A Palestina na encruzilhada. Por Alicia Alonso Merino.

Por Alicia Alonso Merino.

Encontramo-nos em um momento histórico marcado por múltiplas formas de violência extrema e em grande escala que romperam as regras tradicionais do jogo. Foi precisamente há mais de 80 anos, diante da evidência de que os Estados podiam se tornar agentes de extermínio e de que a soberania não garantia a proteção da vida, que se tornou urgente construir um marco internacional de direitos humanos que estabelecesse limites universais ao poder. Infelizmente, esse marco tem sido constantemente violado. Ao ver o que aconteceu e o que está acontecendo com a Palestina, só podemos constatar sua morte.

A devastação de territórios, a destruição de ecossistemas, o aniquilamento de povos, culturas e saberes, e a normalização dessas dinâmicas sob discursos de segurança, legitimidade, defesa ou “escolha divina” configuram um cenário global aterrorizante. A Palestina não é uma exceção nem um conflito periférico: é um lugar central a partir do qual se tornam visíveis, de forma crua, as lógicas que organizam o poder capitalista, imperialista e colonial no mundo contemporâneo.

Falar da Palestina hoje implica confrontar um sistema de violência que ultrapassa as categorias convencionais. Não basta falar de conflito, nem mesmo de ocupação ou colonialismo de assentamento, embora esses termos sejam indispensáveis. O que está em jogo exige um marco mais amplo que permita compreender a convergência de múltiplas formas de destruição que pressupõe a existência da entidade sionista chamada Israhell. Nesse sentido, proponho pensar o sionismo e seu projeto político como a figura do “monstro omnicida”.

O monstro omnicida não é uma simples metáfora, mas uma forma de designar um sistema com a capacidade e a prática de destruir todas as formas de vida. Não apenas vidas humanas, mas também territórios, ecossistemas, culturas, línguas, memórias e formas de conhecimento. Esse sistema articula e manifesta múltiplas formas de violência: genocídio, ecocídio, urbicídio, etnocídio, escolasticídio, etc. Não se trata de fenômenos separados, mas de expressões de uma mesma lógica que transforma qualquer forma de vida em algo descartável, gerenciável, eliminável.

A Palestina está inserida na ação dessa lógica. A destruição de infraestruturas civis, o cerco a populações inteiras, a fragmentação territorial, o controle sobre a água, a terra e a circulação, o ataque sistemático a instituições educacionais e culturais, o bloqueio de alimentos e medicamentos, de energia, a destruição do habitat, o encarceramento em massa, a tortura, o assassinato impune e uma triste e longa lista de outros fatos fazem parte de um projeto de dominação, o sionista, que opera por meio da destruição contínua das condições de vida.

Chamar isso de omnicídio não é algo retórico, mas uma questão ética e política. É rejeitar os marcos que minimizam, fragmentam ou justificam essa violência e afirmar que o que está em jogo é a vida em sua totalidade. O sionismo assim concebido é um perigo para a existência e uma ameaça para a humanidade.

No entanto, o conceito de omnicídio encerra uma contradição que se revela fundamental. Um sistema que se baseia na destruição total não pode se sustentar indefinidamente, porque em sua própria lógica inclui sua autodestruição. O omnicídio contém, de certa forma, o suicídio. Um poder que arrasa tudo — a terra, os corpos, as condições que tornam a vida possível — também mina as bases de sua própria existência. O sionismo, por estar fundado na devastação, traz inscrito seu próprio limite. Mas a grande questão é: até quando?

Diante dessa lógica de morte e destruição, falar da Palestina é falar de um lugar de resistência. Em meio a essa necropolítica, surgem práticas que sustentam a vida: redes de apoio mútuo, formas de organização comunitária, produção de conhecimento com poucos recursos, solidariedades que atravessam fronteiras. Essas práticas são fundamentais para resistir à destruição.

Assumir que o que ocorre na Palestina nos diz respeito diretamente, porque revela as lógicas que atravessam nossas próprias sociedades. É reconhecer que estamos em uma encruzilhada: entre a normalização da destruição e da desumanização e a possibilidade de afirmar a Vida, assim, em maiúsculas. Falar de “Palestina na encruzilhada” é, em última instância, falar de nós, de nós mesmas e mesmos, de nós todos e todas. É falar do aqui e agora. Das decisões que tomamos no nosso cotidiano, das posições que adotamos (boicote, sanções e desinvestimentos), das alianças que construímos. Entre o avanço de um projeto político, econômico e social monstruoso e omnicida, que destrói tudo em seu caminho, como é o sionista, e as resistências cotidianas na Palestina que insistem em sustentar a vida, a encruzilhada se transforma em um chamado à ação.

*Esta coluna foi elaborada com base na apresentação que fiz para a Jornada “Palestina na Encruzilhada”, organizada pela associação Interpueblos em Santander, em 19 de março de 2026. https://interpueblos.org/noticias/conferencia-palestina-en-la-encrucijada/, daí o título dela.

Alicia Alonso Merino é advogada feminista e de direitos humanos. Ela presta apoio  sociojurídico em prisões de diversos países.

A opinião do/a/s autor/a/s não representa necessariamente a opinião de Desacato.info.


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