Antiguidades guardadas em mim

Por Luciane Recieri, para Desacato.info.

Que gosto tem o autêntico?
Era pelo gosto autêntico, misturado à ternurinha daquilo que conservam os objetos – a presença de alguém – era pelo esforço de manter vivo na memória os restos de labuta de quem as construiu e isso pra mim também é vida.
O tio Zé Miguel sempre foi um exemplo disso, destas anacronias e debruçamentos em cima do que não tem mais jeito de ser. Era uma espécie de Granado, era mecânico ao modo cubano, tirava umidade do pó pra fazer um carro andar. Como disse um dia Baudelaire, “toda essa ‘tranqueira’ tem um valor moral”, pois bem, mesmo sem saber consertar nada, tive como herança o vício de resgatar cacos pra tentar reconstruir memória.
Siinto-me anacrônica. Não há consonância. E um rádio e sua caixa de madeira envernizada me olha, a frente de jacquard e, num chiado, a voz de Omara Portuondo.

Luciane RecieriLuciane Recieri é cientista social e escritora, em Jacareí /SP


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