Por Tali Feld Gleiser, para Desacato.info.
Há 52 anos, em setembro de 1973, o Chile e o mundo perderam uma das vozes mais potentes da música popular latino-americana: Víctor Jara. Cantor, compositor, dramaturgo e militante, ele foi brutalmente assassinado pelos militares logo após o golpe de Estado que derrubou Salvador Allende e inaugurou a sangrenta ditadura de Augusto Pinochet. Sua morte não foi apenas um crime político, mas também uma tentativa de calar um símbolo de resistência cultural que até hoje ecoa nas lutas sociais do continente.
Naquele início dos anos 1970, o Chile era um laboratório de esperanças e tensões. O governo de Allende buscava construir uma via democrática ao socialismo, enfrentando a reação das elites locais, dos militares e do imperialismo estadunidense. O golpe militar de 11 de setembro de 1973 foi parte de um contexto global marcado pela Guerra Fria, o avanço de ditaduras na América Latina e o endurecimento dos regimes autoritários. No Brasil, desde 1964, a ditadura já perseguia artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Geraldo Vandré, enquanto na Argentina e no Uruguai a repressão se intensificava.
Víctor Jara foi uma das principais vozes da Nueva Canción Chilena, movimento que buscava recuperar as raízes populares da música latino-americana e transformá-las em instrumento de consciência social. Suas canções combinavam poesia, melodia simples e contundência política. Te Recuerdo Amanda em homenagem à sua filha, Amanda, é uma história de amor e luta operária, El Derecho de Vivir en Paz homenageia Ho Chi Minh e conecta a luta vietnamita contra os EUA com as resistências no sul do mundo; Plegaria a un Labrador é uma convocação direta aos camponeses para levantarem-se contra a exploração; já Manifiesto resume sua visão da música como arma de combate e de esperança.
O assassinato de Víctor também teve caráter simbólico: matar não apenas o militante, mas a própria ideia de que a cultura podia ser força revolucionária. No entanto, o efeito foi inverso. Sua voz se multiplicou em centenas de versões, homenagens e continua inspirando gerações. Músicos brasileiros também se identificaram com seu legado, como Milton Nascimento, Chico Buarque e Mercedes Sosa, entre muitos outros e outras, reforçando os laços de uma resistência continental pela música.
Cinco décadas depois, Víctor Jara permanece como um farol cultural e político. Sua obra é estudada, cantada e reinterpretada não apenas como memória, mas como guia de luta contra ditaduras, injustiças sociais e tentativas de silenciar a arte engajada. Ao relembrar seus 52 anos de assassinato, reafirmamos a vida e a atualidade de sua música: um chamado permanente à dignidade, à solidariedade e à liberdade dos povos.
Tali Feld Gleiser é cofundadora e diretora geral do Portal Desacato. Toda segunda-feira, apresenta o programa Do Rio ao Mar.





