Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
A política externa do governo de Pedro Sánchez apresenta-se internacionalmente como defensora do multilateralismo, dos direitos humanos e do direito internacional. Nos últimos anos, Madri reconheceu oficialmente o Estado da Palestina, criticou a expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada e passou a condenar com maior contundência a devastação e o genocídio provocados em Gaza após o 7 de outubro.
Entretanto, essa postura convive com uma realidade muito menos coerente quando se trata do Saara Ocidental. Ao longo de quase cinco décadas, sucessivos governos espanhóis evitaram confrontar o Reino de Marrocos, apesar de a ocupação do território saaraui permanecer considerada pelas Nações Unidas um processo de descolonização inacabado. Mais recentemente, o governo de Pedro Sánchez abandonou a posição histórica da diplomacia espanhola ao apoiar o plano marroquino de autonomia, aproximando-se das pretensões de Rabat sobre um território cujo estatuto jurídico continua pendente.
A contradição tornou-se ainda mais evidente após as revelações sobre a espionagem do telefone do próprio presidente espanhol por meio do software israelense Pegasus. Investigações judiciais já haviam confirmado a invasão do aparelho de Sánchez; posteriormente, uma investigação internacional coordenada pelo consórcio Forbidden Stories acrescentou novos elementos ao caso ao indicar que a operação teria integrado uma estratégia mais ampla de pressão marroquina para alterar a posição espanhola sobre o Saara Ocidental. Embora essas conclusões ainda sejam objeto de debate e não constituam decisão judicial definitiva, elas ampliam as dúvidas sobre os fatores que levaram à mudança da política externa espanhola.
Compreender essa relação exige analisar não apenas a história colonial da Espanha, mas também a importância estratégica de Marrocos para a União Europeia, sua crescente parceria com Israel e a forma como interesses geopolíticos frequentemente prevalecem sobre os princípios proclamados pelas democracias ocidentais.
Uma descolonização interrompida
O Saara Ocidental foi administrado pela Espanha desde o final do século XIX. Mesmo diante da onda global de descolonização iniciada após a Segunda Guerra Mundial, Madri adiou sucessivamente a realização do processo de autodeterminação previsto pelas Nações Unidas.
Em 1975, quando o regime franquista chegava ao fim, a Espanha assinou com Marrocos e Mauritânia o chamado Acordo Tripartite de Madri. Pelo entendimento, transferia a administração do território aos dois países sem consultar a população saaraui e sem concluir o processo de descolonização.
A ONU jamais reconheceu esses acordos como instrumento válido para transferir a soberania do território. Naquele mesmo ano, a Corte Internacional de Justiça concluiu, em parecer consultivo, que não existiam vínculos de soberania entre Marrocos e o Saara Ocidental que pudessem impedir a aplicação do princípio da autodeterminação.
Diversos especialistas em direito internacional sustentam, por isso, que a Espanha continua sendo, de iure, a potência administradora do território, mantendo responsabilidades políticas e jurídicas que nunca foram plenamente assumidas.
Na prática, porém, Madri abandonou sua antiga colônia.
Cinquenta anos de ocupação
Após a retirada espanhola, Marrocos ocupou grande parte do território saaraui, dando início a um conflito armado com a Frente Polisário, movimento reconhecido pela ONU como representante do povo saaraui.
Em 1991 foi firmado um cessar-fogo mediado pelas Nações Unidas. Como parte do acordo, criou-se a Missão das Nações Unidas para o Referendo no Saara Ocidental (MINURSO), cujo principal objetivo seria organizar uma consulta popular para que os saarauis escolhessem entre independência ou integração a Marrocos.
Mais de três décadas depois, esse referendo jamais ocorreu.
Enquanto isso, milhares de saarauis continuam vivendo em campos de refugiados na Argélia, dependentes de ajuda humanitária internacional. Nos territórios ocupados, organizações como Human Rights Watch e Anistia Internacional documentam repetidamente denúncias de prisões arbitrárias, restrições à liberdade de expressão, tortura, perseguição de ativistas, repressão a manifestações e limitações ao trabalho de jornalistas independentes.
Apesar desse histórico amplamente conhecido, a Espanha raramente adotou iniciativas diplomáticas capazes de pressionar Rabat.

