A educação sob ataque: por que a extrema-direita teme professores e o pensamento crítico

Por Marcos Aurélio Gomes Ribeiro.

A história demonstra que os regimes autoritários sempre enxergaram a educação como um campo estratégico de disputa política e ideológica. Não é por acaso que ditaduras e movimentos de extrema-direita, em diferentes partes do mundo, perseguiram professores, censuraram livros, intervieram nas universidades e tentaram controlar a produção do conhecimento. No Brasil contemporâneo, esse fenômeno reaparece de maneira preocupante.

Nos últimos anos, a educação pública, especialmente a universidade pública, tornou-se alvo constante de campanhas de desmoralização. Professores passaram a ser acusados de “doutrinação”, pesquisadores foram transformados em inimigos políticos e instituições de ensino passaram a ser tratadas como espaços de suposta ameaça aos valores tradicionais. Em muitos casos, essa retórica extrapolou o debate político e alimentou agressões verbais, ameaças e até ataques físicos contra docentes e profissionais da educação.

Um dos aspectos mais preocupantes desse cenário é a banalização da violência verbal contra os educadores. Em sessões de câmaras municipais e assembleias legislativas pelo país, parlamentares identificados com a extrema-direita têm utilizado a tribuna para atacar professores e professoras, chegando a chamá-los de “vagabundos” e retratando a atividade docente como uma profissão sem importância para a sociedade. Esse tipo de discurso não apenas desrespeita milhões de trabalhadores da educação, mas também estimula um ambiente de hostilidade que ultrapassa os parlamentos e alcança as salas de aula, as universidades e a própria convivência democrática.

Esse discurso não surge por acaso. A educação pública tem como uma de suas funções fundamentais estimular a capacidade de análise, o questionamento e a reflexão sobre a realidade social. Uma sociedade que desenvolve pensamento crítico é capaz de avaliar informações, confrontar discursos autoritários e participar conscientemente da vida democrática. É justamente essa autonomia intelectual que setores extremistas procuram enfraquecer.

Ao longo da história brasileira, estudantes, professores e intelectuais desempenharam papel importante na resistência ao autoritarismo. Durante a ditadura militar, universidades foram invadidas, centros acadêmicos fechados e centenas de docentes e estudantes sofreram perseguições, prisões, torturas e exílio. O objetivo era impedir que a produção do conhecimento alimentasse a organização social e política da população.

A ofensiva atual contra a educação pública guarda semelhanças com essas experiências históricas. O corte de investimentos, a tentativa de desqualificar as ciências humanas, a criminalização dos movimentos estudantis e a hostilidade contra professores fazem parte de uma estratégia que busca enfraquecer espaços de produção do conhecimento e de formação cidadã.

Atacar professores significa atacar a própria possibilidade de uma sociedade democrática. O educador não é apenas um transmissor de conteúdos, mas alguém que incentiva o diálogo, a pesquisa e a construção do saber. Quando a violência e a intimidação passam a fazer parte do cotidiano escolar e universitário, toda a sociedade perde, pois a liberdade de ensinar e aprender é um dos pilares da democracia.

Defender a educação pública e superior não é uma pauta corporativa de professores ou estudantes. Trata-se da defesa de um patrimônio coletivo, responsável pela formação de profissionais, pela produção científica, pelo desenvolvimento tecnológico e pela construção de uma cidadania consciente. Países que investem em educação fortalecem sua soberania, reduzem desigualdades e ampliam oportunidades para a população.

A extrema-direita pode tentar transformar professores em inimigos e universidades em alvos de perseguição política, mas a história também ensina que nenhuma sociedade se desenvolve combatendo o conhecimento. O futuro democrático do Brasil depende da valorização da escola pública, da universidade pública, da pesquisa científica e, sobretudo, da liberdade de pensar, questionar e refletir sobre o mundo em que vivemos.

Para compreender melhor esse debate

Livros

  • Pedagogia do Oprimido – Paulo Freire.
  • Educação como Prática da Liberdade – Paulo Freire.
  • A Ideologia Alemã – Karl Marx e Friedrich Engels.
  • Universidade, Estado e Lutas Sociais – Florestan Fernandes.
  • A Ditadura Envergonhada – Elio Gaspari.
  • 1964: A Conspiração Silenciosa – Marcos Aurélio Gomes Ribeiro.

Filmes

  • Pra Frente, Brasil (1982).
  • Batismo de Sangue (2006).
  • O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006).

Documentários

  • O Dia que Durou 21 Anos.
  • Cidadão Boilesen.
  • Democracia em Vertigem.
  • Paulo Freire Contemporâneo.
  • Espero Tua (Re)Volta, sobre a luta do movimento estudantil em defesa da educação pública.

Marcos Aurélio Gomes Ribeiro é professor de História Contemporânea do Brasil e pesquisador do movimento sindical e operário brasileiro.

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