María Arthuer, mãe do campeão mundial, Nico Williams, por vergonha, omitiu para os filhos durante muitos anos o seu sofrimento para chegar à Espanha, atravessando a pé boa parte do continente africano e entrando de forma irregular neste país (onde eu moro, e ela também).
Apenas 14 quilômetros separam os dois continentes, África e Europa, Marrocos e Espanha, pelo estreito de Gibraltar, no Mar Mediterrâneo (mar do meio da Terra). É considerado hoje o maior cemitério de corpos náufragos do mundo, por ser a via mais barata de migrar da África ao Norte.
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Gibraltar é território espanhol controlado pelo velho colonialismo inglês. Como as Malvinas, ilhas argentinas.
Esta, na foto, é Sheila Ebana, mãe de Lamine Yamal.
Com origem na Guiné Equatorial, uma das últimas colônias espanholas na África, Sheila morava em Mataró (no bairro Rocafonda, que Yamal sempre cita nos meios de comunicação), ainda adolescente, quando nasceu Lamine, fruto da sua relação com Mounir Nasraoui, pai do jogador catalão.
Pouca gente sabe que o colonialismo espanhol mantém, até hoje, uma parte ocupada do território africano, subordinada ao Rei espanhol. Em comum acordo com a monarquia do Marrocos, ambas de origem medieval.
Sozinha na cria do filho, Sheila pediu transferência ao McDonalds onde trabalhava, para morar longe, na cidade onde Lamine jogava na escolinha de futebol. Essa é a realidade de milhares de mães por aqui.
Convivi com jovens catalães (aqui nascidos) de pais com descendência africana.
Sempre se destacam no futebol, pelo que aqui chamam de “callejeros”. Peladeiros de rua, aprenderam, da forma que podiam, a driblar como poucos europeus sabem. Passam, naturalmente, mais tempo na rua, jogando bola, pela condição econômica dos seus pais, sempre em piores condições que os europeus, mesmo vivendo aqui desde muitos anos e de várias gerações familiares.
São caras as escolinhas de futebol por aqui.
Adoro a amizade dos meus filhos com meninos assim.
Quando saem de farra, sempre peço aos meus filhos para ter cuidado com o carro que eles dirigem. Sempre respondem: não bebem, pai; e são estritamente mais cuidadosos que os de “aparência” mais ao Norte da Europa.
Comprovei pessoalmente ao viajarmos ao Norte da África, ao Marrocos, um dos lugares onde eu me senti mais seguro em toda a minha vida.
Frequentemente o meu entorno associava ao fato da religião ancestral, mulsumana, o fato de serem menos de farra alcoólica (aquele que mata milhares de jovens nos finais de semana, no Brasil de maioria católica). Além disso, o roubo é algo muito mal visto. E perseguido pela polícia da monarquia (ditatorial).
Mas isso é somente o que na sociologia chamam de Senso Comum. Cuidado.
Não foi pouco o que Lamine e Nico conseguiram.
De fato, muito do mérito é dessas mães.
Lembram da mãe da maioria de jogadores da seleção brasileira? As que criaram seus filhos sozinhas?
Agora multiplique isso por terem vindo da África, pra Europa, esta, cada vez mais racista.
Aquele abraço.
Viva Sheila e Viva María.
Flávio Carvalho é sociólogo, participante da FIBRA e do Coletivo Brasil Catalunya. Colabora como articulista com o Portal Desacato @1flaviocarvalho.
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Por Flávio Carvalho.




