As crianças roubadas da ditadura: o tráfico de mais de 20 mil bebês chilenos

Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.

Durante décadas, milhares de famílias chilenas viveram sem saber o destino de seus filhos. Muitas mães acreditavam que seus bebês haviam morrido logo após o nascimento. Outras sequer tiveram a oportunidade de vê-los. Hoje, investigações judiciais, pesquisas históricas e relatos de sobreviventes revelam a dimensão de um dos episódios mais obscuros da ditadura de Augusto Pinochet: o roubo sistemático e o tráfico internacional de aproximadamente 20 mil crianças chilenas.

Os casos ocorreram principalmente entre as décadas de 1970 e 1990, período em que o regime militar governou o Chile após o golpe de Estado que derrubou o presidente Salvador Allende em 1973. Embora o fenômeno tenha atingido famílias de diferentes origens, as principais vítimas foram mulheres pobres, camponesas, indígenas e mães solteiras.

O esquema de adoções ilegais

Segundo as investigações realizadas pela Justiça chilena, o esquema envolvia médicos, assistentes sociais, funcionários públicos, religiosos, advogados e intermediários internacionais.

Em muitos casos, as mães eram informadas de que seus filhos haviam morrido durante o parto ou logo após o nascimento. Sem receber documentação, certidões ou acesso aos corpos, eram obrigadas a aceitar a versão apresentada pelos hospitais.

Na realidade, milhares dessas crianças eram retiradas de suas famílias biológicas e encaminhadas para adoções irregulares, sobretudo para famílias nos Estados Unidos, Suécia, Holanda, Dinamarca, Alemanha, França, Itália e outros países europeus.

Documentos falsificados permitiam registrar os bebês como órfãos ou abandonados, facilitando sua saída do Chile. Em muitos casos, as adoções eram apresentadas como operações humanitárias, quando na prática ocultavam uma rede de separação forçada de famílias.

Ideologia, pobreza e repressão

Especialistas apontam que o tráfico de crianças durante a ditadura não teve apenas motivação econômica. Havia também uma dimensão ideológica.

Setores ligados ao regime consideravam que famílias pobres, especialmente em áreas rurais, não possuíam condições adequadas para criar seus filhos. Sob essa lógica, crianças eram retiradas de seus lares para serem entregues a famílias estrangeiras consideradas mais aptas social e economicamente.

O contexto autoritário da ditadura favorecia a impunidade. O medo da repressão política, a ausência de mecanismos de fiscalização e a fragilidade dos direitos das mulheres pobres criaram condições para que o sistema operasse durante anos sem questionamentos significativos.

Pesquisadores afirmam que a combinação entre preconceito de classe, vulnerabilidade social e poder estatal criou um ambiente propício para que milhares de crianças fossem tratadas como objetos de transferência internacional, sem o consentimento real de suas famílias.

A busca pela verdade

O tema ganhou projeção internacional a partir dos anos 2010, quando organizações de direitos humanos e grupos de vítimas começaram a reunir depoimentos e documentos.

Uma das iniciativas mais importantes foi a criação da organização chilena Nos Buscamos, fundada para localizar pessoas retiradas de suas famílias e adotadas ilegalmente no exterior.

Com o avanço dos testes de DNA e das redes sociais, centenas de reencontros passaram a ocorrer. Homens e mulheres que cresceram acreditando ser filhos biológicos de famílias europeias ou estadunidenses descobriram que haviam sido separados de suas mães no Chile ainda recém-nascidos.

Cada reencontro, porém, também revela décadas de sofrimento acumulado. Muitas mães passaram a vida inteira procurando seus filhos. Algumas morreram sem conhecer a verdade.

Histórias que cruzaram continentes

Por trás das estatísticas estão histórias de vidas interrompidas e identidades reconstruídas décadas depois.

Um dos casos mais conhecidos é o de Jimmy Lippert Thyden. Nascido no Chile durante a ditadura, ele foi levado para os Estados Unidos ainda bebê. Sua mãe biológica, María Angélica González, foi informada de que o filho havia morrido logo após o parto. Apenas 42 anos depois, graças a testes de DNA e ao trabalho da organização Nos Buscamos, Jimmy descobriu sua verdadeira origem e reencontrou a mãe e os irmãos em Valdivia. O reencontro emocionou o Chile e chamou a atenção da imprensa internacional para o escândalo das adoções ilegais.

