A Espanha não é a “Fúria”. Quem ainda insiste nisso?

Aqui, na Espanha onde eu moro, deixaram de usar esse nome, Fúria, por remeter a outro, Ódio.

Foto: Reprodução

Por Flávio Carvalho.

Fúria! A maioria dos grandes jornais brasileiros assim se refere à seleção espanhola.
Nenhum jornal espanhol faz o mesmo.

Fui a um programa na Catalunha Rádio e os expliquei que chamar a seleção brasileira de Carioca, também é um erro. Pois não é a seleção do Rio de Janeiro. É de todo o Brasil.

Aqui, na Espanha onde eu moro, deixaram de usar esse nome, Fúria, por remeter a outro, Ódio.

Na verdade, eu moro num lugar bem particular da Península, na Catalunha, base e origem da maioria de jogadores. Um território eminentemente anti-monárquico, diferente de Madri, capital do Reino. Mas essa seria outra história.

A monarquia espanhola, de origem medieval, reforçada nos anos de franquismo, país de base essencialmente colonialista, que mais dinheiro lucra no Brasil e que teve a ideia de repartir nosso território em Capitanias Hereditárias, acordou hoje surpreendentemente carinhosa com os filhos de gente migrante que veio vencer profissionalmente neste país.

Felicidade, amorosa, é o contrário de Ódio.

Um delito de Ódio na Espanha, para ter ideia da expressão, é a forma como esse país, faz de tudo para não chamar de Racismo, o que é, de fato.

Não somente a Espanha (ou a Argentina) odeia ser chamada de Racista.
O racismo estrutural é coletivo e individualizar-se é o que não querem.

O problema é que uma pessoa pode (deve) admitir-se algo de racismo que possui e que lhe beneficia, como forma de eliminar esse problema.

Privilégio é o que nós temos e que outras pessoas não temos, diferenciando-nos delas.
Um direito se não é para todos, passa a ser privilégio.
(aprendi com Flavia)

O Brasil (que também tenta esconder seus racismos, cada dia) foi um dos primeiros países do mundo a ter uma legislação antirracista.

A Espanha, país que mais tempo passou numa ditadura, no mundo ocidental, resiste em não fazer o mesmo. É progressista pra umas coisas e conservadora pra muitas outras.

A ditadura espanhola, dos anos 30 até os anos 70 (juízes e políticos a herdaram e estão vivos e ativos) foi assumidamente Fascista.
Aquilo que o Brasil, país do segundo partido nazista com mais filiados no mundo, sempre teve vontade de eximir, mas demorou a sair do armário.

Um dos elementos característicos do nazi-fascismo é a fúria desenfreada contra quem pensa diferente.

É muito difícil tergiversar sobre o conteúdo eminentemente político que o campeonato mundial de futebol teve sobre a atual geopolítica mundial. Foi lá num país governado por um fascista e com o partido nazi (aqui na Espanha também, chamado Núcleo Nacional, pior que VOX) saindo às ruas em total permissividade da polícia.

Na minha opinião, o maior vitorioso foi tudo o que representa Lamine Yamal.

É do meu time, o FC Barcelona. Vem muita felicidade por aí.

Para desespero dos furiosos.

Aquele abraço.

Flávio Carvalho é sociólogo, participante da FIBRA e do Coletivo Brasil Catalunya. Colabora como articulista com o Portal Desacato @1flaviocarvalho.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.


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