Metanol, uma preocupação nacional

A boa notícia dentro desse contexto que anda assombrando o país, é que o Ministério da Saúde já providenciou a importação 2.500 unidades do fomepirol e 12 mil ampolas do etanol

Imagem: BIODIESEL BRASIL

Por Sebastião Costa.

De repente começamos a ouvir falar do metanol, substância com parentesco muito próximo do etanol, matéria prima do uisque, vinho, cerveja e muitas outras bebidas responsáveis pela animação de jovens e adultos nas festinhas, nos bares, nos restaurantes.

A fórmula química é também muito próxima
Etanol: C?H?O
Metanol: CH?OH

Quem vai promover a diferença fundamental entre os dois é o metabolismo no fígado. O etanol é transformado em acetato, sem consequências patológicas, enquanto do metanol vai surgir o ácido fórmico de imenso potencial de agressividade em vários órgãos do corpo humano.

Os primeiros impactos ocorrem no cérebro produzindo tontura e confusão mental. Os rins começam a sofrer, e a visão turva é um sintoma de alerta. A chegada nos pulmões, com desconforto respiratório progressivo exige atendimento de emergência.

Muita atenção para os primeiros sintomas que ocorrem em 12 a 24 horas (em alguns casos até 90 horas) e exigem atendimento médico imediato:
Tontura – confusão mental – cólica abdominal – vômitos – visão turva
E quanto mais cedo chegam os sintomas mais agressiva é a intoxicação.
Dentro desse raciocínio, há de se convir que quanto maior a distância entre a ingestão e os primeiros sinais clínicos menos riscos para o paciente.

A cegueira, o coma e a falência múltipla dos órgãos são os estágios avançados da intoxicação e que vão determinar o óbito do paciente.

Os estudos disponíveis referem o ácido fórmico agredindo com mais intensidade o nervo óptico. A visão turva está inserida no rol dos primeiros sintomas e de acordo com o respeitado Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA ( CDC) a cegueira pode ser determinada com a ingestão de 10ml do metanol (2 colheres das de chá).

Ainda dentro do contexto neurológico é possível observar, que uma das sequelas mais comuns deixadas pela intoxicação são sintomas ‘parkisonianos’, como tremores e rigidez muscular.

No tratamento deve-se considerar a hemodiálise, que vai acelerar a ‘expulsão’ do metanol pelos rins mas, essencialmente a utilização do fomepizol que vai atuar no fígado inibindo a transformação do metanol em ácido fórmico, responsável, conforme já referido, pela violenta agressão aos diversos órgãos do corpo, comprometendo a visão, o cérebro, os rins, o aparelho digestivo e respiratório.

Um outro recurso para tratamento dos intoxicados é a utilização do etanol farmacêutico, que vai produzir uma diluição do metanol circulante reduzindo no fígado a produção do ácido fórmico.

Importante informar que a presença do metanol na bebida mantêm coloração e cheiro inalterados, impossibilitando sua identificação sem o auxílio de outros recursos, como os que estão sendo desenvolvidos por técnicos da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB) em Campina Grande.

Indispensável acrescentar que as bebidas destiladas são mais passíveis de adulteração, essencialmente as incolores – vodka, gin, cachaça…
Vinho, chope e cerveja, os riscos de intoxicação são bem menores, com destaque para a cerveja em lata, que mantêm uma proteção especial contra adulterações com o metanol.

A boa notícia dentro desse contexto que anda assombrando o país, é que o Ministério da Saúde já providenciou a importação 2.500 unidades do fomepirol e 12 mil ampolas do etanol que devem ser aplicadas por via venosa em ambiente hospitalar. Há uma previsão no Ministério da Saúde de iniciar a distribuição dos antídotos nesse final de semana com determinação de se priorizar os hospitais da rede pública.

As recomendações dos especialistas incluem maior prudência no consumo das bebidas destiladas, observando-se a procedência e preço abaixo do mercado. E o médico norueguês Knut Erik Hovdada que integra a organização MÉDICOS SEM FRONTEIRAS com mais de 20 anos de estudos sobre intoxicação pelo metanol e com experiência em vários surtos ao redor do mundo alerta para a necessidade das autoridades promoverem uma conscientização da sociedade. Ele fala da importância de sempre informar a população de uma maneira mais objetiva possível: “tenha cuidado com o que você bebe ou procure um posto de saúde se você sentir sintomas”.

Não custa nada repetir os primeiros sintomas da intoxicação pelo metanol
TONTURA – CONFUSÃO MENTAL – CÓLICA ABDOMINAL – VÔMITOS – VISÃO TURVA

Sebastião Costa é médico pneumologista, escritor e apresentador do programa Ar Puro no Portal Desacato

 


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