Pesquisadora Moara Crivelente analisa as raízes históricas da ofensiva contra Líbano e Irã

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

O Líbano e o Irã ocupam posições centrais na atual disputa geopolítica da Ásia Ocidental. Embora frequentemente retratados de forma separada pela grande mídia ocidental, ambos os países vêm sendo enquadrados por uma mesma lógica estratégica: a tentativa de enfraquecer atores políticos e militares que desafiam a hegemonia israelense na região. Essa foi uma das principais reflexões apresentadas pela doutora em Relações Internacionais Moara Crivelente durante participação no programa f&f – Informação sem Fronteiras, conduzido por Tali Feld Gleiser e Raul Fitipaldi.

Ao analisar a situação libanesa, Moara destacou que o país permanece marcado por heranças coloniais que remontam à ocupação francesa após a Primeira Guerra Mundial. Segundo ela, o sistema político baseado em divisões confessionais e sectárias continua influenciando a vida nacional e dificultando a construção de consensos internos diante das sucessivas crises políticas, econômicas e militares.

A pesquisadora também ressaltou a profunda ligação histórica entre Brasil e Líbano, lembrando a expressiva comunidade libanesa que ajudou a construir a sociedade brasileira. Essa proximidade, contudo, contrasta com o desconhecimento que ainda existe sobre a realidade contemporânea do país árabe.

Os refugiados palestinos e uma crise permanente

Um dos temas abordados foi a situação dos refugiados palestinos no território libanês. De acordo com Moara, o Líbano abriga uma das condições mais difíceis para essa população em toda a região. Restrições legais limitam o acesso a diversas profissões e impõem obstáculos à propriedade e à integração social dos palestinos, perpetuando uma situação de precariedade que atravessa gerações.

Essa realidade está diretamente ligada à história dos conflitos regionais e à permanência da questão palestina como um dos principais fatores de instabilidade no Oriente Médio.

A resistência libanesa e as contradições do Estado

Ao comentar os recentes ataques israelenses contra o território libanês, Moara apontou uma crescente distância entre a postura do governo de Beirute e a atuação das forças que compõem a resistência nacional, entre elas o Hezbollah e setores da esquerda libanesa.

Segundo a pesquisadora, enquanto parte da população e organizações políticas defendem uma resposta mais firme às incursões israelenses, o governo tem privilegiado negociações indiretas e uma estratégia de acomodação diplomática. Essa contradição, afirmou, revela uma disputa interna sobre o futuro do país e sobre a forma de enfrentar as constantes violações de sua soberania.

A entrevistada recordou ainda que os ataques israelenses ao Líbano antecedem em décadas o fortalecimento do Hezbollah, contestando a narrativa recorrente de que os conflitos atuais seriam apenas resultado da influência iraniana. Massacres como Sabra e Shatila e diversas operações militares anteriores demonstram, segundo ela, uma longa trajetória de intervenções israelenses no país.

O Irã como alvo permanente

Na avaliação de Moara, o Irã continua sendo apresentado como principal fator de instabilidade regional, apesar de a história recente revelar um quadro mais complexo. A narrativa de uma suposta “guerra por procuração” serviria, segundo ela, para deslocar a atenção das políticas expansionistas e das operações militares israelenses em diferentes países da região.

A pesquisadora observou que o discurso da ameaça iraniana tem sido utilizado de forma recorrente por governos ocidentais e por Israel para justificar sanções, pressão diplomática e ações militares. Ao mesmo tempo, destacou que o programa nuclear iraniano é frequentemente reduzido à discussão sobre armas atômicas, ignorando os usos civis e energéticos previstos pelo direito internacional.

Memorando, cessar-fogo e desconfiança

Outro tema debatido foi o recente memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã. Para Moara, o documento representa apenas um passo preliminar e ainda está distante de um acordo definitivo.

Ela observou que a continuidade dos ataques israelenses ao Líbano compromete a implementação dos compromissos assumidos no processo de negociação. Um dos pontos centrais do entendimento prevê justamente a redução das tensões militares na região. Enquanto isso não ocorrer, afirmou, medidas práticas relacionadas ao comércio de petróleo e à normalização das relações permanecem em suspenso.

A especialista lembrou que episódios semelhantes já ocorreram em administrações anteriores nos Estados Unidos, quando divergências públicas com governos israelenses acabaram sendo compensadas por novos pacotes de ajuda militar e apoio diplomático.

Uma mesma estratégia regional

Para Moara, os acontecimentos recentes indicam que Líbano e Irã não podem ser compreendidos isoladamente. Ambos se encontram no centro de uma estratégia regional que busca redesenhar os equilíbrios de poder do Oriente Médio por meio de pressão militar, isolamento político e disputa narrativa.

Nesse cenário, a resistência libanesa, a questão palestina e as negociações com Teerã aparecem como elementos de uma mesma equação geopolítica. A evolução desses processos poderá determinar não apenas o futuro dos dois países, mas também os rumos da estabilidade regional nos próximos anos.

Assista à entrevista no vídeo abaixo:


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