A possibilidade de paralisação dos trabalhadores do Centro de Informática e Automação do Estado de Santa Catarina (CIASC) reacendeu o debate sobre o futuro da infraestrutura digital catarinense. No programa JTT, Raul Fitipaldi e Sofia Andrade entrevistaram Leonardo Mecabô, secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados de Santa Catarina (SINDPD/SC), que alertou para os riscos provocados pela redução contínua do quadro funcional e pelo descumprimento de acordos relacionados ao plano de carreira da categoria.
Segundo Mecabô, a principal reivindicação dos trabalhadores é a implementação de um novo Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS), uma demanda que se arrasta há mais de duas décadas. O sindicalista afirma que sucessivos governos prometeram modernizar a estrutura de carreira da empresa, mas os compromissos assumidos nunca foram efetivamente cumpridos.
A espinha dorsal digital do estado
Embora pouco conhecido pela população, o CIASC desempenha papel estratégico para o funcionamento da administração pública catarinense. A empresa é responsável pelo desenvolvimento de sistemas, manutenção de data centers, redes de comunicação e infraestrutura tecnológica que sustentam serviços essenciais do governo estadual e de diversos municípios.
Entre os serviços dependentes da estrutura do CIASC estão sistemas administrativos, redes de comunicação de órgãos públicos, unidades de saúde, escolas e diversos serviços digitais utilizados diariamente por cidadãos e servidores públicos. Florianópolis, Joinville e outras cidades mantêm operações diretamente apoiadas pela empresa estatal.
Para os trabalhadores, a fragilização da empresa não representa apenas um problema corporativo, mas uma ameaça ao funcionamento de serviços públicos fundamentais.
Redução drástica do quadro funcional
O principal alerta feito pelo sindicato está relacionado à diminuição contínua do número de trabalhadores. De acordo com Leonardo, o CIASC já chegou a contar com mais de mil funcionários. Atualmente, possui menos de 300 e poderá cair para cerca de 200 empregados caso avance o Programa de Demissão Voluntária Incentivada (PDVI).
O contraste é ainda maior quando comparado com estruturas semelhantes em estados vizinhos. Segundo o dirigente sindical, empresas públicas de tecnologia do Paraná e do Rio Grande do Sul mantêm quadros superiores a mil trabalhadores.
Para os representantes dos trabalhadores, a redução de pessoal está levando a empresa a um ponto crítico. Profissionais experientes acumulam funções de manutenção, suporte e sustentação dos sistemas, sem condições de dedicar-se a projetos de inovação e desenvolvimento tecnológico.
Risco de colapso tecnológico
Durante a entrevista, Leonardo afirmou que a tecnologia não funciona de forma autônoma e depende diretamente de profissionais qualificados para manter sistemas, redes e bancos de dados operando continuamente.
Segundo ele, a continuidade do processo de enxugamento pode comprometer a capacidade operacional da empresa e gerar impactos em serviços digitais utilizados pelo governo estadual e por administrações municipais.
Além da manutenção dos sistemas atuais, os trabalhadores alertam para dificuldades crescentes na gestão de novos projetos e na incorporação de profissionais contratados por meio de bolsas e programas temporários, uma vez que a própria estrutura responsável por coordenar essas atividades estaria sendo reduzida.
A preocupação também se estende à segurança da informação e à proteção dos dados administrados pelo estado. Embora não tenha apontado riscos imediatos de vazamento, o sindicato argumenta que estruturas fragilizadas tendem a ser mais vulneráveis à sobrecarga operacional e à perda de conhecimento técnico acumulado ao longo dos anos.
Greve e descumprimento de acordos
A decisão de iniciar um movimento grevista está ligada ao descumprimento de cláusulas do acordo coletivo que previam a implantação do novo PCCS.
Segundo Mecabô, uma comissão formada por representantes dos trabalhadores, do sindicato e da empresa elaborou estudos técnicos e financeiros para viabilizar a proposta, respeitando inclusive limites orçamentários exigidos pelo governo. Apesar disso, o projeto não foi aprovado nem implementado.
Os trabalhadores argumentam que a falta de perspectivas de valorização profissional tem contribuído para a evasão de quadros qualificados e para a dificuldade de renovação da equipe.
O fantasma da privatização
Outro tema que surgiu durante a entrevista foi a possibilidade de privatização do CIASC. Questionado por Raul Fitipaldi, Leonardo afirmou que a ameaça acompanha a empresa há décadas e reaparece frequentemente a cada troca de gestão.
Segundo ele, diferentes presidentes chegaram à empresa com a missão declarada de avaliar sua privatização, mas acabaram reconhecendo a importância estratégica da estrutura tecnológica mantida pelo CIASC para o funcionamento do estado.
Para o sindicato, o enfraquecimento gradual da empresa pública pode abrir espaço para a transferência de serviços estratégicos ao setor privado, incluindo sistemas que armazenam e processam grandes volumes de dados da administração pública.
Tecnologia pública ou dependência privada?
O debate em torno do CIASC ultrapassa a disputa salarial e sindical. Trata-se também de uma discussão sobre soberania digital, capacidade tecnológica do setor público e controle sobre informações estratégicas da sociedade catarinense.
Enquanto os trabalhadores defendem investimentos, recomposição do quadro funcional e modernização da carreira, o governo ainda não apresentou uma solução capaz de responder às preocupações levantadas pela categoria.
O impasse ocorre em um momento em que os serviços digitais tornaram-se essenciais para o funcionamento da administração pública. A continuidade do sucateamento denunciado pelos trabalhadores poderá ter consequências que vão muito além dos limites da empresa, atingindo diretamente cidadãos que dependem diariamente da infraestrutura tecnológica do estado catarinense.
Assista à entrevista completa no vídeo abaixo
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