A mudança promovida por Pedro Sánchez
Durante décadas, a diplomacia espanhola sustentou oficialmente que a solução do conflito deveria ocorrer no marco das Nações Unidas, mediante um acordo que respeitasse o direito de autodeterminação do povo saaraui.
Essa posição mudou abruptamente em março de 2022.
Em uma carta enviada ao rei Mohammed VI, posteriormente divulgada pela Casa Real marroquina, Pedro Sánchez classificou o plano de autonomia apresentado por Rabat como a proposta “mais séria, realista e credível” para resolver o conflito.
Na prática, tratou-se da maior inflexão da política espanhola desde 1975.
A decisão provocou forte reação da Frente Polisário, gerou uma grave crise diplomática com a Argélia — principal apoiadora da causa saaraui — e foi criticada por juristas, especialistas em direito internacional, partidos políticos espanhóis e organizações de solidariedade.
Em 20 de julho passado, Pedro Sánchez viajou à Argélia para restabelecer as relações bilaterais após anos de tensão provocada pela mudança da posição espanhola sobre o Saara Ocidental. Na agenda estiveram o abastecimento de gás, a segurança no Mediterrâneo e a cooperação econômica. Apesar da reaproximação com Argel, Madri manteve inalterado seu apoio ao plano marroquino para o Saara Ocidental. O tema da autodeterminação saaraui, que havia motivado a crise diplomática entre os dois países, permaneceu ausente das declarações oficiais.

Migração, segurança e dependência
A mudança dificilmente pode ser compreendida sem considerar a crescente dependência espanhola em relação a Marrocos.
Em maio de 2021, durante uma grave crise diplomática, uns oito mil migrantes atravessaram a fronteira entre Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta em poucas horas.
Vários relatórios do Centro Nacional de Inteligência (CNI) espanhol indicaram que circularam entre migrantes subsaarianos informações de que Marrocos reduziria o controle nas áreas próximas a Ceuta. Segundo esses documentos, as autoridades marroquinas teriam diminuído a vigilância na costa norte e facilitado o deslocamento de migrantes até a fronteira, favorecendo a entrada massiva registrada em maio de 2021.
O relaxamento dos controles ocorreu após o governo espanhol autorizar, em abril de 2021, a transferência para um hospital em La Rioja de Brahim Ghali, líder da Frente Polisário.
O episódio demonstrou a enorme capacidade de pressão de Rabat sobre Madri.
Desde então, a cooperação migratória consolidou-se como uma prioridade estratégica para a Espanha e para toda a União Europeia. Marrocos passou a desempenhar o papel de guardião das fronteiras meridionais europeias, recebendo vultosos recursos financeiros de Bruxelas para controlar as rotas migratórias provenientes da África.
Na prática, o controle migratório tornou-se um poderoso instrumento diplomático.
Sempre que surgem tensões políticas, cresce também a preocupação espanhola com a possibilidade de um afrouxamento dos controles na fronteira.
Esse contexto ajuda a explicar por que Madri passou a privilegiar a estabilidade da relação bilateral mesmo diante das denúncias relacionadas ao Saara Ocidental.
Os interesses econômicos
Marrocos tornou-se um dos principais parceiros comerciais da Espanha. Empresas espanholas investem em infraestrutura, energia, agricultura, indústria automobilística, pesca, logística e turismo, enquanto cadeias produtivas integram diariamente os dois lados do Estreito de Gibraltar.
Essa integração econômica faz de Marrocos um parceiro estratégico para diversos setores da economia espanhola.
Ao mesmo tempo, sucessivas decisões do Tribunal de Justiça da União Europeia estabeleceram que o Saara Ocidental possui estatuto jurídico distinto do território marroquino e que seus recursos naturais não podem ser explorados mediante acordos comerciais sem o consentimento do povo saaraui.
Apesar dessas decisões, a exploração econômica dos recursos do território continua sendo motivo permanente de controvérsia, demonstrando que interesses econômicos muito frequentemente prevalecem sobre o respeito às decisões judiciais internacionais.
