O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na quinta-feira, na reunião inaugural do “Conselho de Paz”, que nove membros prometeram US$ 7 bilhões para um pacote de ajuda a Gaza e cinco concordaram em enviar soldados como parte de uma força internacional de estabilização para o território palestino devastado pela guerra.
Indonésia, Marrocos, Cazaquistão, Kosovo e Albânia se comprometeram a enviar tropas para uma força de estabilização em Gaza, enquanto Egito e Jordânia se comprometeram a treinar a polícia.
As tropas serão inicialmente enviadas para Rafah, um importante centro populacional onde o governo dos Estados Unidos espera concentrar primeiro os esforços de reconstrução.
Os países que prometeram ajuda para a reconstrução são Cazaquistão, Azerbaijão, Emirados Árabes Unidos, Marrocos, Bahrein, Catar, Arábia Saudita, Uzbequistão e Kuwait, disse Trump.
“Cada dólar gasto é um investimento na estabilidade e na esperança de uma (região) nova e harmoniosa”, disse Trump ao agradecer aos doadores. Ele acrescentou: “O Conselho de Paz está mostrando como é possível construir um futuro melhor aqui mesmo, nesta sala”.
Os dólares comprometidos, embora significativos, representam uma pequena fração dos cerca de US$ 70 bilhões estimados como necessários para reconstruir o território palestino, devastado após dois anos de “guerra” entre Israel e o Hamas.
Trump também anunciou que os Estados Unidos se comprometeram a contribuir com US$ 10 bilhões para o conselho, mas não especificou para que o dinheiro será usado. Também não ficou claro de onde viria o dinheiro dos Estados Unidos, um compromisso considerável que teria que ser autorizado pelo Congresso.
O major-general Jasper Jeffers, líder da recém-criada Força Internacional de Estabilização, disse que os planos contemplam 12 mil policiais e 20 mil soldados para Gaza.
“Com esses primeiros passos, ajudamos a trazer a segurança de que Gaza precisa para um futuro de prosperidade e paz duradoura”, disse Jeffers.
O conselho foi criado como parte do plano de paz de 20 pontos de Trump para pôr fim ao conflito em Gaza. Mas, desde o “cessar-fogo” de outubro, a visão de Trump para o conselho mudou e ele quer que ele tenha um mandato ainda mais ambicioso: um que não apenas complete a tarefa hercúlea de alcançar uma paz duradoura entre Israel e o Hamas, mas também ajude a resolver conflitos em todo o mundo.
Mas o acordo de cessar-fogo em Gaza continua frágil e a visão ampliada de Trump para o conselho despertou temores de que o presidente dos Estados Unidos esteja buscando criar um rival para as Nações Unidas.
Trump, rejeitando as críticas, disse que a criação de seu conselho ajudaria a viabilizar a ONU no futuro.
“Um dia eu não estarei mais aqui. A ONU continuará”, disse Trump. “Acredito que (a ONU) será muito mais forte, e o Conselho de Paz estará quase supervisionando a ONU e garantindo que ela funcione corretamente”.
Mesmo enquanto Trump falava da reunião como um triunfo que ajudaria a trazer uma paz mais duradoura ao Oriente Médio, ele lançou novas advertências ao Irã.
As tensões entre os Estados Unidos e o Irã se agravaram depois que Trump ordenou uma das maiores concentrações militares americanas na região em décadas.
Um grupo de porta-aviões já está na região e outro está a caminho. Trump advertiu Teerã que enfrentará ação militar americana se não abandonar seu programa nuclear, renunciar aos mísseis balísticos e interromper o financiamento a grupos extremistas aliados, como o Hezbollah e o Hamas.
“Temos que chegar a um acordo significativo. Caso contrário, coisas ruins acontecerão”, disse Trump.
Alguns aliados dos EUA continuam céticos
Quase 50 países e a União Europeia enviaram funcionários para a reunião de quinta-feira. Alemanha, Itália, Noruega, Suíça e Reino Unido estão entre mais de uma dúzia de países que não fazem parte do conselho, mas participam como observadores.