Reencontro de Jimmy Lypert Thyden com sua mãe biológica, María Angélica González. Foto: CNN

Outro caso emblemático é o de Scott Lieberman. Criado nos Estados Unidos, ele começou a investigar suas origens após identificar inconsistências em seus documentos de adoção. Com o auxílio de bancos genéticos, localizou familiares biológicos no Chile e descobriu que sua mãe jamais havia sido informada sobre seu paradeiro. O reencontro permitiu reconstruir parte de uma história marcada por décadas de separação forçada.

A sueco-chilena Maria Diemar também se tornou símbolo da busca por identidade. Adotada por uma família sueca quando tinha apenas dois meses de vida, ela cresceu acreditando que havia sido entregue voluntariamente para adoção. Anos mais tarde, descobriu que sua mãe nunca autorizara sua retirada. Após uma longa investigação, conseguiu localizar parentes biológicos no Chile. Ela é de origem mapuche.

Maria em Småland, Suécia, abril de 2026, e a bebê Maria, no Chile, setembro de 1975. Foto: Facebook de Maria Diemar

Outro reencontro marcante ocorreu em 2025, quando María Verónica Soto encontrou as filhas gêmeas Maria Beatrice e Adelia Rose Mereu Chessa após 45 anos de separação. As meninas haviam sido retiradas da mãe em 1979 e adotadas por uma família italiana. O reencontro foi celebrado como uma das mais importantes vitórias da luta das famílias chilenas por verdade e justiça.

Mar[ia Ver[onica Soto se reuniu com suas filhas, Maria Beatrice e Adelia Rose Mereu Chessa após 45 anos de separação. Foto: CNN

O caso de Kyle Adler ganhou repercussão internacional em 2026. Adotado por uma família estadunidense quando ainda era bebê, ele cresceu sem conhecer suas origens. Décadas depois, por meio de testes de DNA e da colaboração de organizações dedicadas à localização de crianças desaparecidas, descobriu que fazia parte da rede de adoções irregulares ocorridas durante a ditadura chilena.

Kyle Adler, um chileno-estadunidense de 36 anos, separado de sua família aos nove meses e adotado ilegalmente, abraça sua mãe biológica, Ana Maria Navarrete, após viajar dos EUA para conhecê-la pela primeira vez, em Santiago, no Chile, no sábado, 14 de fevereiro de 2026. Foto: AP/Esteban Felix

Essas histórias representam apenas uma pequena parcela dos milhares de casos ainda sem solução. Para cada família reencontrada, existem muitas outras que continuam procurando respostas.

Investigações e responsabilização

Nos últimos anos, a Justiça chilena abriu diversos processos para investigar a rede de adoções ilegais. As apurações apontam para a participação de médicos, juízes, assistentes sociais e integrantes de instituições religiosas.

Apesar dos avanços, organizações de vítimas denunciam a lentidão dos processos e a dificuldade de responsabilizar todos os envolvidos. Grande parte dos crimes ocorreu há mais de quatro décadas, o que dificulta a localização de provas e testemunhas.

Ainda assim, juristas e defensores dos direitos humanos sustentam que se trata de violações graves e sistemáticas, comparáveis a outras formas de desaparecimento forçado praticadas por regimes autoritários na América Latina.

As investigações continuam em andamento e novas vítimas seguem sendo identificadas por meio de exames genéticos, ampliando a compreensão sobre a extensão da rede de adoções ilegais.

Uma tragédia que ultrapassa fronteiras

O caso chileno guarda semelhanças com episódios ocorridos na Espanha franquista e na Argentina durante a última ditadura militar. Em todos eles, crianças foram separadas de suas famílias por razões políticas, sociais ou econômicas.

No Chile, entretanto, a escala impressiona. Estima-se que cerca de 20 mil crianças tenham sido retiradas de suas famílias e enviadas para adoção, tornando-se um dos maiores casos de tráfico infantil internacional já documentados na história contemporânea.

Mais de três décadas após o fim formal da ditadura, a busca por justiça continua. Para milhares de famílias, a transição democrática ainda não terminou. Ela só será completa quando cada história puder ser esclarecida e quando aqueles que transformaram crianças em mercadoria responderem por seus atos.

A história das crianças roubadas do Chile não é apenas um capítulo do passado. É uma lembrança permanente de como o autoritarismo pode avançar sobre os direitos mais básicos, inclusive o direito de uma mãe conhecer e criar seu próprio filho.

Enquanto novas famílias são reunidas, milhares de outras ainda aguardam respostas. Cada teste de DNA realizado, cada documento encontrado e cada reencontro familiar representam um passo na reconstrução de uma memória coletiva que a ditadura tentou apagar, mas que continua emergindo por meio das histórias daqueles que nunca deixaram de procurar.


Descubra mais sobre Desacato

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here
Are you human? Please solve:Captcha


Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.