É nesse contexto de dependência econômica, controle migratório e responsabilidades coloniais nunca plenamente assumidas que deve ser compreendida a crescente aproximação entre Madri e Rabat. Nos últimos anos, entretanto, um novo elemento passou a influenciar essa equação: a rápida consolidação da parceria estratégica entre Marrocos e Israel, que transformou o conflito saaraui em parte de uma disputa geopolítica muito mais ampla.
Marrocos e Israel: uma parceria estratégica
Em dezembro de 2020, Marrocos normalizou oficialmente suas relações diplomáticas com Israel no âmbito dos Acordos de Abraão, promovidos pelo governo de Donald Trump. Em troca, os Estados Unidos reconheceram a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental, rompendo com décadas de consenso internacional que considerava o território pendente de descolonização.
O acordo representou muito mais do que uma aproximação diplomática. Ele inaugurou uma ampla cooperação política, econômica e militar entre Rabat e Tel Aviv.
Nos anos seguintes, os dois países assinaram acordos nas áreas de inteligência, segurança cibernética, agricultura, tecnologia, gestão hídrica, indústria militar e defesa. Israel tornou-se um dos principais fornecedores de equipamentos militares para as Forças Armadas marroquinas, incluindo drones, sistemas de vigilância, radares, tecnologias de espionagem e armamentos de alta precisão.
Diversos centros de pesquisa e analistas especializados em segurança internacional afirmam que essa cooperação fortaleceu significativamente a capacidade de vigilância de Marrocos sobre o Saara Ocidental ocupado. Embora a extensão operacional desses sistemas permaneça parcialmente protegida pelo sigilo militar, organizações de direitos humanos vêm denunciando o aumento da vigilância eletrônica, da repressão política e das restrições impostas aos ativistas saarauis.
Paradoxalmente, essa aproximação ocorre apesar da forte rejeição existente dentro da própria sociedade marroquina. Pesquisas de opinião e grandes manifestações populares realizadas desde 2023 revelam amplo apoio da população à causa palestina e oposição à normalização das relações com Israel. Mesmo assim, a monarquia manteve intacta sua política de aproximação com Tel Aviv.
O caso Pegasus
A relação entre Espanha, Marrocos e Israel ganhou novos contornos com o escândalo envolvendo o software espião Pegasus.
Em 2022, a Justiça espanhola confirmou, por meio de perícias técnicas, que os telefones celulares do presidente Pedro Sánchez, da então ministra da Defesa, Margarita Robles, e do ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, haviam sido infectados pelo programa israelense. A investigação constatou que mais de 2,5 gigabytes de informações foram extraídos do aparelho do presidente entre os dias 19 e 22 de maio de 2021.
Na ocasião, a autoria da invasão permaneceu oficialmente indefinida.
Entretanto, uma investigação publicada em 2026 pelo consórcio internacional Forbidden Stories, em parceria com diversos meios de comunicação europeus e com apoio técnico do Laboratório de Segurança da Anistia Internacional, trouxe novos elementos ao caso. Com base em depoimentos de ex-integrantes da Direção-Geral de Vigilância do Território (DGST), o serviço secreto interno marroquino, a reportagem afirma que a espionagem fazia parte de uma operação destinada a pressionar o governo espanhol a modificar sua posição sobre o Saara Ocidental.
Segundo a investigação, documentos reservados do Centro Nacional de Inteligência (CNI) espanhol identificavam como objetivo da operação obter uma mudança da política de Madri em favor da soberania reivindicada por Rabat.
Embora essas conclusões ainda não tenham sido confirmadas judicialmente, elas se somam a um conjunto de fatos que chamaram atenção dos analistas: a invasão do telefone do presidente ocorreu poucos dias depois da crise migratória de Ceuta, e menos de um ano depois o governo espanhol abandonou a posição que havia sustentado durante mais de quarenta anos.
A sucessão dos acontecimentos alimentou intenso debate político dentro da própria Espanha.
A tecnologia israelense
Outro aspecto particularmente relevante diz respeito à origem do Pegasus.
O software é desenvolvido pela empresa israelense NSO Group, cuja comercialização internacional depende de autorização do Ministério da Defesa de Israel. Segundo a investigação jornalística, Marrocos teria adquirido o sistema por intermédio de uma empresa sediada nos Emirados Árabes Unidos, mecanismo que teria evitado uma contratação direta entre Rabat e fornecedores israelenses.
