Florianópolis, cidade vitrine

Por Luiza Soeiro, para Desacato.info.

Antes de Florianópolis, foi Nossa Senhora do Desterro; antes disso, Porto dos Patos; e muito antes, esse pedacinho de terra perdido no mar era chamado de Meiembipe, nome dado pelos moradores originais, os Carijós, que o escolheram por significar “lugar acima do rio”.

Eram cerca de 60 mil indígenas descendentes de Guaranis que percorriam a extensão de Santa Catarina quando o primeiro turista, Francisco Dias Velho, aportou na ilha por volta de 1673. Desde então, esta capital se tornou indomável, e refém daqueles que a utilizam como uma grande vitrine para o Mundo Novo.

Séculos depois, pouca coisa mudou na essência do que se faz com esta ilha.

Se antes a posição da cidade movia embarcações, agora move as redes sociais. Florianópolis aprendeu a se vender, e vende bem. Virou o cenário idealizado do “paraíso catarinense”: praias intocadas, sol sem fim, ruas que se multiplicam em fotos, vídeos e pacotes turísticos. Tornou-se, aos olhos do país e do mundo, uma mercadoria estética, desejada, consumida e esquecida assim que termina a temporada.

Competente essa administração que refaz a cidade a cada verão, numa coreografia conhecida: reformas apressadas, anúncios de investimento, maquiagem urbana que tenta disfarçar os mesmos problemas que voltam todos os anos. É um ciclo que começa bem antes da chegada dos turistas e termina com ruas tomadas de lixo, trânsito colapsado e custo de vida ainda mais alto.

O neo–Dias Velho afirma que “a cidade está cada vez mais atrativa, preparada, pronta para oferecer serviços de qualidade em todas as frentes”, enquanto 35% de suas praias são consideradas impróprias para banho.
O levantamento foi feito pelo Laboratório de Análises Ambientais da Udesc, com base em amostras coletadas pela Vigilância Sanitária, que avaliou 50 pontos de balneabilidade, 17 deles em condições inadequadas.

Florianópolis espera quase três milhões de pessoas entre 15 de novembro de 2025 e 15 de maio de 2026, durante a chamada “Operação Verão”.

Entre as promessas, está a ampliação do serviço de telemedicina “Alô Saúde”, que teria reduzido em 73% o tempo de atendimento nas UPAs.
Enquanto isso, o Multihospital, localizado longe do centro urbano, acumula R$27,7 milhões em recursos públicos aplicados de forma irregular, às custas da população doente e moradora da cidade.

Para a mobilidade urbana, a promessa é uma faixa adicional na SC-401, rodovia considerada a mais perigosa de Santa Catarina, que dá acesso aos bairros do norte da Ilha, onde estão Jurerê, Canasvieiras e Ingleses. Mas o novo espaço será restrito a veículos pesados e táxis, o que pouco altera a rotina dos trabalhadores e moradores locais.

E, para fechar o espetáculo, Florianópolis se prepara para receber turistas de todos os cantos do mundo em seu novo aeroporto “acessível, instagramável e tecnológico”, erguido em uma área ambientalmente sensível, próxima a manguezais.

Florianópolis se refaz, mais uma vez, para caber na própria vitrine.

As luzes, as obras e as promessas se acendem a cada verão, enquanto o que é estrutural e necessário, segue à sombra, escondido atrás das faixas, das placas e das campanhas de marketing. O problema é que uma cidade pensada para ser vista nunca se prepara para ser vivida.

E quando a temporada termina, o que sobra são os rastros do espetáculo: o mar sujo, o aluguel impagável, a pressa de quem precisa trabalhar para que os outros descansem.

A ilha que um dia foi chamada de Meiembipe continua existindo, mas cada vez mais distante daquilo que lhe deu origem.

No fim, fica a pergunta: Florianópolis foi feita para ver ou para viver?


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