Donald Trump realizou meu sonho: que Israel pague por suas ações

“Israel nunca encerraria a ocupação por vontade própria”, escreve Gideon Levy. Para ele, a crescente pressão de Washington e o isolamento internacional podem forçar uma mudança histórica. O que muitos veem como pesadelo, Gideon chama de última esperança de transformação.

Por Gideon Levy.

Às vezes, os sonhos se tornam realidade. Durante anos, eu e outros dinossauros sonhamos com a pressão internacional e as sanções como a última saída para essa confusão. Eu sabia que os israelenses nunca acordariam uma manhã e diriam: “Vamos pôr um fim a tudo isso — à ocupação, ao apartheid, ao controle de outro povo — porque isso é horrível”.

Eu sabia que isso simplesmente não aconteceria. Achei que o que fez maravilhas contra o primeiro regime de apartheid, o da África do Sul — sanções, ostracismo e boicotes internacionais que levaram à sua queda — também funcionaria bem contra o segundo regime de apartheid, aquele praticado em Israel.
Eu também sabia que a chave para qualquer mudança na atitude da comunidade internacional em relação a Israel estava em Washington. Sem isso, não poderia haver pressão internacional eficaz sobre Israel. Pensei em um presidente americano esclarecido e corajoso, como Barack Obama, que acabaria com as relações corruptas e distorcidas entre seu país e Israel.

Sonhei com o momento em que os israelenses seriam forçados a reconhecer que era impossível continuar assim, com uma arrogância inacreditável em relação aos Estados Unidos e com um desrespeito flagrante pelo mundo inteiro, sem pagar um preço.

Esse momento está agora surgindo. Não é um presidente liberal, mas sim o mais ignorante de todos os presidentes estadunidenses, que está pregando moralidade a Israel, como se fosse René Cassin, o jurista judeu francês que foi coautor da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O vice-presidente, que é mais conservador do que o comandante-chefe, está emitindo advertências sem precedentes. Seus argumentos são evidentes, sua lógica é sólida: não há necessidade de destruir um prédio inteiro só porque um militante do Hezbollah possa estar lá dentro; não é inteligente atacar o presidente dos EUA, o último amigo de Israel no mundo; a Síria faria um trabalho melhor no Líbano do que Israel; dois terços das armas e munições que protegem Israel são fabricadas e pagas pelos EUA: a voz da razão vinda de Washington.

É razoável supor que essas palavras duras não ficarão apenas no campo da retórica; elas serão seguidas de ações. Um governo tão focado em si mesmo e em sua honra não vai limpar a saliva do rosto e dizer que está chovendo.

Juntamente com o sentimento de amargura, justificado ou não, pelo fato de Israel ter empurrado a superpotência para uma guerra fracassada, um novo amanhecer surgirá nas relações entre os dois países – uma manhã fria e nublada. Nem mesmo as eleições nos EUA mudarão as coisas. Não haverá mais um “amigo de Israel” na Casa Branca, alguém que ache que Israel deve receber tudo, incondicionalmente.

É impossível se alegrar com isso. Por um lado, esta é a última chance de uma correção. Por outro lado, é um duro golpe para Israel e para os israelenses. O maior perigo para o Estado, maior do que qualquer ameaça iraniana, está tomando forma diante de nossos olhos atônitos.

Quando Washington der o sinal, a Europa também se juntará com entusiasmo. Eles estão apenas esperando o sinal. É difícil imaginar como Israel poderá se virar sem o apoio do mundo. O mundo vai detestá-lo, assim como fez com outros Estados pária. Isso é assustador e será doloroso. Mas essa é a nossa última esperança.

Portanto, devemos ser gratos ao presidente Donald Trump por trocar as palavras vazias e sem sentido proferidas por todos os seus antecessores liberais e por adotar uma mudança revolucionária de política.

Chega de ajuda insana e sem condições; agora, cada dólar e cada míssil virão acompanhados de uma condição. Comportem-se ou paguem o preço. Não podem mais fazer o que bem entendem: assassinar, abusar, violar a soberania nacional e o direito internacional com impunidade. Nesse clima, Israel não poderá mais continuar a desprezar a comunidade internacional, para a qual não há questão mais unificadora do que a oposição à ocupação.

Quer queira ou não, Israel terá que levar isso em consideração. As primeiras rachaduras já surgiram, e de que maneira: um acordo feito com o Irã, ignorando totalmente Israel, que por anos ignorou os Estados Unidos e o mundo inteiro.

Isso é apenas o começo: um mundo que ficou horrorizado com o que Israel fez na Faixa de Gaza vai exigir um acerto de contas. Um Estado genocida não pode mais ser o queridinho do mundo ocidental. Um Estado cujos cidadãos realizam pogroms diariamente, com a cooperação de suas forças armadas, não fará parte da família das nações. O sonho está começando a se tornar realidade. Será um pesadelo.

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