E os golpistas de 2016? Por Francisco Fernandes Ladeira.

Alguns dos golpistas de outrora, que agiram de forma direta ou indireta na deposição da única mulher a ocupar o Palácio do Planalto, hoje são aclamados por parte da esquerda como paladinos da “democracia”.

Por Francisco Fernandes Ladeira.

Como não poderia deixar de ser, o grande tema do debate público nacional nos últimos dias tem sido a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por cinco crimes, entre eles a tentativa de golpe de Estado. No entanto, quase uma década atrás, não houve apenas uma tentativa, mas, de fato, a consolidação de um golpe de Estado contra Dilma Rousseff. Por uma dessas ironias da política brasileira, alguns dos golpistas de outrora, que agiram de forma direta ou indireta na deposição da única mulher a ocupar o Palácio do Planalto, hoje são aclamados por parte da esquerda como paladinos da “democracia”.

O próprio STF, agora saudado como guardião da democracia, referendou tanto o golpe contra Dilma quanto a prisão de Lula. Basta lembrarmos da famosa fala de Romero Jucá sobre o grande acordo nacional para alçar Michel Temer ao poder: “com o Supremo, com tudo”. Em um passado não tão remoto, Alexandre de Moraes, o “Xandão”, hoje maior ídolo de parcela da esquerda brasileira, votou contra o habeas corpus preventivo de Lula – com o qual a defesa tentava evitar sua prisão após condenação em segunda instância no fraudulento caso do tríplex. Sem falar na antiga ligação de Moraes com o PSDB, partido oficial do golpe de 2016.

Além do Judiciário, a derrubada de Dilma Rousseff não teria sido concretizada sem o apoio da grande mídia. Não por acaso, o saudoso Paulo Henrique Amorim se referia aos principais grupos de comunicação brasileiros como PIG – Partido da Imprensa Golpista. Reciclando sua imagem, a emissora oficial do golpe, a Rede Globo, conseguiu não apenas monopolizar a narrativa sobre a memória da ditadura com o sucesso do filme “Ainda Estou Aqui”, mas também emplacar o discurso de que o Brasil vive sob ameaça de uma nova “ditadura” – como contraponto à democracia burguesa, evidentemente. Trata-se de um movimento que conseguiu paralisar setores da esquerda brasileira, temerosos de que um novo 1964 possa surgir.

Outro nome que apoiou o golpe de 2016 e cuja imagem tem sido ressignificada é o do então articulista da Revista Veja Reinaldo Azevedo, criador do termo “petralha”. Hoje, ele é citado como referência em certos meios progressistas. Definitivamente, a esquerda tem memória curta.

Já os articuladores da Operação Lava Jato – grandes arquitetos do golpe de 2016 do ponto de vista jurídico – seguem imunes a qualquer tipo de processo. Se as autoridades competentes buscassem realmente fazer justiça contra aqueles que solaparam a democracia brasileira, o primeiro passo seria julgar Sérgio Moro e companhia por crimes de lesa-pátria.

Como lembra o velho Althusser, em sociedades capitalistas o Judiciário funciona como aparelho ideológico e repressivo de Estado. Portanto, serve aos interesses da dominação burguesa. Suas decisões, em essência, não beneficiam o proletariado.

Este é um dos pontos básicos da disputa política, mas a esquerda brasileira, infelizmente, não tem percebido. A luta se faz nas ruas, mobilizando a classe trabalhadora, e não terceirizando a militância para os tribunais. O STF condenou os participantes de um golpe que não ocorreu, mas ainda não tomou qualquer medida contra os articuladores do golpe que de fato se consumou.

Nunca foi pela “democracia”.

Francisco Fernandes Ladeira é Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Licenciado em Geografia pela Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac). Especialista em Ciências Humanas: Brasil, Estado e Sociedade pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Mestre em Geografia pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ).

 

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