Material entregue a estudantes do ensino fundamental traz, nas próprias páginas, a indicação de que foi gerado com IA. Análises de professores apontam erros de conteúdo, e a Secretaria de Educação mudou, em 2026, o status do material de complementar para principal.
Por Luiza Soeiro para Desacato.info.
A Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis vem distribuindo a estudantes do ensino fundamental da rede pública apostilas produzidas com auxílio de inteligência artificial generativa. A informação não decorre de suposição: consta, de forma explícita, nas próprias páginas do material entregue às crianças.
Em uma das apostilas voltadas ao 2º ano, série que faz parte da etapa de alfabetização, na atividade intitulada “O Lobo Vegetariano”, a Divisão de Alfabetização (DIALF) da Secretaria registra na ficha do texto: “Elaborado pela equipe Dialf utilizando I.A. Gemini”. No mesmo conjunto de materiais, tirinhas em quadrinhos trazem a indicação “gerada por IA, Google Gemini em 15/04/2026”. As referências são ao Gemini, modelo de inteligência artificial do Google.
A reportagem teve acesso a exemplares físicos das apostilas, identificadas com a marca “Educa Floripa” e “Escalada do Aprender”, ambas com o brasão da Prefeitura de Florianópolis, além de pareceres técnicos elaborados por profissionais da rede que analisaram o conteúdo.

O que dizem os materiais
A coleção abrange diferentes anos do ensino fundamental, de português e matemática. Parte do material declara-se “estruturado”, isto é, organizado para conduzir a recuperação de aprendizagens dos estudantes, uma meta especialmente sensível diante das defasagens acumuladas no período da pandemia.
Documentos de análise produzidos por professores da rede, porém, apontam que a execução apresenta falhas. Em uma apostila de matemática do 9º ano, um exemplo resolvido afirma que “25 · 15 = 300”, quando o resultado correto é 375 — e o número 25 sequer corresponde ao valor citado no enunciado. Em outra atividade, uma tabela de combustíveis fósseis exibe percentuais que somam 101%. Há ainda uma questão que cita, como fonte de uma tabela de medalhas olímpicas, um endereço de conversa do ChatGPT, em vez de uma referência oficial.



No material de português do 9º ano, a análise técnica aponta outro caso grave. A crônica “Greve inútil”, de Lima Barreto, publicada originalmente em 1920 e de domínio público, aparece reescrita: trechos foram suprimidos e termos, substituídos, sem qualquer indicação de que o texto havia sido adaptado. Entre os cortes está a passagem em que o autor trata os trabalhadores como “inimigos” dos capitalistas no contexto da luta de classes, elemento central do pensamento crítico do escritor. A apostila chega a citar, na própria página, o link do texto original no portal Domínio Público do Ministério da Educação, o que permite o confronto direto entre as duas versões.

De complemento a material principal
Há ainda a questão do papel pedagógico atribuído ao material. Em fevereiro de 2025, em reunião na 25ª Promotoria de Justiça da Capital, o secretário municipal de Educação, Thiago Mello Peixoto da Silveira, afirmou que o material não substituiria o livro didático do programa nacional, constituindo “uma complementação aos estudos”, e que os professores seriam preparados para utilizá-lo. O registro consta de documento do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) a que a reportagem teve acesso.

Segundo a denúncia encaminhada por uma mãe de estudante da rede, esse entendimento teria sido alterado em 2026 por meio de nova portaria municipal, que passaria a tratar o material “Educa Floripa” como o material principal, rebaixando os livros do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), avaliados pedagogicamente em âmbito federal, à condição de complementares.
A denunciante afirma ainda que, no material de 2025, as apostilas traziam uma página com os nomes dos professores da rede responsáveis pela adaptação, e que, em 2026, essa identificação individual deixou de constar, passando a figurar apenas a menção à equipe da DIALF.
A sequência dos fatos desenha um quadro que merece debate público: um material que a própria Secretaria assume ter sido produzido com auxílio de inteligência artificial generativa, distribuído a crianças em fase de alfabetização, com erros de conteúdo apontados por professores da rede, e que, em apenas um ano, deixou de ser tratado como complemento para ocupar o lugar central no processo de ensino superando, na hierarquia adotada pela Prefeitura, livros didáticos submetidos a avaliação pedagógica federal. O desaparecimento dos nomes dos professores adaptadores entre 2025 e 2026 adiciona uma camada relevante à discussão: quem responde, hoje, pelo conteúdo que chega às mãos dos estudantes da rede municipal? A pergunta não é meramente administrativa. Ela toca um ponto sensível do debate educacional contemporâneo: o de até onde é legítimo que a formação de crianças em leitura, escrita e raciocínio, processos que dependem, por definição, da mediação humana qualificada, seja terceirizada a ferramentas de IA generativa, cujo funcionamento é probabilístico e cujos erros, como demonstram as próprias páginas do material, passam despercebidos sem revisão criteriosa. Em um cenário de defasagens de aprendizagem agravadas pela pandemia, o uso de IA na produção de material didático público levanta uma questão que extrapola Florianópolis e dialoga com discussões em curso em redes de ensino de todo o país: a tecnologia, quando incorporada sem transparência, sem participação dos profissionais da educação e sem mecanismos claros de responsabilização, deixa de ser ferramenta de apoio e passa a substituir, na prática, o trabalho pedagógico que deveria sustentar.
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