Contamina-me Topázio! Por Raul Fitipaldi.

 

Foto: Getty Images

Por Raul Fitipaldi, para Desacato.info.

Quando você escolhe uma cidade para morar, e passa mais de três décadas nela, é porque se sente bem, acolhido pelo povo. Sentir-se à vontade em Florianópolis não é difícil. A natureza é pródiga, um milagre diário que o seduz a cada momento. Mas é o suficiente estar rodeado de morros, lagos, córregos, riachos, acordar com o canto dos pássaros e sentir a música gostosa do mar? Claro que não é.

Florianópolis é uma das capitais mais desiguais do Brasil, tanto que em 2022 os alimentos tiveram uma alta de quase 70% em Santa Catarina, estado onde a capital é um dos pontos mais caros quando chega o verão. Com moradores passando necessidades básicas na periferia, nos morros, nas ocupações que são produto da falta de dinheiro para viver dignamente, em casa própria ou pagando um aluguel. Ocorre que a Meiembipe dos olhos, há tempo tem gestores ruins, de costas à realidade dos mais pobres e dos excluídos. Essa situação se agravou a cada má gestão pública. Nas últimas décadas foi acompanhada de problemas graves pelo crescente mal uso do solo, pela falta de prevenção com relação aos fenômenos naturais. E, nos últimos anos, pela pandemia da Covid 19. A esse cenário ruim, agregou-se agora a epidemia de diarreia e a contaminação viral, aparentemente pela péssima condição das suas belíssimas praias.

Segundo a carta que um conjunto de coletivos da UFSC (Programa Ecoando Sustentabilidade – UFSC- RMA e Laboratório de Virologia Aplicada – UFSC Labomar-UFC) enviaram anteontem, dia 10 de dezembro, à Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, a situação é muito grave. Florianópolis correlata de maneira superlativa uma situação que, de fato, é grave em todo o país e no estado catarinense. Num trecho da missiva diz:

Cerca de 44,2% de sua população, cerca de 100 milhões de brasileiros, (estão) sem acesso ao saneamento básico. Praias com balneabilidade segura no país representaram apenas 29% dos pontos analisados contra 36% em períodos anteriores.

Dados recentes indicam que apenas na cidade de Florianópolis já são mais de 1500 casos de diarreia em crianças e adultos, atingindo o status de epidemia. Essa epidemia pode estar correlacionada com o fato de que das 237 praias analisadas no estado, 124 estão impróprias para banho.”

A poluição e a falta de saneamento completam o miserável desserviço. O prefeito e empresário, Topázio Neto, cujo nome remete a uma belíssima pedra (um tipo fluossilicato de alumínio avaliado como uma pedra preciosa devido à transparência, variedade de cores e elevada dureza) segue a linha dos gestores anteriores, ser de pedra ante os desastres anunciados e a dor que proporcionam aos cidadãos e cidadãs. A falta de sensibilidade e talento se visualiza em tudo. No preço da passagem de ônibus (o executivo custa R$15,00 o que é proibitivo para pessoas idosas que têm dificuldades físicas de usar o serviço convencional, que também é caríssimo), no lixo que se acumula em diversas rodovias estaduais, na falta de perspectiva para o trânsito caótico da cidade, na falta de construção de moradias populares para as pessoas de baixa renda e agora, nesta, desculpem, caganeira geral que nos assalta, depois de estarmos três verões sem poder usufruir plenamente dos lugares públicos pela pandemia de coronavirus.

Topázio anuncia sua vontade de construir um hospital onde era o antigo aeroporto da cidade. Vai precisar construir muito mais do que isso. Muito mais do que postos de saúde. Precisa construir consciência nas elites de que é urgente um Plano Diretor sério, lógico, humanizado, cidadão. É preciso que pare com a visão eleitoreira de que só ganha voto obra de porte e que todo mundo pode ver: ruas, avenidas, hospitais, etc. e pensar urgentemente na qualidade ambiental e sanitária da cidade.

Como é possível que uma cidade que recebe centenas de milhares de turistas, que faz desse turismo um dos seus principais trunfos de sobrevivência, receba esses visitantes e mantenha seus moradores sem saneamento básico, sem rede de esgotos, sem preservação séria da natureza? Ou aceita que de fato esta é pra ser uma cidade excludente, vertical, para ricos e muito ricos, e que o restante da população se lasque. É normal que passado o pior momento de pavor ocasionado pela pandemia de coronavírus os moradores fiquem aterrorizados pela contaminação? Que tipo de empresário bota fogo no negócio principal que como gestor tem nas mãos, a manutenção e preservação das belezas naturais da Ilha? O povo de Florianópolis, aquele que reside o ano todo, está cansado de pandemias, epidemias, lixo, poluição, carestia inusitada no verão, destruição da natureza, imobilidade, insensibilidade e do coração de pedra dos gestores.

Mudando de clima: transcorria o sábado 7 de dezembro, um dia antes da tentativa de golpe em Brasília, e uma família de vizinhos uruguaios, festejando um aniversário, conversavam animadamente, riam e, em determinado momento, colocaram música no som do carro. Uma das primeira músicas que se ouviu foi “Contamina-me”, um clássico pop da cantora e atriz espanhola Ana Belén e do seu companheiro de arte e de vida, o grandíssimo asturiano, Victor Manuel. Uma música doce e linda. Nesse momento, folga dizer, veio à memória o senhor prefeito de Florianópolis, Topázio. – Contamina-me Topázio!

Assista Ana Belém e Victor Manuel cantando Contamina-me, no vídeo abaixo:

1 COMENTÁRIO

  1. Realmente temos um governo municipal. ( novamente) com uma câmara que abona tudo o que faz, eleitos por este nosso povo lúcido e inteligente. Matarão a galinha de ovos de ouro em compensação o asfaltaço é prioridade e a aprovação do aumento de indices de construção também, fazendo com que milhares de outras pessoas se mudem para cá. Saneamento não precisa. Isto é uma discussão eterna sem sentido já que era só começar a fazer sem a alegação disso ou daquilo. Tudo é motivo para NÃO fazer.

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