprofunda temas como a influência da FIFA, a expansão das apostas esportivas, a geopolítica das Copas do Mundo e os desafios enfrentados pelo jornalismo crítico na cobertura do esporte contemporâneo.
Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:
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