A maioria dos países enviou funcionários de alto nível, mas alguns líderes — incluindo o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, o presidente da Argentina, Javier Milei, e o primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán — viajaram a Washington para a reunião.
“Quase todo mundo aceitou, e aqueles que não aceitaram, vão aceitar”, disse Trump. “E alguns estão tentando ser engraçadinhos — isso não funciona. Eles não podem ser engraçadinhos comigo.”
O Conselho de Segurança da ONU realizou na quarta-feira uma reunião de alto nível sobre o acordo de cessar-fogo e os esforços de Israel para ampliar o controle na Cisjordânia. A sessão da ONU em Nova York estava originalmente marcada para quinta-feira, mas foi antecipada depois que Trump anunciou a reunião do conselho para a mesma data e ficou claro que isso complicaria os planos de viagem dos diplomatas que planejavam participar de ambas.
O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, comentou aos jornalistas no início desta semana que “a nível internacional, deveria ser acima de tudo a ONU a gerir estas situações de crise”.
Funcionário após funcionário aproveitou sua vez de falar para elogiar Trump por sua capacidade de pôr fim a conflitos em todo o mundo. O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, o chamou de “salvador do sul da Ásia”, enquanto outros disseram que anos de esforços de política externa dos Estados Unidos por parte de seu antecessor não conseguiram fazer o que Trump fez no último ano.
O ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, disse que Trump e os outros participantes da reunião mereciam agradecimento por seus esforços coletivos em relação a Gaza. Mas Fidan, que afirmou que a Turquia também estava preparada para contribuir com tropas para a força de estabilização, alertou que a situação continua precária.
“A situação humanitária continua frágil e as violações do cessar-fogo continuam ocorrendo”, disse Fidan. “Portanto, é essencial uma resposta rápida, coordenada e eficaz.”
Perguntas sobre o desarmamento do Hamas
Um ponto central das conversas de quinta-feira foi a formação de uma força internacional de estabilização armada para manter a segurança e garantir o desarmamento do Hamas, uma exigência fundamental de Israel e um pilar do acordo de cessar-fogo.
O grupo armado palestino deu poucos sinais que gerem confiança de que está disposto a avançar com o desarmamento. O governo “não tem ilusões sobre os desafios em torno da desmilitarização”, mas se sentiu encorajado pelo que os mediadores relataram, de acordo com um funcionário dos Estados Unidos que não estava autorizado a comentar publicamente e falou sob condição de anonimato.
Mas a questão não resolvida do desarmamento do Hamas é um ponto de atrito que muito bem poderia atrasar ou mesmo inviabilizar o plano dos Estados Unidos.
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, falando de uma base militar empoeirada no sul de Israel, reiterou sua promessa de que “não haverá reconstrução” de Gaza antes da desmilitarização. Seu ministro das Relações Exteriores, Gideon Saar, disse durante a cerimônia de quinta-feira que “deve haver um processo fundamental de desradicalização”.
Trump disse aos participantes que o Hamas prometeu se desarmar e que seria tratado “com muita dureza” se não o fizesse. Mas ele deu poucos detalhes sobre como essa difícil tarefa seria realizada.
O secretário de Estado Marco Rubio reconheceu que “ainda há um longo caminho a percorrer” em Gaza.
“Ainda há muito trabalho a ser feito, que exigirá a contribuição de cada nação aqui representada hoje”, acrescentou o funcionário americano.
No chamado Conselho de Paz, Gianni Infantino anunciou que a FIFA investirá US$ 75 milhões para impulsionar o futebol em Gaza. O projeto inclui cinco campos regulamentares, uma Academia da FIFA e um estádio nacional para 20 a 25 mil torcedores. O anúncio foi feito no Instituto da Paz dos Estados Unidos, em Washington, onde Infantino colocou um boné vermelho com a inscrição “USA”.
Foi uma inauguração ao estilo que Trump gosta, cercado por aliados como os países do Golfo, Turquia ou Argentina, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, música pop e um tom de satisfação e felicitações mútuas.

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