Bife x petróleo #118. Por Juliana Gomes.

Na Semana do Meio Ambiente, é hora de tirar uns elefantes da sala e discutir, mais uma vez, o futuro da comida

Imagem: MST

Por Juliana Gomes no Jornal do Veneno. 

7 de junho

Olá, venener. Bom sábado pra você. Como tá a empolgação pro São João? Assim que junho deu as caras, constatei a ausência de paçoca na despensa e corri pra reparar esse contratempo domiciliar. Que sonho são os comes e bebes juninos, hein? Embora as opções variem horrores em cada região, o amendoim, o coco e o milho protagonizam os quitutes em quase todos os cantos.

A Embrapa confirma que 90% do milho brasileiro destinado a virar curau, mungunzá, pipoca, pamonha, bolo de fubá, broa, angu e cuscuz já é transgênico, da mesma forma que o milho plantado pra virar ração de galinha. Uma série de agrônomos e pesquisadores da biotecnologia alegam que trata de uma necessidade, mas ignoram que ela é decorrente dos desequilíbrios ambientais que o próprio modelo de plantio provocou.

Na terra do forró, onde se celebra a colheita do milho no dia de São João, o cenário também é de alerta. O pesquisador Gabriel Fernandes constatou que as espécies transgênicas têm contaminado as sementes crioulas de milho nos municípios que abrangem a Caatinga.

Desde a década de 1990, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que integra o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, liberou mais de 60 variedades transgênicas de milho pra uso comercial no país. Nossos vizinhos que também saúdam o milho, como Bolívia, Chile e Peru, entraram na mesma roubada.

Controlar os alimentos por meio de tecnologias patenteadas e venda casada de sementes e agrotóxicos virou uma política de Estado, infelizmente. E isso acontece porque nossas autoridades trabalham à serviço de setores econômicos com frequência. O PL da Devastação, que flexibiliza o licenciamento ambiental no país, tá aí pra provar.

Na última terça, dia 3, a revista piauí chamou a senadora Tereza Cristina (Progressistas), a cabeça por trás da articulação do PL no Senado, para uma sabatina amigável. O pragmatismo e a franqueza da representante do agronegócio são dignos de admiração. Trata-se de uma figura incapaz de nos surpreender. Ela nunca faz barulho, mas tampouco esconde seus posicionamentos. Segundo a abençoada, as obras de infraestrutura precisam caminhar mais rápido, especialmente na região Norte, pra escoar a produção agropecuária. Daí a necessidade de tornar o licenciamento ambiental menos rigoroso.

Quando questionada sobre os planos do setor pras eleições presidenciais de 2026, tia Tetê respondeu de forma bem objetiva. Disse que o Plano Safra recorde do governo Lula, com R$400 bilhões liberados em crédito pros fazendeiros, foi importante, mas não o suficiente pra um possível alinhamento com a gestão lulista. “O agro é conservador e pragmático, com uma tendência maior à direita (…). E nós temos um problema grave com a esquerda, que é o MST. Acredito que a centro-direita vai fazer as melhores escolhas para se organizar e ganhar a eleição”.

“Centro-direita”, risos.

Enquanto escrevo estas palavras, o esposo da Janja está abraçado com Emmanuel Macron na terra do croissant. Os dois são muito fofos juntos, andam de mãos dadas e tudo, mas os impasses pra assinatura do acordo entre Mercosul e União Europeia permanecem. É aquele que baixa ou zera os impostos no comércio entre os países dos dois blocos e desespera os agricultores europeus, sujeitos a regras ambientais mais rígidas. É inacreditável, inclusive, que os tratados de livre comércio continuem em discussão no meio do colapso climático, quando deveria ser urgente promover políticas pra fortalecer a produção local de tudo, principalmente de alimentos.

O barbudo falou de preservação por lá, criou três Unidades de Conservação aqui, mas não deu um sinalzinho de que pode vetar o PL da Devastação. Era a oportunidade de conseguir respaldo internacional pra frear o projeto, inclusive porque estamos há poucos meses da COP30, em Belém.

Esta edição segue o fluxo característico de um jornal com veneno no nome, já que há pouco a se comemorar nesta Semana do Meio Ambiente, mas também recusa o tom fatalista.

 


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