Por Francisco Fernandes Ladeira.
Em agosto de 2024, quando defendi minha tese de doutorado em Geografia na Unicamp, sobre o uso das tecnologias digitais durante a pandemia da Covid-19, cheguei a algumas conclusões, além daquelas que obtive com a aplicação de questionários para professores da rede estadual de São Paulo. Entre essas conclusões, percebi que o Ensino Remoto Emergencial serviu como argumento para o avanço dos empresários do setor de informática sobre a educação pública. As premissas dominantes são as seguintes: o ensino online pode substituir o presencial e materiais analógicos deverão dar lugar aos recursos digitais.
Corroborando esse avanço privado na educação pública, no domingo (8/6), o Jornal O Globo trouxe o editorial intitulado “IA é ferramenta importante na melhoria da qualidade do ensino”. O texto se refere a um programa utilizado pelo governo paulista para correção de questões discursivas por meio de Inteligência Artificial (IA).
Como a grande imprensa já está em campanha para a eleição presidencial do ano que vem, o editorial é uma nítida propaganda sobre a “eficiência” da gestão Tarcísio de Freitas e seu secretário de Educação, Renato Feder, “um entusiasta da tecnologia”, segundo as palavras do periódico da família Marinho. Ainda conforme o editorial, “a realidade sofrível das escolas brasileiras pode se transformar com políticas públicas baseadas no avanço do conhecimento. A correção das provas por IA em São Paulo é apenas um primeiro passo”.
Realmente, é um “primeiro passo”, mas, nesse caso, não é para transformar escolas, tampouco avançar o conhecimento. Trata-se da substituição de muitas funções docentes (ou até mesmo de alguns profissionais) pela tecnologia. É o velho receituário neoliberal no sucateamento da educação: menos investimentos públicos, mais lucros para os empresários que vendem seus serviços educacionais.
Diferentemente de tecnologias anteriores, que substituíram funções consideradas como manuais, a IA avança no setor de serviços, no antes considerado insubstituível trabalho intelectual. A educação é um alvo privilegiado.
Como oportunamente apontou o professor Wilson Ferreira, no blog Cinegnose, por isso a IA alcança o status de zeitgeist, moldando a forma como as pessoas pensam, agem e interagem. Ganha uma narrativa fetichista que oculta o modus operandi do velho capital: transformar o trabalho intelectual complexo em rotinas simples. Consequentemente, o professor perde suas antigas funções criadoras/intelectuais; se transforma paulatinamente em “facilitador”, “tutor”, “orientador”, “responsável”.
A princípio, ele não corrige mais as atividades dos alunos, como no programa utilizado pelo governo de São Paulo. É criada a ilusão de não “sobrecarregar os professores”, conforme alegado pelo editorial de O Globo. Depois, quando dermos conta, para deleite dos empresários da informática, as tecnologias digitais tomam o lugar do professor.
Não sou um ludista do século XXI, muito menos um professor tecnofóbico. Longe disso! Mas sempre é importante ficarmos atentos quando, na imprensa hegemônica brasileira, são apresentadas determinadas soluções tecnológicas para a educação.
Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).
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