Algumas reflexões sobre os programs de combate ao tabagismo

Merecidos elogios internacionais ao trabalho de combate ao tabagismo no Brasil, reproduzido nos números de redução importante de fumantes ao longo dos últimos 30 anos

Imagem: UNIR

Por Sebastião Costa.

Os 34% de adultos brasileiros que se intoxicavam com as muitas substâncias nocivas da fumaça do cigarro, verificado lá pelos anos 90, foram reduzidos para 11,6%, conforme os números da Vigitel/MS de 2024. No entanto, um olhar mais atento nas últimas pesquisas disponíveis – Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), Levantamento Nacional de Álcool e Drogas( LENAD III), Vigitel e vai-se encontrar uma convergência preocupante nos números que apontam uma reversão na curva epidemiológica do tabagismo em nosso país. E conforme as expectativas, são os jovens (destaque para as mulheres) que estão realimentando o consumo da nicotina, essencialmente através dos Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs). Um olhar na PeNSE-2024 e vai-se enxergar um aumento de 300% no uso recente desses dispositivos entre escolares.

E o LENAD III de 2023 não permite dúvidas: “Cerca de 26,1% dos fumantes relataram ter iniciado o consumo antes dos 14 anos, percentual que alcança 37,6% entre adolescentes fumantes, aumentando o risco de dependência e de danos respiratórios de longo prazo. No caso dos dispositivos eletrônicos para fumar, 76,3% dos adolescentes que experimentaram mantiveram o uso, e 80,7% consideram fácil o acesso a esse produto.”

Há de se convir, que a regressão dos números de fumantes no Brasil tem uma relação direta com a introdução de normas e dispositivos legislativos – Ambientes Livres do tabaco, proibição das publicidades, inserção de mensagens nos maços de cigarros, passando pela tributação nos preços e a introdução dos Programas púbicos de cessação de tabagismo.
Mas, um olhar mais atento no perfil epidemiológico do tabagismo e vai-se concluir que essas medidas atingiram essencialmente o adulto, sem grandes repercussões na galera transitando entre a infância e a adolescência, momento de formação e sedimentação da personalidade, tornando o jovem mais fragilizado e mais atraído pela ação ansiolítica da nicotina.

Aplausos efusivos aos Programas de Cessação de Tabagismo, importante no trabalho efetivo do dependente romper com essa prática nociva. Mas, há de se lamentar que a clientela desses programas segue praticamente restrita aos fumantes adultos.

Indispensável, ainda, uma observada nas mensagens inseridas nos maços de cigarros. Elas seguem enxergando apenas os adultos que, fale-se o óbvio, já estão plenamente conscientizados dos riscos de desenvolver câncer, enfisema, infarto… Por outro lado, há de se admitir que parcela importante desses fumantes não estão devidamente informados da existência dos Programas públicos de cessação do tabagismo.

Um olhar mais incisivo em todo esse raciocínio faz surgir uma pergunta irresistível: quantos dos 26,1% dos jovens com menos de 14 anos e quantos dos 37,% de adolescentes pesquisados pelo LENAD III estão preocupados em um dia ser acometido por um infarto, surgir carcinoma em seu pulmão ou a chegada de um enfisema limitando suas atividades diárias? E fica muito difícil imaginar um adolescente preocupado com morte precoce, com impotência sexual!!! Desempenho na academia, estética, atividades esportivas certamente participam com mais frequência no rol de preocupações desses jovens.

Não se pode deixar de referir que a reversão de mentalidade em relação ao hábito de fumar incorporada à consciência da sociedade, participou ativamente como pano de fundo para a redução do nicotinismo no país. Mas, a ideia de nocividade e a prática anti-social conectada ao tabagismo não foram devidamente inseridas na mentalidade dos jovens, facilmente observada nas festinhas, nos embalos regados a muita fumaça e aerossol nicotinizados.

Todo esse raciocínio tem apenas a intenção de despertar nos guerreiros combatentes do tabagismo, a necessidade de uma reflexão mais atenta, no sentido de rediscutir nossas estratégias de ação observando a evolução do consumo de nicotina em nosso país, em estreita harmonia com os dados registrados pelo LENAD III, PeNSE, Vigitel.

Sebastião Costa – Pneumologista
Presidente do Comitê Anti-tabagismo da AMB-Pb
Membro da Comissão de Tabagismo da AMB

 

 

 

 


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