Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
Uma mobilização popular inédita em Blumenau colocou o transporte coletivo no centro do debate político. Com mais de 16 mil assinaturas válidas, um projeto de iniciativa popular propõe transformar a função tradicional de cobrador em Agente de Bordo, ampliando suas atribuições para melhorar a segurança, a acessibilidade e o atendimento aos usuários dos ônibus urbanos.
O tema foi discutido no programa JTT, apresentado por Raul Fitipaldi e Rosangela Bion de Assis, em entrevista com Osni Schmidt, presidente do Sindetranscol, sindicato que representa trabalhadores do transporte coletivo de Blumenau, Gaspar, Indaial e Pomerode.
Segundo o dirigente sindical, a proposta não busca preservar uma profissão que perdeu parte de suas funções diante da automação da cobrança de tarifas, mas criar uma nova atividade adaptada às necessidades atuais do transporte coletivo.
Do cobrador ao Agente de Bordo
De acordo com Osni Schmidt, a modernização dos sistemas de bilhetagem eletrônica tornou praticamente desnecessária a função tradicional do cobrador, responsável exclusivamente pela cobrança das passagens.
A proposta apresentada pelo sindicato, porém, vai em direção oposta à simples eliminação desse posto de trabalho.
A ideia é substituir o cargo pelo de Agente de Bordo, profissional treinado para atuar diretamente junto aos passageiros durante toda a viagem.
“O cobrador praticamente deixou de cobrar passagem. A máquina faz isso. Mas isso não significa que o segundo trabalhador dentro do ônibus tenha perdido sua importância”, argumentou.
Muito além da cobrança de passagens
Segundo o projeto, o Agente de Bordo teria funções voltadas ao atendimento humanizado e à segurança dos usuários.
Entre as atribuições previstas estão:
- auxiliar idosos e pessoas com mobilidade reduzida;
- operar o elevador para cadeirantes;
- prestar apoio a pessoas com deficiência visual;
- orientar passageiros durante o embarque e desembarque;
- colaborar na organização interna dos veículos;
- contribuir para prevenir furtos, assédios e outras situações de violência.
Para o sindicato, a presença permanente desse profissional pode reduzir episódios frequentes de importunação sexual, furtos de celulares e bolsas, além de melhorar o atendimento às pessoas que dependem de auxílio durante a viagem.
Uma mobilização popular incomum
O projeto nasceu no Dia do Cobrador, celebrado em Blumenau em 23 de janeiro.
Na ocasião, o sindicato iniciou uma campanha de coleta de assinaturas para apresentar um projeto de iniciativa popular à Câmara Municipal.
Como determina a legislação, apenas eleitores do município puderam participar da coleta.
Mesmo assim, foram reunidas mais de 16 mil assinaturas, número muito superior ao mínimo exigido.
Segundo Osni, se pudessem participar moradores de outras cidades da região, o apoio ultrapassaria facilmente 50 mil assinaturas.
O dirigente considera a mobilização uma demonstração clara de que os usuários valorizam a presença do segundo trabalhador nos ônibus.
Câmara arquiva proposta
Apesar da expressiva participação popular, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara Municipal decidiu rejeitar a tramitação do projeto.
O argumento utilizado foi o de suposta inconstitucionalidade da proposta.
Entretanto, o sindicato discorda da interpretação.
Segundo Osni Schmidt, pareceres utilizados para rejeitar o projeto entram em contradição com decisões anteriores da própria Câmara envolvendo matérias semelhantes apresentadas pelo Poder Executivo.
Por esse motivo, a entidade já ingressou na Justiça buscando reverter o arquivamento e garantir que o projeto seja apreciado pelos vereadores.
Transporte de qualidade também depende de pessoas
Durante a entrevista, Osni destacou que a defesa do Agente de Bordo não está centrada apenas na preservação de empregos.
Segundo ele, trata-se de uma estratégia para recuperar a qualidade do transporte coletivo.
Blumenau possui características urbanas específicas, como relevo acidentado, trânsito intenso e elevado número de passageiros idosos, fatores que tornam ainda mais importante a presença de um profissional circulando dentro do veículo.
“O transporte perdeu qualidade nos últimos anos. O Agente de Bordo pode ajudar a recuperar essa qualidade”, afirmou.
União sindical fortaleceu campanha
Um dos aspectos destacados durante a entrevista foi a ampla articulação construída entre diferentes categorias de trabalhadores.
A campanha contou com apoio de sindicatos da construção civil, alimentação, bancários, professores, trabalhadores da saúde e diversas outras entidades.
Esses sindicatos abriram suas sedes para a coleta de assinaturas e participaram da entrega oficial do projeto à Câmara Municipal.
Segundo Osni, esse envolvimento demonstra que o transporte coletivo não interessa apenas aos rodoviários.
“Todo trabalhador depende do transporte público. Defender sua qualidade é defender toda a classe trabalhadora.”
Críticas à maioria governista
Ao comentar a rejeição do projeto, Osni afirmou que a decisão teve motivação política.
Segundo ele, a base governista possui ampla maioria na Câmara Municipal e teria seguido orientação do Executivo, independentemente do mérito da proposta.
O dirigente afirmou que, nas reuniões realizadas com vereadores, percebeu que alguns parlamentares reconheciam a importância do projeto, mas mantiveram posição contrária por disciplina política.
Para o sindicato, a decisão ignorou tanto o apoio popular quanto os benefícios que o Agente de Bordo poderia trazer ao sistema de transporte.
Debate que ultrapassa Blumenau
Durante a entrevista, os apresentadores lembraram que Florianópolis extinguiu a função de cobrador durante a pandemia, processo criticado por sindicatos e usuários.
Na avaliação dos participantes do programa, a experiência da capital catarinense reforça a importância de discutir modelos que conciliem modernização tecnológica e melhoria da qualidade do serviço.
Para Osni Schmidt, a proposta do Agente de Bordo pode servir de referência para outros municípios brasileiros que enfrentam problemas semelhantes de queda na qualidade do transporte coletivo.
Independentemente do desfecho judicial, o movimento já produziu um resultado expressivo: recolocou o transporte público no centro do debate sobre mobilidade urbana, acessibilidade, segurança e valorização dos serviços públicos essenciais.
Assista à entrevista completa no vídeo abaixo:
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