Por Roberto Liebgott, Cimi Sul-Equipe Porto Alegre.
Faleceu na noite de 3 de julho de 2026 o cacique Mbya Guarani Estevam Garrai, da Tekoá Pekuruty, de Eldorado do Sul, às margens da BR-290, no km 132.
Seu Estevam morreu como viveu: à margem.
À margem da rodovia, entre cercas, caminhões e o barulho incessante do trânsito. À margem das políticas públicas. À margem dos direitos que a Constituição lhe assegurou, mas que o Estado jamais efetivou.
Nunca pôde viver em seu território originário, porque sua terra tradicional não foi demarcada. Tampouco foi beneficiado pelos programas de compensação que deveriam ter garantido a aquisição de uma área para sua comunidade, já que o lugar onde vive incide sobre o projeto de duplicação da rodovia. Nos últimos anos, a violência e os impactos sobre sua comunidade se intensificaram, mas as medidas compensatórias permaneceram apenas no papel.
Seu Estevam foi um homem de resistência.
Enfrentou décadas de abandono sem renunciar à luta. Reivindicou seus direitos com firmeza e dignidade, insistiu na defesa de seu povo e jamais deixou de acreditar que um dia sua comunidade viveria em um território seguro e digno. Em resposta, encontrou a burocracia, a omissão, as manobras e os sucessivos adiamentos do Estado.
Passou a vida sob barracos de lona, convivendo com a falta de terra, de água, de segurança e de tranquilidade. Viveu onde ninguém deveria ser obrigado a viver: nas margens, onde criou seus filhos, netos e fortaleceu sua comunidade.
A morte de Seu Estevam Garrai não representa apenas a despedida de uma liderança Mbya Guarani. Ela expõe o fracasso do Estado brasileiro em garantir um direito fundamental: o direito à terra.
Seu Estevam transforma-se, agora, em símbolo de uma luta que permanece aberta. A luta pela terra negada, pela terra transformada em mercadoria, submetida à exploração, à contaminação e à especulação, enquanto seus verdadeiros guardiões seguem esperando por justiça.
Que sua memória não seja apenas motivo de lamento, mas também de indignação e compromisso.
Porque nenhum povo deveria viver e morrer às margens quando a Constituição lhe reconhece o direito de viver em seu próprio território.
Que Ñhanderu, o Deus do povo Guarani, o acolha com a dignidade que tantas vezes lhe foi negada nesta vida. Que a Yvy Marã Ey, a Terra sem Mal, seja agora sua morada plena e definitiva, já que, em sua existência terrena, a terra lhe foi negada, maltratada e degradada. Que ali encontre a paz que o Estado lhe recusou e o território que jamais deixou de buscar para seu povo.
Porto Alegre, 03 de julho de 2026.
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