Sábado dia 18 de julho de 2026. Ao lado do trapiche da beira-mar norte, uma área encontra-se cercada. Na cerca, alguns cartazes de propaganda da construtura JL e da Prefeitura de Florianópolis, com imagens exaltando o projeto da marina. Pedestres passam ao lado, fitando as imagens e comentando sobre o assunto.
Do outro lado da cerca uma retroescavadeira estacionada, sendo vigiada por um trabalhador. Outro cartaz alerta que a obra também é vigiada eletronicamente. O clima é pacato, e um fotografo do grupo ND+ aparece para tirar algumas fotos da obra em seu estágio inicial.

Um grupo de ativistas se aproxima e estende duas faixas grandes. Na primeira os dizeres: “Desculpe o Transtorno: em breve marina para ricos”, na segunda: “Megalomarina não! pela saúde das baías e em defesa da pesca artesanal e maricultura”. Frases que trazem o contraponto desta obra tão comemorada pelo capital imobiliário e pela gestão Topázio (Podemos) e seus aliados, e fazem um resgate de uma luta que começa bem antes.

Os passantes observam surpresos com a intervenção, que coloca um ponto de interrogação na normalidade. Uma senhora com um cachorro para e ajuda a segurar as faixas, diz que gravaria uma entrevista em apoio a luta, mas que um familiar tem uma lancha e é favorável ao projeto e isso traria problemas na família. Alguns passam xingando as ativistas. Apesar da propaganda massiva durante anos da prefeitura e da mídia hegemônica da cidade, que desde o inicio se colocou como favorável e silenciou as vozes dissidentes, ainda é possível notar que a obra carrega polêmica. Basta consultar os comentários em alguma das postagens da prefeitura ou de perfis pagos por ela, como o Floripa Mil Grau e o Florianópolis no instagram.

Após a exposição das faixas no local de inicio das obras, a ação se deslocou para os semáforos da avenida beira-mar norte, onde as faixas eram expostas na avenida nos poucos segundos reservados para os pedestres passarem. O trânsito fluía bem, mas o cenário deverá ser bem diferente com o avanço das obras, com a necessidade de deslocamento de caminhões que irão trazer materiais para a construção de 140 mil metros quadrados, e que contará com um estacionamento subterrâneo para carros.


Durante a intervenção na avenida, um motoqueiro parou no semáforo e se manifestou favorável ao protesto, dizendo que é pescador do João Paulo, região da maior comunidade pesqueira da cidade. Pouco tempo depois chega a última pessoa para participar do protesto, que já estava se encaminhando para o final. Um pescador da região central, acompanhado do seu filho pequeno. Ele aceitou ser entrevistado, falando sobre os impactos na pesca para um vídeo que será elaborado pelas ativistas.

Uma luta que tem história:
Há uma década movimentos sociais e as comunidades de pescadoras e pescadores artesanais, maricultores e extrativistas, e pessoas pesquisadoras se colocam contrárias a este megaempreendimento voltado para uma elite e com impactos imensos e de diversas naturezas.
Onze anos atrás, durante a gestão do prefeito César Souza Júnior (PSD), os planos de construir uma grande marina com um hotel de luxo na Ponta do Coral eram derrotados pela atuação dos movimentos populares. Com a derrota, em 2017, o recém eleito Gean Loureiro (MDB) retoma a ideia, ampliando o projeto e o deslocando para a região atual, em um dos metros quadrados mais caros de Florianópolis.
De lá para cá os movimentos populares seguiram travando essa luta, com diversas idas e vindas. Pareceres técnicos, como um laudo do Ministério Público Federal, contestaram o Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e do Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) entregues pela construtora JL e elaborados pela empresa Ambiens. O laudo evidencia que os estudos subestimaram os impactos da dragagem, escavação e bota-fora, pois liberariam sedimentos contaminados por metais pesados numa baía já poluída, ameaçando a pesca e a maricultura com riscos sanitários e sem mitigação adequada, além de não terem consultado as comunidades tradicionais afetadas, conforme determina a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT.
Entretanto em abril de 2025, uma audiência de conciliação na Justiça Federal, marcada por uma manifestação, foi fundamental para o avanço do projeto. O IBAMA alegou não ser de sua competência realizar o licenciamento ambiental, e e a Justiça Federal determinou que o IMA (Instituto do Meio Ambiente, de gestão estadual) desse continuidade. Com forte pressão política do governador Jorginho Mello (PL) o projeto prosseguiu sem maiores dificuldades, culminando com a entrega da LAI (Licença Ambiental de Instalação), feita pelo governador ao prefeito em fevereiro deste ano.
O último fato político antes das obras foi a assinatura do contrato de cessão de uso do espelho d’água da Baía Norte, feito pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU), em 18 de junho, durante um dia de visitas do Governo Federal em Florianópolis. O documento garante a autorização necessária para a utilização da área marítima, removendo uma das últimas etapas pendentes para o avanço do projeto.

Obras começaram na quinta, dia 16 de julho:
As obras vinham sendo anunciadas desde a semana passada, quando Renato Igor, da NSC, conhecido propagandista do projeto, anunciava as maravilhas que o futuro empreendimento traria para a cidade.
Na quinta, dia de inicio das obras, o Bom Dia SC, também da NSC, inicia com Anderson Silva falando para a população ir se preparando para a obra, que vai ter seus efeitos colaterais, mas que tudo se pagará no futuro. Ele comenta que a prefeitura está se planejando para obras de melhoria de mobilidade urbana no entorno, com planos de empréstimos de dinheiro do governo federal para isso. Contradizendo a narrativa de que a obra privada não gastaria dinheiro público.
A tarde, o prefeito em pessoa foi lá ver os caminhões descarregando as primeiras pedras e gravou um vídeo para as redes sociais.
Manu Vieira, vereadora do Novo, e conhecida apoiadora do setor da construção civil até pegou uma pedrinha de recordação.
Os já citados perfis bem-humorados pagos com dinheiro público também fizeram propaganda.

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