Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
O crescimento da imigração no Brasil, especialmente em estados como Santa Catarina, transformou a realidade das escolas públicas. Crianças e adolescentes vindos de diferentes países — e também de outras regiões brasileiras — chegam às salas de aula trazendo novas línguas, culturas, histórias e desafios. A pergunta que se impõe é direta: o sistema educacional está preparado para recebê-los?
Para a professora Célia Vendramini, do Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a resposta é inequívoca: não.
Em entrevista ao programa JTT, apresentado por Sofia Andrade e Raul Fitipaldi, a pesquisadora afirmou que as escolas brasileiras ainda tratam a presença de estudantes imigrantes como uma situação excepcional, quando, na realidade, ela já faz parte da dinâmica permanente da sociedade.
Coordenadora do subgrupo de pesquisa Migração e Educação, integrante do Núcleo de Estudos sobre as Transformações no Mundo do Trabalho (TMT/UFSC), Vendramini participou da entrevista para discutir um dos temas que será aprofundado no seminário promovido em parceria entre a UFSC, a UDESC e o Portal Desacato.
Uma realidade permanente
Segundo a pesquisadora, o número de estudantes imigrantes cresce em todas as etapas da educação básica, da educação infantil à Educação de Jovens e Adultos (EJA). Mesmo assim, políticas estruturadas continuam inexistentes.
“O estudante imigrante ainda é visto como alguém provisório”, observa. Essa percepção impede que governos e redes de ensino desenvolvam políticas permanentes de acolhimento, formação docente e acompanhamento pedagógico.
Em vez de reconhecer que a migração se tornou um fenômeno estrutural, as respostas continuam sendo emergenciais e fragmentadas.
Muito além da barreira da língua
Embora a dificuldade com o idioma seja um dos primeiros obstáculos enfrentados pelas crianças, Vendramini alerta que ela representa apenas uma parte do problema.
Antes mesmo de chegar à escola, muitas famílias passaram por processos marcados por perdas, deslocamentos forçados, violência, pobreza ou crises climáticas. Crianças deixam para trás amigos, familiares, suas referências culturais e, frequentemente, enfrentam trajetos longos e perigosos.
“Na mochila não vêm apenas o caderno e o livro. Vem toda uma história de vida”, resume a professora.
Essas experiências repercutem diretamente na aprendizagem, na socialização e na saúde emocional dos estudantes, exigindo uma preparação que vai muito além do ensino da língua portuguesa.
Migração interna também é invisibilizada
A entrevista também chama atenção para um aspecto frequentemente ignorado: os migrantes brasileiros.
Alunos vindos do Pará, Maranhão, Bahia, Rio Grande do Sul ou de outras regiões enfrentam mudanças profundas de clima, costumes, sotaques e práticas escolares. Ainda assim, raramente são reconhecidos como migrantes.
Segundo Vendramini, esses estudantes também sofrem preconceito, racismo e xenofobia dentro das escolas. Casos de ridicularização de sotaques ou estereótipos sobre moradores da Amazônia são exemplos de discriminações ainda presentes no ambiente escolar.
Ao mesmo tempo, a pesquisadora destaca que essa diversidade poderia representar uma enorme riqueza pedagógica, permitindo trabalhar conteúdos relacionados à geografia, cultura, história e diversidade brasileira.
Na prática, porém, escolas superlotadas, falta de infraestrutura e sobrecarga dos professores impedem que esse potencial seja aproveitado.
Leis existem. Políticas efetivas, não.
O Brasil possui a Lei de Migração (2017), além de legislações estaduais e municipais que asseguram direitos à população migrante.
Em Florianópolis, por exemplo, a legislação prevê o respeito à diversidade cultural e a capacitação da rede municipal para atender estudantes migrantes.
Entretanto, segundo Vendramini, essas normas permanecem, em grande medida, apenas no papel.
Sem regulamentação, financiamento adequado e programas permanentes, os direitos previstos na legislação deixam de se transformar em políticas públicas efetivas.
O limite do programa catarinense
Santa Catarina possui um programa estadual voltado ao atendimento de estudantes imigrantes internacionais. Porém, a pesquisadora aponta limitações importantes.
A adesão depende da iniciativa das próprias escolas, que precisam cumprir uma série de exigências administrativas e estruturais. Além disso, o atendimento alcança apenas parte dos estudantes migrantes existentes no estado.
Outro problema destacado é que os profissionais são contratados temporariamente e recebem formação remota e assíncrona, considerada insuficiente para enfrentar uma realidade tão complexa.
Para Vendramini, esse modelo transfere responsabilidades para as escolas sem oferecer o suporte necessário por parte do Estado.
Um estado acolhedor para quem?
Durante a entrevista, a pesquisadora também questionou o discurso de que Santa Catarina seria um estado especialmente acolhedor para migrantes.
Segundo ela, o crescimento da imigração está diretamente relacionado à demanda por mão de obra em setores como frigoríficos, construção civil, comércio e trabalho doméstico.
Receber trabalhadores, afirma, não significa necessariamente garantir políticas públicas capazes de assegurar educação de qualidade para seus filhos.
Construir respostas coletivas
A oficina que será realizada durante o seminário pretende reunir pesquisadores, professores, sindicatos, movimentos sociais e comunicadores para discutir não apenas os problemas, mas também possíveis soluções.
A proposta é construir diagnósticos coletivos sobre a realidade das escolas e formular caminhos para fortalecer políticas públicas capazes de garantir inclusão, permanência e aprendizagem para estudantes migrantes.
Em um mundo marcado por deslocamentos cada vez mais frequentes, o desafio colocado por Célia Vendramini vai além da educação. Trata-se de decidir se a escola pública continuará tratando a migração como exceção ou se assumirá seu papel como espaço de acolhimento, diversidade e garantia efetiva de direitos.
Assista à entrevista completa no vídeo abaixo
Descubra mais sobre Desacato
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





