Por Mariana Soares.
Há uma ironia histórica rondando a direita brasileira.
Durante décadas, ela se apresentou como a guardiã exclusiva da moral, da família e dos bons costumes. Não bastava disputar eleições; era preciso reivindicar uma superioridade ética. A esquerda podia ter projetos econômicos, propostas sociais ou programas de governo, mas era retratada como uma ameaça aos valores da sociedade. A política deixou de ser um debate entre ideias para se transformar em uma cruzada moral.
Foi um projeto extremamente bem-sucedido.
Em nome da defesa da família, censuraram livros, demonizaram professores, atacaram artistas, perseguiram pessoas LGBTQIA+, transformaram a educação sexual em conspiração e venderam a ideia de que existia uma guerra permanente entre o “bem” e o “mal”. Quem ocupava o púlpito moral não precisava apresentar soluções para os problemas do país. Bastava apontar pecadores.
Mas toda cruzada corre o risco de tropeçar na própria espada.
A recente decisão de Michelle Bolsonaro de compartilhar o relato do ex-governador Anthony Garotinho sobre uma suposta orgia organizada pelo banqueiro Daniel Vorcaro revela muito mais do que uma disputa entre grupos do bolsonarismo. A alegação permanece sem comprovação pública, e o próprio Garotinho afirmou não ter verificado a autenticidade do material mencionado. Ainda assim, o episódio é politicamente revelador.
Porque expõe aquilo que o moralismo sempre tentou esconder: sua extraordinária seletividade.
Quando surgem acusações envolvendo adversários, o julgamento costuma ser imediato. Não há presunção de inocência, contexto ou prudência. A simples suspeita é suficiente para construir narrativas sobre decadência moral, destruição da família e ameaça à civilização cristã.
Quando os fatos ou alegações alcançam personagens do próprio campo conservador, o discurso muda. Aparecem pedidos de cautela, denúncias de perseguição, teorias conspiratórias ou um silêncio cuidadosamente calculado.
A moral deixa de ser princípio.
Passa a ser instrumento.
Essa lógica não nasceu no Brasil.
O caso Jeffrey Epstein talvez seja o maior símbolo contemporâneo da falência moral das elites que pregam virtudes em público enquanto convivem, nos bastidores, com ambientes marcados pelo privilégio, pela impunidade e pelo abuso de poder. É fundamental distinguir os fatos: a rede criminosa de Epstein foi comprovada judicialmente, enquanto a mera presença de determinadas pessoas em seus círculos sociais ou registros de voo não constitui prova de envolvimento em crimes. Ainda assim, o escândalo demoliu a imagem de uma elite que discursava sobre responsabilidade e valores enquanto frequentava espaços incompatíveis com essa retórica.
A “ilha de Epstein” tornou-se uma metáfora universal da hipocrisia. Não porque todos os seus frequentadores tenham cometido crimes. Mas porque revelou a distância entre o sermão e a prática.
No Brasil, essa distância também se tornou um elemento estrutural da política conservadora.
A família converteu-se em slogan eleitoral. A religião foi incorporada às estratégias de marketing. Os bons costumes tornaram-se uma poderosa ferramenta de mobilização emocional.
Enquanto isso, problemas concretos das famílias brasileiras — fome, desemprego, violência doméstica, abandono infantil, desigualdade social, precarização do trabalho — permaneceram frequentemente em segundo plano. Defender a família parecia significar muito mais combater inimigos culturais do que enfrentar as condições materiais que destroem milhões de lares todos os dias.
É justamente por isso que episódios como o envolvendo Michelle Bolsonaro produzem tamanho desgaste político.
Não porque digam respeito à intimidade de alguém.
A vida privada entre adultos, quando pautada pelo consentimento e pela legalidade, não deveria ser objeto de patrulhamento político.
O desgaste ocorre porque foi a própria direita que transformou a intimidade em critério de legitimidade pública. Foi ela que decidiu medir a capacidade de governar pela vida sexual, pelos costumes e pela religiosidade. Foi ela que escolheu substituir o debate sobre políticas públicas por um permanente tribunal moral.
Quem cria um tribunal não pode reclamar quando acaba sentado no banco dos réus.
Talvez o maior problema do moralismo conservador seja justamente este: ele nunca pretendeu estabelecer regras universais. Sempre funcionou como uma tecnologia de poder. Servia para disciplinar adversários, mobilizar bases eleitorais e produzir indignação seletiva.
Por isso, a moral muda conforme muda o personagem. O escândalo depende do sobrenome. A indignação depende da filiação partidária. O pecado depende do lado do espectro político. Essa talvez seja a maior crise enfrentada hoje pela direita brasileira.
Não é uma crise de valores. É uma crise de credibilidade. Porque toda autoridade moral exige coerência. E a coerência desaparece quando os mesmos atores que durante anos se apresentaram como fiscais dos costumes passam a utilizar denúncias sobre a vida privada apenas quando isso interessa às suas disputas internas.
O verdadeiro debate nunca foi sobre sexo. Nunca foi sobre festas. Nunca foi sobre moral. Sempre foi sobre poder. E, quando a moral se transforma apenas em instrumento de poder, deixa de ser ética para se tornar propaganda.
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