Após confirmar a invasão dos telefones das mais altas autoridades do país, o governo espanhol levou o caso à Audiência Nacional.
Entretanto, a investigação acabou arquivada diante da falta de cooperação das autoridades israelenses às comissões rogatórias expedidas pela Justiça espanhola. Madri tampouco apresentou protestos diplomáticos públicos contra Israel nem responsabilizou oficialmente Marrocos pela espionagem.
O episódio revelou uma situação incomum: o telefone do chefe do governo da quarta maior economia da zona do euro foi invadido por meio de um software israelense, em uma operação cuja autoria permanece oficialmente sem conclusão judicial definitiva, mas cujos principais indícios apontados pela investigação internacional recaem sobre o aparato de inteligência marroquino.
Ainda assim, as relações diplomáticas entre Espanha, Marrocos e Israel permaneceram praticamente inalteradas.
A contradição espanhola
Nos últimos anos, Pedro Sánchez procurou projetar internacionalmente uma imagem de liderança europeia que reconheceu o Estado palestino e que critica as ações militares israelenses em Gaza.
Contudo, essa política convive com excelentes relações econômicas e estratégicas com Marrocos, país que se tornou um dos principais aliados de Israel no norte da África e cuja aproximação com Tel Aviv foi recompensada pelo reconhecimento estadunidense da soberania marroquina sobre o Saara Ocidental.
Essa aparente contradição evidencia um padrão recorrente da política internacional.
Os direitos humanos, a autodeterminação dos povos e o respeito ao direito internacional costumam ocupar posição central nos discursos oficiais. Entretanto, quando entram em conflito com diversos interesses como os ligados à segurança, à migração, ao comércio, à energia ou à estabilidade regional, frequentemente deixam de orientar as decisões concretas dos governos.
O caso espanhol ilustra de forma particularmente clara essa lógica.
Ao mesmo tempo em que Madri condena violações do direito internacional em diferentes partes do mundo, mantém uma relação privilegiada com um governo que ocupa um território considerado pela ONU como não autônomo e pendente de descolonização.
Um conflito que permanece aberto
Cinquenta anos depois da retirada espanhola, o Saara Ocidental continua sendo um dos conflitos coloniais mais antigos do mundo.
O referendo de autodeterminação prometido pelas Nações Unidas jamais foi realizado. Milhares de saarauis permanecem vivendo em campos de refugiados na Argélia, enquanto outros continuam submetidos à ocupação marroquina.
A responsabilidade histórica da Espanha permanece igualmente aberta.
Como antiga potência administradora, Madri jamais concluiu o processo de descolonização iniciado durante o século XX. Ao privilegiar sua relação estratégica com Rabat, acabou contribuindo para consolidar um conflito cuja solução continua bloqueada.
As recentes revelações sobre o caso Pegasus não alteram, por si só, essa realidade. Entretanto, reforçam a percepção de que a mudança da política espanhola não pode ser compreendida apenas pelos argumentos oficiais relacionados à estabilidade regional ou ao controle migratório. A investigação conduzida pelo consórcio Forbidden Stories acrescenta novos elementos ao debate ao sugerir que a pressão exercida por Marrocos pode ter incluído operações clandestinas de inteligência voltadas a influenciar decisões políticas de alto nível.
Independentemente do desfecho definitivo dessas investigações, o episódio evidencia a complexidade das relações entre Espanha, Marrocos e Israel e demonstra como interesses geopolíticos, segurança, migração, tecnologia e inteligência passaram a desempenhar papel central na disputa pelo futuro do Saara Ocidental.
Mais do que um conflito regional, o Saara Ocidental tornou-se um espelho das contradições da política internacional contemporânea, em grande medida dominada pelo sionismo. Enquanto governos europeus afirmam defender a legalidade internacional e o direito dos povos à autodeterminação, suas decisões continuam sendo fortemente condicionadas. Nesse cenário, o povo saaraui permanece aguardando o cumprimento de um direito reconhecido pela ONU há décadas, mas sucessivamente adiado pelas conveniências e a subservência da geopolítica otanista.
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